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Chade: pulando de uma crise de nutrição para a outra

16/10/2015
Desde julho de 2015, MSF tratou mais de 2.300 crianças gravemente desnutridas

Fotos: Ricardo Garcia Vilanova

Com a atenção internacional voltada para a crise de deslocamentos na região do Lago Chade, no oeste do Chade, onde dezenas de milhares de pessoas continuam buscando refúgio da violência do grupo Boko Haram, outra emergência crônica também tem continuidade. O Chade está em meio à uma crise de desnutrição – não só na região do Lago Chade e não pela primeira vez. Estima-se que 3,4 milhões de pessoas estejam sem acesso a alimentos, com 398 mil crianças no país em risco de desnutrição aguda.

Pela quarta vez em cinco anos, equipes médicas da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) estão respondendo a uma crise de desnutrição em Bokoro, em Hadjer-Lamis, região central do Chade. Desde julho, uma equipe de emergência de MSF tratou mais de 2.300 crianças gravemente desnutridas na área.
MSF lançou sua resposta no início de junho, após descobrir que um número alarmante de crianças em Bokoro estavam gravemente desnutridas. Uma equipe de MSF descobriu que 5,5% das crianças com menos de cinco anos estavam sofrendo de desnutrição aguda grave – mais do que o dobro do limite de segurança de 2%. Isso aconteceu logo no começo do “período de fome” anual que acontece no Chade, um espaço de tempo de cinco meses que, normalmente, dura de junho até o fim de outubro.

Bétel cuida de seu irmão mais novo de oito meses, Hassane Hano, que está recebendo tratamento para desnutrição.
“Realizar programas de nutrição e oferecer assistência médica para crianças gravemente desnutridas é essencial, mas simplesmente não é o suficiente para impedir que centenas de milhares de crianças no Chade estejam repetidamente sujeitas a níveis emergenciais de desnutrição”, diz Alberto Jodra, coordenador-geral de MSF no Chade. “Ainda há muito mais a ser feito para responder às múltiplas causas estruturais da desnutrição e para aliviar o sofrimento de comunidades como Bokoro de pularem de uma crise de fome para a outra.”

Equipes de MSF estruturaram programas de nutrição terapêutica ambulatoriais em 10 clínicas do Ministério da Saúde no distrito de Bokoro. Desde julho, foram tratadas 2.361 crianças gravemente desnutridas durante consultas médicas semanais em centros de saúde, enquanto os pais delas recebiam suprimentos de alimento terapêutico especial para dar continuidade ao tratamento em casa. Ao mesmo tempo, crianças desnutridas com complicações médicas foram transferidas para uma ala de internação estruturada por MSF no hospital do Ministério da Saúde na cidade de Bokoro, onde, até agora, 222 crianças gravemente doentes receberam tratamento vital.

“Embora tenham sido dados passos encorajadores a nível nacional para responder à desnutrição recorrente, o fato de que nós lançamos uma resposta de emergência em Bokoro pela quarta vez em cinco anos mostra que existem falhas críticas entre as políticas nacionais e como elas são postas em prática”, diz Alberto Jodra.  

Localizado na parte mais ao sul da zona árida do Sahel do Chade, o clima intenso de Bokoro significa que as colheitas são reduzidas e há pouco campo onde os animais possam pastar. Como resultado, os alimentos são escassos e as crianças correm altos riscos de desenvolverem desnutrição. No entanto, as causas complexas de desnutrição do Chade vão além dos fatores climáticos e relacionados às colheitas. Mesmo fora da região do Sahel do país, onde as condições climáticas são mais amenas e os alimentos estão mais disponíveis, as comunidades ainda assim têm dificuldades para acessar alimentos nutritivos suficientes para comer. Em Am Timan, uma área mais fértil da região de Salamat, no sudeste do Chade, MSF já tratou mais de 2 mil crianças com desnutrição aguda grave este ano; metade delas foi tratada de junho até setembro.

– Halimi Hamat vende alimentos no mercado local de Bokoro. “As pessoas não têm dinheiro, então não vendo muita coisa”, diz ela.Durante o anual “período da fome” no Chade, grande parte dos suprimentos alimentares da colheita anterior acaba. Com a pobreza e o desemprego acoplados às suas dificuldades, as famílias lutam para sobreviver, com muitas delas sendo forçadas a limitar sua ingestão de alimentos ou então a acumular dívidas para poderem comer. Muitas vezes, elas ficam presas em um círculo vicioso em que suas dívidas ultrapassam o que se pode esperar de ganho proveniente da colheita do próximo ano. Este ano, a insegurança e a violência ao longo das fronteiras do Chade também prejudicaram o comércio, o que afetou negativamente a frágil economia local e a disponibilidade de alimentos.

Práticas de alimentação infantil e saneamento precárias, baixos níveis de educação e acesso limitado a água potável também desempenham seu papel no aumento do risco de desnutrição. Além de tudo isso, o mau funcionamento do sistema de saúde, com sua extrema falta de recursos financeiros, profissionais qualificados e serviços disponíveis para prevenir e tratar a desnutrição também está colocando comunidades com insegurança alimentar em maior perigo de emergências nutricionais recorrentes.

Crianças com menos de cinco anos são as mais vulneráveis à desnutrição. Isso enfraquece seu sistema imunológico, tornando-as mais suscetíveis a doenças – um risco que aumenta em países com o Chade, que regularmente sofre com surtos de doenças e que tem uma baixa cobertura vacinal. Em toda a região de Bokoro, 29% das crianças gravemente desnutridas tratadas por MSF entre julho e setembro também tinham malária, enquanto 30% tinham diarreia aquosa e 15% infecções do trato respiratório. Por conta dessa vulnerabilidade a outras doenças, e à baixa cobertura vacinal, equipes de MSF vacinaram 1.114 crianças contra o sarampo como parte de seu programa de nutrição.

Em novembro, o período de fome deve chegar ao fim, na medida em que as pessoas de Bokoro farão novas colheitas em suas plantações. Mas, mesmo após o fim da fase de emergência dessa resposta, os problemas que levam à falta de segurança alimentar e à desnutrição persistirão. Uma vez que o pico de desnutrição tiver acabado, MSF continuará na região para ajudar a responder às falhas no sistema de saúde, uma das principais causas das recorrentes crises de nutrição. Equipes de MSF continuarão a apoiar os centros de saúde distritais do Ministério da Saúde e a realizar atividades de prevenção à desnutrição. No entanto, mais esforços nacionais e internacionais também serão vitais para dar um fim às recorrentes crises de desnutrição no Chade.

MSF atua no Chade desde 1981, e, atualmente, mantém programas médicos regulares em Abéché, Am Timan, MAssakory e Moissala. Em março de 2015, MSF lançou uma resposta de emergência para as pessoas deslocadas pela violência do grupo Boko Haram na região do Lago Chade. Na capital, N’djamena, MSF também apoiou hospitais do Ministério da Saúde após ataques suicidas com bomba que aconteceram em 15 de junho e 11 de julho de 2015. Desde abril desse ano, MSF tem treinado profissionais do Ministério da Saúde no manejo de vítimas em massa a fim de aumentar sua capacidade de resposta a situações de emergência.