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Iêmen: “Cada vez que uma bomba atingia um alvo próximo do hospital, eu podia sentir o chão tremer e a pressão do ar mudar dentro do meu corpo”

27/08/2015
Coordenadora do projeto de MSF fala sobre as dificuldades enfrentadas no país

Foto: Jean-Pierre Amigo/MSF

Com o conflito entre grupos armados em escalada no Iêmen, a coordenadora do projeto da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) Christine Buesser dirigiu-se à província sudoeste de Al Dhale, onde profissionais médicos estão lutando para manter hospitais funcionando em meio a confrontos, bombardeios e à grave escassez de medicamentos e combustível. Abaixo, seu depoimento na íntegra:

Presa em Djibouti

Ficar presa por 10 dias em Djibouti não era bem o que eu estava esperando quando deixei o escritório de MSF em Amsterdã para ir ao Iêmen. O aeroporto da capital iemenita, Sanaa, tinha acabado de ser bombardeado, inutilizando a pista de pouso. Mas, tendo trabalhado anteriormente com MSF em zonas de conflito, eu conheço os obstáculos que sempre existem entre nós e as pessoas que precisam de ajuda.

Eu estava ansiosa para chegar lá, e frustrada sabendo que cinco de nós estávamos em espera em Djibouti, enquanto nossa equipe em Sanaa não tinha profissionais o suficiente para trabalhar de modo eficaz. Mas, finalmente, peguei um avião pequeno e cheguei ao Aeroporto Internacional de Sanaa na tarde do dia 13 de maio.

A área de chegadas estava vazia. Exceto pelos vários oficiais verificando nossos passaportes, não havia nenhuma outra pessoa. Em vez disso, havia corredores e balcões vazios, e aqui e ali um gato ou um cachorro solitários procurando abrigo ou comida. O aeroporto parecia estar aberto somente para nós.

O impacto dos bombardeios podia ser visto nas janelas quebradas e nos prédios e galpões parcialmente destruídos no entorno da pista de pouso.

Saindo do aeroporto, as ruas vazias e cobertas de lixo contrastavam com a arquitetura distinta dos prédios de Sanaa, cercados por lindas montanhas. Longas filas de carros e de motos estavam paradas em frente a postos de gasolina desativados. Eu fiquei olhando para aquele monte de prédio destruído, pensando o quão poderosas as explosões devem ter sido para ter a força o suficiente para derrubá-los. Me perguntei se as pessoas tinham conseguido fugir a tempo.

Na casa de MSF, conheci o restante da equipe. O escritório não era mais considerado um lugar seguro, devido aos ataques aéreos, então eles estavam trabalhando em mesas na sala de estar, e havia computadores, celulares e cabos por todo o lado. Eles pareciam cansados depois de muitas noites sem dormir e uma carga de trabalho pesada.

Minha primeira prioridade era avaliar a situação de segurança na província de Al Dhale, no sudoeste do país. Os profissionais internacionais foram evacuados dos hospitais que estávamos apoiando na província em março por causa dos confrontos e bombardeios pesados. Nossos colegas iemenitas estavam tocando o projeto, mas muitos deles não conseguiam chegar ao trabalho devido à falta de segurança. Eles estavam precisando desesperadamente do apoio de pessoas como nós, que haviam acabado de chegar.

Nos dias seguintes, tínhamos tudo pronto para navegar até Qataba, de medicamentos a um pequeno gerador, além de uma impressora, travesseiros e lençóis extras. De Qataba, nós iríamos até a cidade de Al Dhale, do outro lado da linha de frente de batalha.

A chegada em Qataba

Eu cheguei em Qataba no dia em que ataques aéreos atingiram zonas armadas controladas pelos houthi. Cada vez que uma bomba atingia um alvo próximo do hospital onde morávamos e trabalhávamos, eu podia sentir o chão tremer e a pressão do ar mudar dentro do meu corpo. Durante os ataques, mulheres e crianças se amontoavam no corredor do hospital, e algumas choravam. Outros pacientes deixavam o hospital quando os bombardeios começavam, fosse para cuidar de membros da família, ou porque eles estavam com medo de que o hospital pudesse ser o próximo alvo.

Os dias que se seguiram foram frenéticos e intensos, na medida em que os confrontos se intensificavam entre as partes em conflito e que as linhas de frente mudavam. Nós dormíamos pouco porque estávamos recebendo pacientes gravemente feridos dia e noite. Além de atender as vítimas, a equipe estava trabalhando duro para reforçar o prédio do hospital com sacos de areia e com mais suprimentos médicos.

Confrontos e bombardeios estão abalando a vida diária das pessoas no Iêmen, mas, talvez, o efeito mais devastador desse conflito seja a falta de combustível, de itens básicos e de serviços essenciais, incluindo água, saneamento e cuidados de saúde. Quase todos os hospitais e as farmácias nas regiões onde trabalhávamos fecharam.

