Você está aqui

Catástrofe em Darfur: promessas não cumpridas e violência contínua

19/11/2004
Presidente do Conselho Internacional de Médicos Sem Fronteiras envia carta aos países membros do Conselho de Segurança da ONU cobrando mais atenção internacional à crise vivida pela população de Darfur, no Sudão

Aos países membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas

Já se passaram seis meses desde que Médicos Sem Fronteiras (MSF) informou o Conselho de Segurança da ONU sobre o enorme sofrimento e o alto índice de mortalidade resultantes dos conflitos, dos ataques contra os vilarejos e do deslocamento forçado de centenas de milhares de habitantes da região de Darfur, no Sudão.

Apesar de inúmeras resoluções e pedidos, desde aquela época, nem o governo do Sudão nem a comunidade internacional vêm oferecendo assistência em quantidade suficiente e segurança às pessoas em Darfur.

Nos últimos 18 meses, desde que a população foi expulsa de seus vilarejos e após inúmeras promessas do governo do Sudão e dos líderes mundiais, as pessoas continuam vivendo numa situação de risco diário.

A população de Darfur vem enfrentando uma forte onda de violência e terror que resultou numa quantidade enorme de mortes e forçou mais de 1,5 milhões de pessoas a fugirem dos seus vilarejos destruídos em busca de segurança. No início de novembro, MSF divulgou um documento que revela a extensão da violência e as terríveis conseqüências das atrocidades cometidas contra a população de Darfur.

Em acampamentos improvisados por toda a região de Darfur, os deslocados informam a MSF que eles estão vivendo sob a guarda de alguns dos mesmos homens armados que queimaram seus vilarejos e mataram seus familiares. Eles estão com muito medo de retornar para casa e apavorados de permanecerem onde estão, saindo de um lugar para outro na tentativa de encontrar alguma segurança.

As pessoas ainda enfrentam a intimidação, a extorsão e o terror em áreas onde buscaram refúgio da violência. Nas últimas semanas têm ocorrido incidentes de transferência forçada e violenta de pessoas deslocadas. Isto é uma violação do acordo de transferência voluntária, assinado entre o governo do Sudão e a Organização Internacional de Migração.

As clínicas de MSF recebem novos casos de estupro a cada dia. Centenas das mulheres violentadas têm sido suficientemente corajosas para virem a público denunciar o que está acontecendo. Em uma única clínica que serve a um campo pequeno de deslocados, 20 mulheres vieram até nós denunciar que foram estupradas nas últimas quatro semanas. Não há dúvidas; esses números são apenas a ponta do iceberg.

Embora a quantidade de ajuda humanitária tenha aumentado durante os últimos seis meses, ainda é insuficiente e, com freqüência, de péssima qualidade. Deslocamentos em massa, condições precárias de vida e falta de comida têm um impacto grave na saúde da população. Além da violência, as principais causas de mortes são a diarréia, as infecções respiratórias e a malária.

As altas incidências dessas doenças que poderiam ser evitadas revelam a falta adequada de abrigo e as péssimas condições de água e saneamento nos campos de deslocados. MSF está trabalhando em 26 lugares enquanto outras organizações trabalham em muitas outras áreas da região. No entanto, ainda há incontáveis grupos de pessoas deslocadas que ainda não receberam nenhuma alimentação ou qualquer tipo de ajuda humanitária.

A violência contínua contra os deslocados também vem sendo acompanhada por ataques contra profissionais humanitários. Inúmeros profissionais de organizações de ajuda humanitária foram mortos, recentemente, em áreas controladas pelo governo e pelo Exército de Libertação do Sudão. Além disso, as equipes de MSF foram atacadas e extorquidas em várias ocasiões.

Isto tem um impacto enorme na já limitada ajuda humanitária que é oferecida nas áreas rurais de Darfur. Intervenções simples para salvar vidas, como vacinação contra o sarampo, acabam não sendo possíveis de se realizar.

A comunidade internacional vem apelando por ajuda às vítimas desta crise. Ajuda que pode ser dada com assistência e proteção. A assistência ainda precisa melhorar para que as pessoas em Darfur possam receber alimentação adequada, água potável e abrigo.

Mais importante ainda, a segurança e a proteção precisam ser colocadas em prática para a chegada de uma assistência eficiente e para o bem-estar da população. Nenhuma parte desta crise vem tomando as medidas adequadas para garantir o fim da violência contra os civis, apesar das muitas promessas feitas.

Atenciosamente,

Dr. Rowan Gillies
Presidente do Conselho Internacional de Médicos Sem Fronteiras