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Busca e salvamento: “Eles descrevem a Líbia como o inferno”

12/11/2021
Muitos dos menores desacompanhados resgatados pelo navio de busca e salvamento de MSF no Mediterrâneo escaparam de tortura e exploração
Busca e salvamento: “Eles descrevem a Líbia como o inferno”

Foto: Filippo Taddei/MSF

“Agora eles estão brincando, sorriem e fazem amizade uns com os outros, eles se parecem com qualquer outro jovem”, diz Julie Melichar, especialista em assuntos humanitários a bordo do navio de busca e salvamento de MSF Geo Barents. “Mas eles não são mais apenas crianças ou adolescentes - não depois de tudo o que passaram”.

Melichar fala sobre os sobreviventes mais jovens resgatados por MSF em sua missão mais recente no Mediterrâneo central, quando as equipes resgataram 367 pessoas em menos de dois dias. Mais de 40% deles tinham menos de 18 anos e 140 deles estavam viajando sozinhos.

O número tão elevado de jovens que arriscam a vida para cruzar o Mar Mediterrâneo - considerada a rota de migração mais mortal do mundo - é alarmante por si só. Mas viajar sem os pais ou um adulto de confiança torna os menores desacompanhados um dos grupos de pessoas em movimento mais vulnerável.

Sem o apoio de adultos de confiança, essas crianças e adolescentes enfrentam riscos de proteção específicos e significativos, são presas fáceis para contrabandistas, traficantes, abusadores e exploradores. Em suas viagens, eles correm o risco de trabalho forçado, extorsão, detenção arbitrária e violência física, incluindo violência sexual.

Esses jovens embarcam em suas viagens por uma série de motivos. Em muitos casos, eles estão fugindo de países devastados pela guerra, perseguição, pobreza extrema, violações dos direitos humanos e acesso limitado à educação e a serviços de saúde. Muitos dos resgatados na missão mais recente de Geo Barents vêm da Somália, Eritreia, Mali e Camarões.

“Um dos meninos que resgatamos recentemente tinha apenas 12 anos quando deixou seu país”, diz Melichar. “Ele nos explicou que seu pai foi morto porque queria proteger seu filho do alistamento forçado no exército. Sua mãe não viu escolha a não ser mandá-lo embora do país para salvá-lo [do recrutamento forçado]. Ele contou que, quando chegou ao sul da Líbia, foi mantido em cativeiro e torturado por sete meses antes de conseguir escapar”.

Seja qual for o motivo para deixar seus países de origem, a Líbia é um ponto em que não há como voltar atrás. Na Líbia, existe um sistema para extorquir dinheiro de pessoas que se deslocam. Muitos migrantes e refugiados são sequestrados por milícias e grupos armados e são mantidos em cativeiro. Quem tem dinheiro pode comprar sua liberdade; não são torturados ou obrigados a realizar trabalhos forçados até que suas famílias ou amigos possam pagar por sua libertação. Essa espiral de exploração pode durar meses ou até anos.

Crianças e adolescentes não são poupados de tais atrocidades. “Muitos dos jovens que resgatamos nos disseram que haviam escapado de detenções arbitrárias, abusos e exploração na Líbia”, disse Melichar. “Alguns enfrentaram a perda de amigos ao longo de sua jornada, já que muitas pessoas desaparecem ou são mortas no país”.

Um menino me disse que estava viajando com outros cinco amigos próximos. Todos os cinco morreram em centros de detenção na Líbia, e então o menino se viu sozinho. Ele disse que começou a criar problemas e a gritar de propósito, na esperança de que os guardas o espancassem e matassem e ele pudesse se reunir com seus amigos. Isso seria demais para qualquer ser humano. Como isso pode estar acontecendo com as crianças?"

Foto: Filippo Taddei/MSF

Os médicos de MSF no Geo Barents estão oferecendo cuidados básicos de saúde e apoio psicológico a todos os sobreviventes. Assim que chegam em terra, é fundamental que recebam cuidados regulares.

“Muitos dos menores desacompanhados a bordo parecem estar lidando muito bem com o fato de estarem no navio”, disse Melichar. “Eles criaram uma comunidade juntos, fazendo amizade uns com os outros e agindo como qualquer outro adolescente. Mas, independentemente disso, sabemos que eles têm cicatrizes profundas que não vão se curar sozinhas. É por isso que um grupo tão vulnerável não pode ser esquecido quando chegam em terra firme. Eles devem receber proteção especializada, abrigo seguro adequado às necessidades das crianças e serviços médicos e psicossociais fornecidos por organizações competentes”.


 

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