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Chade: cuidados contra a Hepatite E em Am Timan

22/12/2016
Equipes de MSF oferecem tratamento e prevenção da doença no sul do país
Chade: cuidados contra a Hepatite E em Am Timan

Foto: Sara Creta/MSF

Em estágio avançado da gravidez, Miriam descansa no leito da ala de maternidade do hospital de Am Timan, no Chade, enquanto um ginecologista da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) realiza um exame de ultrassom em seu ventre. Ela parece surpresa quando, de repente, os contornos do bebê aparecem na tela do aparelho. Sua expressão rapidamente muda e ela demonstra alívio quando ouve o tradutor que acompanha o ginecologista dizer que o bebê que espera está crescendo bem.

Dra. Veronica Siebenkotten-Branca, de MSF, realizando exame de ultrassom em paciente grávida (Foto: Sara Creta)Miriam é um dos 44 pacientes com hepatite E que foram hospitalizados em Am Timan desde setembro. Há mais 320 casos potenciais identificados. Ela é de uma comunidade nômade que fica a cerca de oito quilômetros de Ardo, cidade que fica a três horas de distância de carro de Am Timan. Mãe de nove crianças, espera seu décimo filho, que deve nascer em fevereiro.

Miriam foi levada a Am Timan depois de procurar tratamento em uma clínica móvel de MSF em Ardo. “Por mais de uma semana, não consegui sentir as batidas do coração do bebê. Fiquei 25 dias de cama, sem poder me mexer. Foi a primeira vez que me senti tão doente.” A equipe reconheceu imediatamente os sintomas de hepatite E, entre eles a icterícia, e decidiram que Miriam precisaria de mais tratamento no hospital. A icterícia é o amarelamento da pele e da parte branca dos olhos. É um dos sinais mais óbvios de que alguém tem hepatite E. Veronica Siebenkotten-Branca, ginecologista de MSF em Am Timan, diz que a hepatite E não tem cura e é particularmente perigosa para as mulheres grávidas como Miriam: “Dependendo da gravidade da infecção durante a gravidez, ela pode levar a consequências graves na saúde da mãe e do feto. Abortos, hemorragia pós-parto, nascimento prematuro e morte do bebê antes do nascimento são algumas das piores situações que a mãe pode vir a enfrentar nesses casos.”

Alguns dias depois de sua admissão no hospital, a saúde de Miriam já tinha melhorado. “Agora eu finalmente posso sentir meu bebê novamente. Antes tinha muito medo de vir ao hospital, mas agora me sinto muito melhor e espero poder voltar à minha comunidade em breve.” Enquanto se recupera, seu marido e seus três irmãos esperam do lado de fora da ala de maternidade, preocupados com seu estado de saúde. É a primeira vez de Miriam em um hospital. Como nômade, ela e sua família dificilmente passam mais do que alguns meses em um mesmo lugar. Na temporada de seca, o grupo se desloca para o sul do país; na de chuvas, para o norte. A jornada entre esses lugares pode durar mais de um mês, com cerca de 200 pessoas se deslocando com seus rebanhos e parando no meio do caminho para plantar grãos.

Os primeiros casos de hepatite E foram descobertos no fim de agosto no hospital de Am Timan, onde MSF oferece cuidados para pacientes com HIV e tuberculose (TB) e trabalha no departamento de pediatria e na maternidade. Da mesma forma que a cólera, a doença é transmitida de uma pessoa para outra, principalmente através da água contaminada, e se espalha rapidamente em lugares com condições precárias de higiene e saneamento.

Estima-se que um em cada 25 pacientes com hepatite E corra risco de morte, mas, para mulheres que estão no terceiro trimestre de gravidez, o risco de morte tanto para a mãe como para o bebê é mais alto. Entre os nove pacientes que morreram da doença nos últimos meses, três eram mulheres grávidas com icterícia.

Desde que os primeiros casos foram identificados, mais de 600 profissionais de MSF trabalharam para detectar novos casos de hepatite E, tratar pacientes e melhorar as condições de água e saneamento. Muitos deles são agentes comunitários de saúde cuja principal função é falar às pessoas sobre os sinais e sintomas precoces de hepatite E e informar a população sobre práticas de higiene. Esse trabalho inclui reuniões com chefes, líderes e funcionários locais para ouvir suas preocupações, identificar as necessidades e encorajá-los a falar com a comunidade sobre a urgência de uma resposta para a hepatite E. Nas últimas três semanas, as equipes também distribuíram 10.240 kits de higiene contendo barras de sabonete e baldes. A maioria das pessoas de Am Timan ainda não havia ouvido falar sobre a hepatite E, e, como resultado, as equipes trabalham também para enfrentar o medo e as suspeitas das “pessoas doentes com olhos amarelos”. Em muitos casos, pacientes com hepatite E foram vistos como ameaças à comunidade, levando ao estigma e à vergonha aqueles que foram diagnosticados com a doença. Porém, com o trabalho dos profissionais de saúde comunitária, essa realidade está mudando.

 

Ngomdimadje, um professor de 25 anos, foi a primeira paciente a sobreviver à hepatite E em Am Timan. Ele vive com seus primos em uma casa alugada no distrito central de Salamat. Há cerca de quatro meses, depois de dar aula a alunos do ensino fundamental em Harazè, próximo à fronteira com a República Centro-Africana, ele começou a sentir fortes dores no corpo. Ele diz que, naquele momento, estava se sentindo perto da morte, sem apetite e com vômitos intensos, dores de cabeça e abdominais. Ele mal conseguia se mexer ou andar. Criticamente doente, Ngomdimadje conseguiu viajar até o hospital de Am Timan, onde recebeu a notícia de que tinha hepatite E. Depois de ser admitido no hospital, sua saúde começou a se deteriorar, e a equipe médica de MSF monitorou e tratou o paciente de perto por duas semanas. Agora, ele se recuperou completamente. “Hoje, posso me considerar um sobrevivente porque consegui vencer essa doença mortal. Antes de mim, outros dois pacientes não tinham conseguido; eram duas mulheres. Considero-me um sobrevivente de verdade, e isso me dá esperança.”

MSF trabalha no Chade desde 1981. Antes do atual surto de hepatite E, MSF mantinha programas médicos regulares em Am Timan e Moissala. No início deste ano, MSF iniciou uma resposta de emergência nutricional em Bokoro, onde mantém, em parceria com o Ministério da Saúde, 15 clínicas ambulatoriais móveis e um centro intensivo de nutrição terapêutica no hospital da cidade para tratar crianças desnutridas. Em março de 2015, MSF também iniciou uma resposta de emergência na região do Lago Chade para pessoas deslocadas pela violência do Boko Haram. Equipes baseadas em Baga Sola e em Bol continuam prestando assistência à população do Lago Chade. Na capital, N’djamena, MSF apoia hospitais do Ministério da Saúde por meio do treinamento de equipes para receber vítimas em massa, a fim de aumentar a capacidade de resposta em situações de emergência.