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Combate à Malária na África: lentidão na mudança do tratamento tem conseqüências fatais

04/04/2003
Relatório da organização Médicos Sem Fronteiras alerta que o uso contínuo de remédios ineficazes de combate à malária, na África, está causando um aumento de falhas no tratamento e de mortes. Entre as décadas de 70 e 90 o número de casos cresceu 4 vezes.

Um relatório divulgado pela organização de ajuda humanitária Médicos Sem Fronteiras revela que as maiores agências financiadoras, tais como Departamento Britânico para o Desenvolvimento Internacional e a Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento Internacional, continuam financiando tratamento barato, embora ineficaz para o combate da malária na África, apesar do crescente número de mortes provocadas pela doença.

O novo relatório, chamado “ATUE JÁ”, relata o crescimento dramático da malária nas últimas décadas: o número de casos era 4 vezes maior na década de 90 do que nos anos 70; e a taxa de mortalidade nos hospitais africanos subiu 2 a 3 pontos percentuais. O uso contínuo de medicamentos ineficazes, apesar dos níveis alarmantes de resistência, está provocando um aumento de falhas no tratamento e de mortes. O relatório pede aos doadores internacionais que pressionem para a implementação rápida da terapia combinada a base de Artemísia (TCA), um tratamento já testado e que está sendo promovido pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

“Desde 2001, especialistas da OMS vêm recomendando a troca dos medicamentos ineficazes contra a malária por tratamentos mais efetivos, mas os doadores não conseguiram fazer esta mudança, preferindo economizar dinheiro a salvar vidas,” disse Dr. Bernard Pécoul, Diretor da Campanha de Acesso a Medicamentos Essenciais de MSF. “A meta do G8 e dos líderes africanos de reduzir o número de mortes por malária pela metade até 2010 continuará sendo uma fantasia, a não ser que os doadores queiram pagar por tratamentos que funcionem.”

Enquanto muitos países africanos estão seguindo os conselhos dos especialistas da OMS para adotar os protocolos de tratamentos combinados, a falta de recursos internos e de ajuda internacional está forçando os países a trocar por combinações mais baratas. Mas a implementação das novas recomendações para o tratamento da malária é uma questão de vida ou morte na África, onde a doença mata entre 1 e 2 milhões de pessoas por ano. Os doentes e as mortes provocadas pela malária somam de 30-50% das admissões hospitalares e uma perda anual de 12 bilhões de dólares para o continente africano.

Em 1969, quando a erradicação da malária foi abandonada, o foco internacional de controle da doença foi desviado para o tratamento. Naquela época, o tratamento escolhido foi a cloroquina, usada durante três dias. O sucesso dessa campanha de tratamento resultou na queda das taxas de mortalidade até o início dos anos 80. Mas este medicamento não funciona mais na maioria dos países africanos. Por exemplo, em 1999, a Tanzânia apresentou taxas de resistência entre 28-97%, Quênia entre 66-87% e Uganda entre 10-80%.

Para reduzir o aumento da taxa de mortalidade, a OMS está agora recomendando ações de prevenção junto com a introdução do tratamento à base de Artemísia. Essas drogas, que foram usadas por mais de 10 anos na Ásia, são altamente potentes, têm ação rápida e são muito bem toleradas.

No entanto, doadores, em particular os americanos e britânicos, estão barrando a introdução desses medicamentos na África devido, principalmente, aos altos custos. Atualmente, uma dose adulta custa cerca de U$1,5 dólar e espera-se uma redução para U$ 0,50 a U$ 0,80 para 2004/2005, enquanto as drogas mais antigas custam U$ 0,10. MSF estimou que o custo da mudança de tratamento para toda África fique entre U$100-200 milhões.

“Mas o que você faria? Gastaria dinheiro nas drogas baratas que você sabe que não funcionam ou financiaria um tratamento mais caro que vai salvar vidas?” diz Dr. Nick White, Professor de Medicina Tropical das universidades de Mahidol e Oxford no relatório de MSF.

MSF utiliza a combinação à base de Artemísia em Angola, na República Democrática do Congo, no Congo, Zâmbia, Libéria, Quênia, Costa do Marfim e no sul do Sudão e está trabalhando para adotar este tratamento em todos os seus projetos.

Com a ajuda internacional, alguns países africanos já realizaram a troca ou estão no processo de mudança para TAC. KwaZulu Natal, província da África do Sul, já obteve sucesso com a troca, enquanto Burundi, Zâmbia e Zanzibar, na Tanzânia, estão se preparando para a implementação das mudanças.

“Os doadores precisam agir agora porque as tentativas de controlar a malária com um aumento das ações de prevenção e com medicamentos antigos estão fadadas ao fracasso,” disse Pécoul.

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