Além de oferecer cuidados médicos emergenciais, nós queríamos garantir que mulheres e crianças tivessem um lugar seguro para ir quando ficassem doentes. Não faz muito tempo que o hospital em Qataba estava lotado de bebês e crianças chorando e suas mães preocupadas. Para algumas mulheres, o único lugar para descrever seus medos era na sala de consulta, e nós estávamos ali para ouvi-las. Algumas estavam tão traumatizadas psicologicamente que seus sintomas eram físicos. Elas reclamavam de dores no corpo, dores de cabeça, náusea e desmaio. Elas tinham tanto medo que não conseguiam mais dormir. Eu quis chorar algumas vezes quando olhava para os olhos delas e ouvia suas histórias.

Às vezes, eu também não conseguia dormir, porque toda a noite eu ouvia as explosões dos foguetes de Katyusha, usados por ambas as partes em conflito. O som ensurdecedor dos foguetes parecia ser feito justamente para provocar medo.  

Cruzando a linha de frente

Com uma nova equipe de profissionais internacionais chegando ao hospital em Qataba, nós nos preparamos para visitar o hospital que estávamos apoiando na cidade de Al Dhale, cruzando a linha de frente ativa e que, por vezes, mudava de localização.

Na medida em que dirigíamos pela zona neutra, eu estava alerta, mas nervosa, esperando ouvir o som de tiros.

Não havia mais ninguém além de nós na estrada. Às vezes, desviávamos de bloqueios improvisados feitos de pedras. Na medida em que nos aproximávamos da cidade de Al Dhale, eu vi alguns iemenitas trabalhando nas plantações, apesar do risco de tiroteio.

A chegada em Al Dhale

Chegando à cidade, senti uma coisa estranha. À distância, eu pude ouvir disparos de tiros, mas, ainda assim, comerciantes vendiam frutas e vegetais no mercado e as pessoas passeavam pelas ruas. Durante o conflito aqui, muitas pessoas fugiram para vilarejos nos arredores em busca de segurança. Mas desde que grupos armados leais ao presidente exilado Abd Rabbuh Mansur Hadi tomaram a cidade, parecia que a vida cotidiana tinha voltado ao normal.

Mas logo ficou claro que a situação não tinha voltado ao normal. Al Dhale está isolada ao norte e ao sul por confrontos, mudanças na linha de frente e diversos pontos de controle, o que significa que os suprimentos, incluindo medicamentos, não podem entrar ali. As instalações de saúde e de água e os sistemas de saneamento também entraram em colapso.

As pessoas me disseram que o acesso a cuidados de saúde continua sendo um desafio, não só porque as instalações estão fechadas, danificadas ou sem medicamentos, mas também por causa da falta de segurança e dos problemas com transporte. Uma médica me contou que estava preocupada com gestantes nos vilarejos do entorno que enfrentaram complicações durante a gravidez ou o parto, mas puderam ir a um hospital devido à falta de combustível.

MSF está apoiando os serviços de emergência no hospital de Al Dhale. Nós também estamos doando medicamentos e suprimentos médicos para outras instalações de saúde na região, e fornecendo combustível e água limpa. Com o bloqueio de combustível, é uma luta diária para as nossas equipes conseguir manter os geradores dos hospitais funcionando para que os serviços de emergência permaneçam ativos. Sem combustível, não há eletricidade. Sem eletricidade, não há esterilização, concentradores de oxigênio, não há luz no centro cirúrgico. Sem esterilização apropriada, um cirurgião é obrigado a operar pacientes com instrumentos cirúrgicos potencialmente contaminados.

Alguma esperança

Durante a minha estadia no Iêmen, MSF era a única organização internacional atuando na província de Al Dhale, com profissionais internacionais e iemenitas em campo. Uma pessoa me disse: “Eu não tive nenhum motivo para sorrir durante semanas, mas ver vocês aqui hoje me fez abrir um sorriso, porque isso traz esperança a mim e aos meus colegas iemenitas.”

Nas semanas em que estive no Iêmen, tentei manter os serviços de emergência funcionando, e ajudei a tornar os cuidados de saúde disponíveis para aqueles em necessidade. Mas, além de prestar assistência física, momentos como aqueles que compartilhei com as mulheres nos hospitais me lembram que dignidade, esperança e solidariedade significam muito. Eu acredito que esse é o motivo pelo qual muitos de nós ajudamos pessoas em perigo: porque acreditamos em um mundo onde as pessoas não são fadadas a sofrer sozinhas.

MSF em Al Dhale

MSF oferece serviços de saúde essenciais no hospital administrado pelo governo de Al-Nasser, na cidade de Al-Dhale. O apoio inclui sala de emergência 24 horas por dia, além de cirurgia e cuidados pós-operatórios. MSF também está apoiando o centro de saúde de Al-Azarik na sala de emergência, os cuidados de pré e pós-natal, partos normais, vacinações de rotina e programas de nutrição.

Em Qataba, MSF apoia o hospital de Al Salam, administrado pelo governo, nas salas de emergência, na sala de observação, no laboratório e no departamento ambulatorial, e oferece cuidados de pré-natal e de nutrição. MSF também fornece água potável para 25 mil pessoas em Qataba.

Além disso, MSF está apoiando diversos centros de saúde em Al Jaffea e em Al Habilain com suprimentos médicos.

Desde o início de 2015, as equipes médicas de MSF em Al Dhale atenderam 29.399 pacientes na sala de emergência, entre os quais mais de 1.560 tinham ferimentos relacionados ao conflito.

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