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Cansados de fugir: sírios não têm mais para onde escapar da violência em Idlib

19/02/2020
O depoimento de um médico sírio que trabalhava em um centro de saúde apoiado por MSF em Takad, Alepo
Cansados de fugir: sírios não têm mais para onde escapar da violência em Idlib

Foto: MSF

À medida que a campanha militar para retomar a província de Idlib do controle da oposição avança, muitos sírios estão sendo deslocados novamente em busca de segurança. Eles já haviam fugido da violência outras três, quatro ou até cinco vezes nos últimos anos. Até mesmo as regiões de Idlib que antes eram consideradas relativamente seguras, agora, estão se tornando territórios quase impossíveis de se permanecer.

Entre as áreas que permanecem relativamente livres da violência está a cidade de Takad, no interior de Alepo, onde Mustafa Ajaj, sua esposa e seus três filhos vivem há mais de três anos. Dr. Ajaj, que gerencia um centro de saúde primária em Takad, diz que a população da cidade e das colinas próximas aumentou bastante nas últimas semanas, de cerca de 20 mil para 30 mil.

Mas, à medida que os ataques se aproximam, as pessoas estão fugindo de Takad, e o dr. Ajaj, de 42 anos de idade, teme que ele e sua família sejam os próximos.

"Todos os dias documentamos os recém-chegados", disse ele. “Mas, agora, as pessoas estão começando a fugir de Takad também, por causa dos ataques aéreos em áreas próximas… As pessoas estão assustadas e fogem.”

O dr. Ajaj disse que os bombardeios nos arredores de Takad começaram na semana passada, tendo como alvo as cidades de Atarib, Al-Fouk, Kafr Amma, Urem, Kafr Halab e outras. "Desde que o regime assumiu o controle de Kafr Halab, as pessoas têm medo de que ele continue avançando.”  

As ruas de Takad e as colinas nos arredores estão lotadas de tendas, porque simplesmente "não há espaço suficiente" para receber todos os deslocados nas casas das pessoas.

"A maioria das pessoas não consegue encontrar abrigo nas cidades para onde está fugindo, então, elas são obrigadas a armar tendas e dormir ao relento", disse Ajaj, acrescentando que o número de tendas aumenta à medida que se aproxima da fronteira turca.

"É muito triste. Esta semana houve a pior onda de deslocamentos, por causa das temperaturas congelantes”, afirmou, no dia 13 de fevereiro. “As pessoas fogem sem nada, só com a roupa do corpo. Hoje, não nevou muito, mas a temperatura estava abaixo dos 5°C pela manhã.”

“Essas pessoas estão assustadas. Quem iria se propor a fugir embaixo de neve e chuva a não ser que já não tivesse perdido tudo?", questiona o dr. Ajaj.

As ofensivas militares das forças armadas sírias e seus aliados russos no sul de Idlib para recuperar áreas da província controladas por rebeldes bombardearam um lugar depois do outro.
 
“Os ataques agora estão direcionados para as áreas ao sul de Takad… Estamos em uma área relativamente mais segura, portanto, as pessoas que fogem dos locais mais afetados estão chegando até nós. Se formos os próximos a serem bombardeados, as pessoas não hesitarão em sair daqui e fugir novamente”, disse o Dr. Ajaj.

“Ontem, conhecemos uma família que afirmou ter sido deslocada sete vezes. Primeiramente, de Aleppo a Idlib, depois, de um vilarejo para outro, em busca de segurança.” Temendo o pior, essa família também fugiu de Takad. "Eles estavam assustados… Disseram que estavam cansados de fugir e não queriam ficar em Takad para ter que fugir novamente se o regime avançasse.”

“O número de pessoas deslocadas é enorme. Ontem eu dirigi até Atmeh (localizado a 35 km de Takad). Levei cinco horas para chegar lá e outras cinco para retornar”, disse Ajaj, acrescentando que a viagem geralmente leva apenas uma hora. Mas, agora, as estradas estão lotadas de carros e caminhões porque as pessoas estão se deslocando.

Muitos dos pacientes que chegam em busca de tratamento no centro de saúde primária apoiado por Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Takad têm infecções respiratórias nos tratos superiores, por causa das condições climáticas adversas, enquanto outros procuram tratamento para infecções gastrointestinais. A maioria dos pacientes que procuram ajuda precisa de apoio psicológico.
 
“Até o momento, não planejo deixar Takad. Estou aqui para atender essas pessoas fortes que decidiram ficar”, disse o dr. Ajaj, acrescentando que ele mesmo também foi deslocado três vezes durante o conflito. "Estamos acostumados."

“Eu tenho cinco filhos: três meninos e duas meninas. Eles não me pediram para fugir. Eles querem ficar. Eles são mais resistentes que eu."

Em meio à crescente falta de segurança, o dr. Ajaj teve que manter seus filhos em casa. “É claro que eles estudam, mas estão em casa há alguns dias. As escolas fecharam há mais de uma semana, com medo de serem alvo”, disse ele. As escolas foram atingidas por ataques aéreos várias vezes na guerra da Síria.


Horas depois de o dr. Ajaj dar este depoimento, sua esposa e os filhos deixaram Takad e foram para a casa de seus pais nas proximidades.

“O ataque começou na noite de quinta-feira, dia 13 de fevereiro. As únicas pessoas que ficaram em Takad foram aquelas que não tinham nenhum meio de transporte para deixar a cidade ou que dependem de transporte público para se deslocar pela cidade”, disse o dr. Ajaj.

Depois de resistir à violência, recusando-se a ceder, o dr. Ajaj teve que mudar de opinião. “Estamos transferindo nossos suprimentos para uma cidade próxima. Ainda estou procurando um espaço seguro onde possamos retomar nossas atividades. Para o povo de Takad, deixamos ainda alguns suprimentos médicos básicos. Está tão difícil agora", disse ele.


 

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