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Chuvas fortes agravam situação de deslocados em Darfur

20/08/2004
Apesar das fortes chuvas que caem sobre Darfur, uma equipe leva cuidados de saúde aos deslocados em Deleig, onde a situação é precária e muitos dormem ao relento

Duas vezes por semana, Médicos Sem Fronteiras (MSF) viaja para Deleig, uma pequena cidade na região oeste de Darfur, onde vivem 20 mil pessoas que fugiram da violência da milícia leal ao governo. A equipe móvel de MSF está bastante ocupada, uma vez que os problemas dos deslocados estão sendo agravados pelas fortes chuvas. Stephan Große Rüschkamp, que acompanhou os quatros profissionais da equipe móvel até Deleig:

Um minuto por criança, no máximo. Isso é todo o tempo que Suan Chua pode levar com cada um, pois ainda há mais de 160 pequenos pacientes nos braços de seus pais aguardando na fila do lado de fora do centro de nutrição. Rotineiramente, a enfermeira avalia se cada criança está ganhando peso conforme o previsto, mede sua temperatura e às vezes também seu pulso.

"Uma porção de CSB para a pequena Halima, aqui!", ela grita para seus colegas sudaneses. CBS é um preparado de soja e milho. À medida que eles entregam a refeição enriquecida com proteínas e açúcar, Suan Chua já sinaliza para que as próximas mãe e criança avancem.

Suan Chua está tentando recuperar o tempo perdido durante a manhã, quando os veículos 4x4 ficaram presos na lama devido às fortes chuvas. "É por isso que o dia hoje está particularmente caótico. Mas ainda assim eu gosto do trabalho. É extremamente importante que a gente cuide das crianças".

A equipe no centro de nutrição em Deleig concentra suas atenções primeiramente nas crianças, que costumam estar não apenas desnutridas, mas também doentes. Se os sintomas indicam malária ou pneumonia, o médico Dean Harris é chamado. Ele é capaz de fazer um rápido diagnóstico no caso de Bahar, de apenas dois anos: infecção e deficiência de líquido. Dr. Harris prescreve antibióticos e insiste com a mãe para que ela dê muito líquido à sua filha. "Essa pequenina ficará bem em questão de dias", diz o médico, num tom encorajador. Ele está mais preocupado com as inúmeras crianças sofrendo de diarréia, o que, no caso de crianças exaustas e desnutridas, pode ser fatal.

A causa da diarréia é provavelmente a ingestão de água suja. É aí que entra a especialista em água, Dawn Taylor. Ela já limpou um poço e a água está agora sendo bombeada para dois tanques de plástico. Juntos, eles comportam 20 mil litros de água, abastecendo 36 torneiras, que fornecerão agora água potável limpa para cerca de 5 mil pessoas.

Os refugiados em Deleig enfrentam condições terríveis. Muitos construíram abrigos inadequados usando galhos e bambus. Alguns conseguiram lonas, que foram usadas para construir habitações semelhantes a barracas para até 10 pessoas. Outros, entretanto, estão expostos ao vento e à areia, e também às chuvas, que começaram a cair há algumas semanas.

Em Darfur, aqueles que sobreviveram aos ataques liderados pela milícia e fugiram de seus vilarejos saqueados ainda não estão seguros. "Mulheres em particular estão sem proteção e são freqüentemente vítimas de violência sexual", diz Christina Ambrose, enfermeira obstetrícia. "Muitas mulheres, e até meninas, são estupradas quando saem em busca de comida e lenha", acrescenta.

MSF cuida delas em Deleig e lhes oferece apoio psicológico. O assunto violência sexual é um tabu no Sudão, e inicialmente apenas algumas mulheres tiveram coragem de participar do programa. "Mas agora mais e mais mulheres estão contando o que vivenciaram", diz Ambrose. "Nós não podemos desfazer o que foi feito, mas podemos ao menos escutá-las solidariamente e tratá-las de doenças sexualmente transmissíveis", explica.

Por volta das três da tarde, é hora da nossa equipe partir. Eles precisam voltar a Garsila, onde estão baseados, antes da noite cair. A viagem é longa, pois os caminhos estão lamacentos durante a estação das chuvas e normalmente muito difíceis de percorrer de carro. Mais uma vez, eles passam pelas ruínas abandonadas dos vilarejos de onde muitas pessoas fugiram. Eles chegam de volta e são recebidos calorosamente em Garsila. Um grupo de crianças está brincando com a água do rio que se formou com as recentes chuvas. Quando o carro passa pela água, que chega à altura dos joelhos, as crianças acenam alegremente.

Isso é tudo o que Dean, Christina, Dawn e Suan precisam para lembrar que vale à pena estar em Darfur.

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