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Cisjordânia: paciente de MSF relata experiência na prisão

22/01/2014
Em encontros com psicóloga da organização, Jawad detalha acontecimentos que causaram a deterioração de sua saúde mental

Hoje parece com qualquer outro dia normal no escritório da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Hebron. Para Jawad, não é; hoje, ele decidiu falar sobre seu tempo na prisão.

Tenho trabalhado com Jawad* por quase oito meses, desde que cheguei em Hebron, uma cidade muito importante tanto para o islamismo quanto para o judaísmo, depois de Jerusalém. É a única cidade na Cisjordânia onde os assentados judeus vivem entre as fronteiras da própria cidade. Devido à sua importância religiosa e política, Hebron é, constantemente, cenário de violentos confrontos entre palestinos e israelenses. A cidade e os vilarejos de seu entorno são monitorados por um forte contingente militar e constante presença da polícia.
 
Jawad é de um dos vilarejos do entorno de Hebron. Nossos encontros têm sido semanais, com exceção das ocasiões em que ele fora novamente preso ou detido por militares ou policiais. O progresso de Jawad foi prejudicado todas as vezes em que ele foi acionado pela polícia. Inicialmente, Jawad foi encaminhado ao Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) após sua liberação da cadeia. Durante a avaliação, ele demonstrou sintomas pós-traumáticos graves, mas, até o momento, não havia falado sobre o que aconteceu durante o cumprimento de sua pena.
 
A sessão tem início e nos sentamos um de frente para o outro. Ao meu lado, está meu intérprete E., que também assumiu as funções de professor de cultura e idioma árabes, conselheiro e amigo. Jawad é um jovem rapaz magro e bem vestido de 28 anos, cujos hábitos revelam uma inteligência silenciosa. Hoje, ele sorri mais do que quando nos conhecemos, mas há sempre uma seriedade por trás de seu olhar e, quando fica estressado, esfrega seus olhos com as mãos e olha através de nós, para a parede.
 
Quando lembrado de que o propósito da sessão é falar sobre a questão do aprisionamento, Jawad desvia o olhar dizendo “eu já lhe disse sobre o tempo em que fiquei preso”, e parece surpreso quando lhe digo que ele falou, na realidade, muito pouco sobre o assunto. A confiança, obviamente, é uma questão muito importante nos Territórios Palestinos, principalmente tratando-se de um homem que fora preso por ativismo político e submetido a incontáveis sessões de interrogatório, tanto dentro quanto fora da prisão. Muitos dos nossos encontros foram relativos à construção da confiança, principalmente considerando que há elementos da terapia muito similares ao processo dos interrogatórios.
 
Ele diz que tinha 22 anos quando passou a se inteirar mais da situação em Gaza. Começou a se encontrar com outros homens e mulheres politicamente ativos de sua universidade e participou de algumas palestras locais. Então, um dia, quando ele estava em casa no computador, ouviu uma movimentação do lado de fora. As Forças de Defesa de Israel estavam em sua casa. Ele foi preso e detido para cumprir o que se tornaria uma sentença de quatro anos e meio.
 
Jawad descreve seu tempo na prisão em “fases”. Após a primeira rodada de interrogatórios, durante as quais ele se orgulha por ter mantido o silêncio, Jawad foi colocado em uma cela com outros prisioneiros. Depois do estresse vivido na primeira experiência, ele se permitiu relaxar e sentir alívio diante do suporte recebido de seus companheiros. No entanto, quando os soldados retornaram, ele sentiu que algo estava errado. Então, ficou claro que os supostos “companheiros” eram inimigos. Todas as conversas e movimentos haviam sido gravados, o silêncio havia sido quebrado, e, agora, os “interrogadores” estavam prestes a aumentar a pressão sobre Jawad. Foi nesse momento que ele me disse: “meu mundo se abriu e eu mudei como pessoa”.
 
A segunda fase, de acordo com ele, foi muito pior. Os métodos utilizados durante o período foram extremos e ele não se lembra de muito, apenas do isolamento a que foi submetido. Foi difícil para Jawad verbalizar sobre suas experiências, mas as imagens, sons e sensações que ele viveu no período ainda o visitam na forma de pesadelos confusos e aterrorizantes.
 
Infelizmente, daqui para frente, as coisas pioram. Jawad se lembra que foi na terceira fase que adoeceu. Após ter sido levado às pressas para o hospital da prisão, ficou claro que seu apêndice havia se rompido e ele precisava de uma cirurgia de emergência. A próxima coisa de que se lembra é de acordar da anestesia e ver seu abdômen sangrando, aberto na mesa de cirurgia. Neste ponto, o estresse deve ter sido muito para ele, e ele entrou em estado de “flashback”. Ele já não estava mais sendo operado, mas estava de volta à sala de interrogatório, mais uma vez rodeado de guardas, vulnerável e incapaz de se mover, com as mãos algemadas à cama. Embora o “flashback” tivesse terminado, acordar para a realidade, infelizmente, não ajudou, uma vez que três guardas observavam sua recuperação.
 
A partir desse ponto, o estado mental de Jawad se deteriorou rapidamente. Ele estava fisicamente mal, mas não confiava nos médicos para examiná-lo. Desenvolveu depressão aguda e se isolou completamente de qualquer relacionamento. Após sua soltura, ele comentou mais de uma vez comigo que preferiria voltar à prisão a viver sua vida como ela havia se tornado.
 
“É bom que você possa explicar minha história”, diz ele. Submetido à legislação atual dos Territórios Palestinos Ocupados, ele jamais será autorizado a deixar a Cisjordânia. “Não posso sair, mas minha história, agora, pode cruzar as fronteiras.”
 
Esse texto foi escrito pela psicóloga de MSF responsável pela terapia de Jawad em Hebron. Uma semana após a redação deste relato, Jawad foi novamente detido para ser interrogado.

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