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Brasileiro ajuda vítimas do terremoto na Caxemira. “Estamos trabalhando 7 dias por semana”

01/11/2005
Médico anestesista, Otávio Omati chegou à Bagh, uma das cidades mais atingidas, seis dias após o terremoto. “Onde antes não tínhamos nada além de um prédio prestes a desmoronar, agora temos um hospital beneficiando centenas de pacientes diariamente"

O paulista Otávio Omati é médico anestesista e estava em missão com MSF na Indonésia quando foi convocado para trabalhar na assistência às vítimas do terremoto que atingiu a região da Caxemira, dividida entre o Paquistão e a Índia. Ele chegou ao Paquistão no dia 13 de outubro, 5 dias após a tragédia, e depois de uma viagem que durou 12 horas de carro, chegou à Bagh, na Caxemira controlada pelo Paquistão, uma das cidades mais afetadas pela tragédia. Dr. Otávio Omati trabalha num hospital instalado por MSF na cidade, em frente ao hospital distrital de Bagh totalmente destruído. Em tendas, ele e outros profissionais de MSF realizam cirurgias, exames de laboratório, partos, oferecem tratamento intensivo e emergencial e ainda cuidam dos 40 pacientes que ocupam os leitos disponíveis. Nessa entrevista por e-mail, Dr. Otávio Omati conta como está sendo o trabalho de ajuda humanitária na região.

Onde é que MSF está trabalhando, já que as estruturas de saúde de Bagh foram destruídas?

MSF está trabalhando em várias frentes aqui em Bagh. Temos clínicas móveis fazendo consultas em vilarejos mais distantes e de difícil acesso; um programa de saúde mental; uma equipe para a distribuição de tendas de inverno, material para reconstrução das casas, kits de higiene e utensílios domésticos; e uma equipe cirúrgica no hospital do distrito de Bagh, que é onde eu trabalho como anestesista. Este hospital era o centro de referência do distrito, mas foi completamente destruído pelo terremoto. Em dois dias, MSF providenciou infra-estrutura para o reinício das atividades médicas. Tendas, água, luz, latrinas, equipamentos médico-hospitalares, além de recursos humanos.

E como manter os pacientes vivos, no que diz respeito a aquecimento, higiene, unidades intensivas, centros cirúrgicos, laboratórios?

Temos um centro cirúrgico, uma UTI e um laboratório, além das enfermarias masculina, feminina e pediátrica. O trabalho logístico de MSF é realmente impressionante. Onde antes não tínhamos nada além de um prédio prestes a desmoronar, agora temos um hospital beneficiando centenas de pacientes diariamente. Dentro de algumas semanas o frio vai ser mais intenso e MSF está planejando montar um hospital modular, usando 66 containeres.

E como é trabalhar nestas condições?

Não é fácil, mas o importante é que a população e as vítimas do terremoto tenham atendimento médico gratuito. Estamos trabalhando sete dias por semana, sem descanso, mas o agradecimento e o carinho que recebemos dos pacientes nos faz esquecer o cansaço. A população está muito grata por MSF estar presente aqui. Tão grata que quando queremos comprar alguma coisa precisamos implorar para pagar.

Qual a sua impressão quando chegou à cidade?

Quando cheguei aqui, parecia que a cidade tinha sido bombardeada, exatamente como vemos nos filmes. 70% das casas estavam destruídas. Uma região extraordinariamente bonita, mas com um clima de desespero por parte da população. Muitos não têm onde morar, como se proteger do frio e como se sustentar. Ainda vai levar algum tempo para as pessoas voltarem a ter a vida que costumavam levar.

Que tipo de trabalho você vem realizando e como os pacientes chegam ao hospital?

Venho trabalhando no centro cirúrgico, junto com cirurgiões de MSF e paquistaneses. Praticamente todos os pacientes são vítimas do terremoto, com fraturas e ferimentos graves. Crianças, jovens, adultos e idosos, todos foram vítimas deste desastre natural. Eles chegam ao hospital por si mesmos, trazidos por outras organizações de ajuda humanitária ou por nossas clínicas móveis. Temos realizado em torno de 50 intervenções cirúrgicas por semana.

Você poderia dar algum exemplo concreto do tipo de paciente que tenha atendido?

Atendemos uma menina de 11 anos, com uma fratura na mão e um amplo ferimento no antebraço. Ela já foi submetida a duas intervenções cirúrgicas e agora estamos planejando um enxerto de pele. Seus pais morreram durante o terremoto, restando ela e uma irmã dois anos mais velha. É emocionante ver as duas juntas, uma tomando conta da outra e sempre abrindo um largo sorriso quando nos vêem por perto. Outra criança com somente 1 mês de vida foi encontrada nas montanhas, por uma de nossas clínicas médicas móveis, gravemente desidratada após alguns dias com diarréia. De helicóptero, ela foi transferida para nosso hospital, onde foi reanimada e felizmente conseguiu se recuperar, recebendo alta hospitalar 7 dias depois.

Como a população local recebeu os profissionais de ajuda humanitária?

A população local é extremamente gentil e receptiva, apesar de todo sofrimento e dificuldades pelo qual está passando. É uma grande honra e privilégio poder estar aqui e ajudar este povo tão necessitado.