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Carta aberta a um amigo vítima da leishmaniose

26/08/2004
Em carta aberta enviada a MSF, o médico brasileiro Leandro Ramires fala da morte do amigo Henrique, vítima da leishmaniose. A carta é um desabafo, mas também um protesto contra o desinteresse por uma doença que afeta 12 milhões de pessoas em todo o mundo.

"E aí, cara? Beleza?

Nem deu tempo pra gente tomar uma última cervejinha e você se foi. Foi embora para bem longe, tão longe que nem sabemos bem onde fica. Partiu sem querer, sem despedir, sem sequer um aceno de mão, foi mesmo embora, vai fazer falta.

Mas de uma coisa, seja lá onde estiver, você pode ter a certeza: sempre lembrarei de bons momentos que convivemos juntos. Será difícil esquecer seu jeito gozador, irreverente e sua habilidade pífia no futebol. Lembra-se quando luxou o braço esquerdo numa pelada dos “Mumus” num sítio lá em Betim? Pois é cara, mesmo depois de umas cervejinhas, eu coloquei seu braço no lugar.

(...)

Lembro-me muito bem do aniversário dos meninos em 2002, quando conversamos sobre sua saúde. Você, naquela época, estava se sentindo melhor e até te conversamos sobre quando eu tive Brucelose (doença de país pobre, transmitida ao ser humano pelo leite de vaca contaminado) e o quanto foi difícil fazer esse diagnóstico que acabou aconteceu por acaso quando fui doar sangue. O tratamento da minha doença, que durou uns poucos meses, encheu meu saco. Imagino o quanto você ficou de saco cheio, abarrotado, puto da vida mesmo! Que hepatite era aquela?

O tempo se passou, você entrou num período mais saudável, ficou melhor, articulou sua vida com novos rumos e acabamos nos desencontrando, coisas da vida.

No dia 26 de junho passado, por volta das duas da tarde, nos reencontramos. Você estava elegante, comportado até demais, sem rir, sem gozações, sem festa, sem palavras. Um silêncio que nunca combinou com você, com a gente, com nossos amigos, nossos filhos, nossas famílias. Marcou para sempre nosso último encontro.

O que me deixa mais indignado nessa história toda é que o encontro só foi o último por uma única e exclusiva causa: LEISHMANIOSE. E o país continua pobre.

Talvez você nem tenha tido a oportunidade de saber algo sobre essa enfermidade, muita gente não sabe. A maioria absoluta da sociedade brasileira, em todos os níveis, também não sabe. Toda essa desinformação, aliada a minha indignação, me motivou a lhe escrever essa carta. Meu objetivo é lhe contar algo que acho fundamental você saber. Algo me diz que você vai lê-la.

Sei que esse papo é nosso, mas tomei a liberdade de mandar essa carta para os nossos amigos em comum, para todos os meus amigos que não são seus, e estou torcendo para que todos eles mandem essa carta para o maior número de pessoas que conhecerem. Sentirei-me feliz quanto maior for o número de leitores desse texto. Ah, cara! Mandei uma cópia desta para as autoridades responsáveis pela saúde em níveis municipal, estadual e federal. A ONG “Médicos Sem Fronteiras” também recebeu uma cópia.

Alguns pulsos ainda pulsam. Até os Titãs se esqueceram da Leishmaniose e os pulsos ainda pulsam.
Em 1994, perdi meu cão de estimação. Ele foi contaminado em plena região central de Belo Horizonte por um protozoário (Leishmania) através da picada de um pernilongo contaminado por ter picado um outro animal doente. Quando mais cães estiverem contaminados maior será o alastramento da doença nos caninos. E nós, os homo sapiens? Temos uma chance enorme de ficarmos doentes, basta uma fêmea contaminada do pernilongo Phlebótomo (conhecido no Brasil por Biriguís, Mosquito Palha, Mosquito pólvora ou Cangalhinha) picar a gente o que costuma acontecer no período vespertino e noturno. Isso aconteceu com você que acabou ficando doente.

A Leishmaniose no ser humano pode manifestar-se de duas formas: Uma cutânea ou tegumentar e outra visceral também conhecida como Calazar. Foi essa forma que te pegou, de um jeito pouco comum, de diagnóstico diferencial difícil e muitas vezes nem pensado pelos meus colegas médicos.

A leishmaniose afeta a cada ano aproximadamente 500 mil pessoas na Índia, das quais 60 mil morrem. A doença atinge sobretudo a população mais desfavorecida dos países em vias de desenvolvimento, onde as pessoas sofrem de desnutrição e têm um sistema imunológico deficiente. A leishmaniose está presente em 88 países, principalmente na Índia, com 50% dos casos, seguida por Brasil, Bangladesh, Nepal e Sudão.

Todos nós acreditávamos que você estava com uma hepatite virótica ou algo parecido, mas não, você estava com Leishmaniose. Uma doença de país subdesenvolvido, pobre e sem condições sanitárias dignas. Uma doença estudada por Osvaldo Cruz em 1911 e 1912 quando percorreu o rio Amazonas, uma doença que até hoje não possui um tratamento ideal, os medicamentos são antigos (mais de 50 anos), muito tóxicos e de resultados duvidosos. Recentemente, surgiu na Índia um medicamento novo que parece ser promissor.

Outro brasileiro, Samuel Barnsley Pessoa, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de S. Paulo , já falecido, no ano de 1939 empregou com sucesso uma vacina preparada por cultura do protozoário, vacina essa aplicada em três doses. Tal vacina foi aplicada em localidade altamente endêmica, com pleno sucesso. Mas a pesquisa de Samuel não foi desenvolvida e não interessou as nossas autoridades e muito menos a indústria farmacêutica.

Como é uma doença de povos de baixo poder aquisitivo, a indústria farmacêutica não se interessa na pesquisa e comercialização de medicamentos para doenças como a Leishmaniose e as doenças tropicais (Malária, Doença de Chagas, Tuberculose). O que interessa a indústria farmacêutica é a impotência, a calvície, o colesterol, a obesidade, o stress dentre outras de maior interesse econômico.

Vale uma visita no www.msf.org.br e digitar “Leishmaniose” na pesquisa dentro do próprio site dos “Médicos sem Fronteiras”.

(...)

Senti-me na obrigação em escrever essa carta aberta. Minha indignação é grande em saber que numa cidade desenvolvida como a nossa Belo Horizonte morrem pessoas com Leishmaniose e com tantas outras doenças negligenciadas já totalmente debeladas em países desenvolvidos.

Por tudo isso, escrevi esta carta aberta. Assim cumpro um papel de informar as pessoas, “beliscar” as autoridades e estimular ONGs como a MSF (Médicos Sem Fronteiras). Espero que possa, de alguma forma, contribuir para um basta nessa calamidade.

Abraços pra você esteja onde estiver, do amigo.
Leandro Ramires
Homo Sapiens,
Brasileiro,
Cidadão,
Contribuinte,
Indignado e
CRM MG: 22.234"

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