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Combatendo a desnutrição junto às comunidades locais

07/05/2018
Na Índia, crenças culturais colocam em risco a saúde de mães e recém-nascidos
Combatendo a desnutrição junto às comunidades locais

NIKHIL ROSHAN

Em Jharkhand, um estado indiano conhecido por suas diversas comunidades tribais, o número de pessoas desnutridas é persistentemente maior que a média nacional. Desde junho de 2017, Médicos Sem Fronteiras (MSF) tem tratado a desnutrição aguda grave na cidade de Chakradharpur, em Jharkhand, usando um modelo inovador de envolvimento comunitário. Subashini Deb Mahto, originária de uma das comunidades locais, trabalha com MSF como educadora de saúde comunitária. Em entrevista, ela compartilha seu cotidiano de trabalho com MSF e sua experiência direta com a desnutrição.

“Começo meu dia antes do nascer do sol. Uma vez terminadas as tarefas, a comida feita e meus filhos a caminho da escola, fervo um pouco de lal cha (chá preto) e me preparo para o trabalho. Todas as manhãs, às 8:30, vou de bicicleta até o escritório de MSF, que fica a três quilômetros da minha casa.

Eu trabalho com MSF desde o início do projeto de desnutrição, em 2017. Comecei como agente de saúde comunitária, visitando comunidades com o sahiya didi (um trabalhador de saúde do vilarejo, empregado pelo estado de Jharkhand) para identificar crianças desnutridas que precisam de cuidados urgentes e para convencer seus pais a levá-las ao centro de saúde de MSF. Agora, trabalho como educadora de saúde comunitária. Presto aconselhamento às mães que visitam nossos centros de saúde e organizo atividades de conscientização nos vilarejos vizinhos.

A desnutrição é uma questão muito importante para mim. Quando falo com as mães dos vilarejos, entendo como elas se sentem. Eu fui mãe na adolescência e passei pela mesma coisa. Eu tive uma filha logo depois que me casei. Eu tinha 17 anos e não sabia como cuidar dela. Minha filha pesava apenas dois quilos quando nasceu. Em nossa comunidade, existem crenças culturais equivocadas em torno da gravidez, que restringem o que as mães e seus filhos podem comer. Isso pode levar ambos à desnutrição.  As pessoas acreditam que uma dieta rica irá levar o recém-nascido à obesidade e a um parto difícil para mãe. Depois da gravidez, as mulheres só podem comer uma vez ao dia, embora, às vezes, meu marido me desse comida em segredo. Em alguns casos, as crianças não comem carne ou tomam leite até poderem andar sozinhas. Minha filha teve uma dieta muito limitada e restrita, ela comia dal (sopa de lentilha) e arroz, já que não permitiram que ela comesse ovo ou carne em seus primeiros anos de vida.

As mulheres também se desdobram com o trabalho no campo e o trabalho doméstico, destinando pouco tempo a seus filhos. Eu era a única que administrava as tarefas do lar e não tinha ninguém para me ajudar a cuidar do meu filho. Quando o meu segundo filho nasceu, aprendi a cuidar melhor de meus filhos e de mim mesma. Encontrei um emprego em uma ONG de saúde reprodutiva e depois me juntei a MSF.

Chakradharpur, como em Jharkhand, é uma área adivasi (grupo de etnias indianas) que engloba muitas comunidades indígenas e muita diversidade. Por exemplo, quatro idiomas são falados em apenas um dos vilarejos onde trabalho. Nosso papel como trabalhadores da saúde é construir pontes entre MSF e as comunidades. Os membros das equipes que trabalham com educação de saúde nas comunidades são todos das comunidades locais. Quando fomos treinados pelos médicos de MSF para entender melhor a desnutrição, também compartilhamos nosso conhecimento sobre a cultura, a história e as práticas adivasis com o restante da equipe.

Muitas pessoas no vilarejo não entendem que a desnutrição é uma condição que requer cuidados médicos. Localmente conhecida como puni ou dehna, ela é frequentemente atribuída a possessão por espíritos ou a maus presságios. Como resultado, os curandeiros tradicionais são o primeiro ponto de contato para a maioria das famílias e que podem prescrever ervas naturais, ou realizar algumas cerimônias para afastar espíritos. É importante mostrar aos membros da comunidade a importância de identificar a desnutrição e buscar tratamento médico apropriado. Não há escassez de comida nas florestas onde essas comunidades vivem. Precisamos mostrar às jovens mães e às suas famílias a importância de técnicas adequadas de amamentação, de uma dieta diversificada e nutritiva e de manter a higiene adequada.

No início, era extremamente difícil convencer as mães e suas famílias sobre as causas da desnutrição e fazer com que elas procurassem tratamento. Algumas comunidades tribais vivem nas florestas, onde não há transporte público. As mães caminham com seus filhos em terrenos acidentados por mais de quatro quilômetros até chegarem aos centros de saúde mais próximos. Frequentemente, irmãos mais velhos trazem as crianças doentes aos centro de saúde de MSF depois da escola. No mês passado, nossa clínica ficou vazia por alguns dias porque era a estação de colheita e todos os pais estavam trabalhando.

Depois de meses de trabalho duro, conquistamos a confiança da comunidade. Às vezes, nosso centro de saúde fica tão cheio e lotado que não há tempo para descansar. Nesses momentos, eu me esforço mais. Sinto que estamos fazendo um trabalho importante aqui. Assistir a uma criança piorar é a coisa mais dolorosa para uma mãe. Durante uma de minhas visitas, uma mãe pegou minha mão e me disse que havia encaminhado outro paciente para o centro de saúde de Pusalota! O projeto já tratou mais de 600 crianças dessas comunidades e, embora ainda haja muito trabalho a ser feito, posso sentir a alegria das famílias quando seus filhos retornam saudáveis e felizes.”

MSF trabalha na Índia desde 1999, oferecendo tratamento médico a milhares de pacientes em Andhra Pradesh, Bihar, Chhattisgarh, Deli, Jammu, Caxemira, Jharkhand, Maharashtra, Manipur, Telangana, Uttar Pradesh e Bengala Ocidental.

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