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Bouar, na Rep. Centro-Africana: “Aqueles que fogem assumem enormes riscos”

24/02/2014
MSF inaugura novo projeto na cidade para atender comunidades encurraladas, com medo da violência

Na medida em que a violência continua a se espalhar pelo noroeste da República Centro-Africana (RCA), equipes da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) inauguraram um novo projeto em Bouar, cidade que foi gravemente impactada pelos confrontos e suas consequências. Hoje, cerca de 6 mil pessoas continuam encurraladas e impossibilitadas de fugir.

No último mês, MSF prestou suporte ao hospital de Bouar. Florent Uzzeni, coordenador-adjunto de programa de emergência, está atualmente na RCA e descreve o que vê em campo.

Qual a situação atual em Bouar e por que MSF decidiu trabalhar na cidade?
A insegurança no país, que teve início em março de 2013, causou ondas de movimentação da população. A mais recente foi em janeiro. Diversas milícias armadas também passaram por Bouar, gerando violência contra civis. Desde janeiro, a presença de milhares de homens armados por essa pequena cidade criou uma situação imprevisível e causou estresse e ansiedade nas comunidades. No entanto, há alguns dias, a situação em Bouar mudou drasticamente com a chegada das tropas francesas da operação Sangaris e não há mais homens armados à vista.

Há um mês, MSF presta suporte ao hospital de Bouar, ajudando a equipe a tratar os feridos e administrando outras emergências médicas.

Fala-se sobre a crescente vulnerabilidade das comunidades minoritárias. Qual a situação delas em Bouar?
Desde 21 de janeiro, milhares de pessoas da população muçulmana minoritária de Bouar estão reunidas ao redor da mesquita. O distrito de Hausa tornou-se um enclave e as pessoas têm medo de sair para não serem vítimas de abusos e intimidações. Há diversos dias, ouvimos mais de uma dezena de tiros em um intervalo de menos de 20 minutos, próximo do campo de deslocados. Homens armados ameaçavam os habitantes do local e demandavam dinheiro em troca de segurança. Esta comunidade está ficando cada vez mais amedrontada. As pessoas temem por suas vidas. Muitos perderam membros de suas famílias, mortos durante as últimas semanas de violência. Muitos perderam seus pertences e não podem mais continuar com seus negócios. Para muitas pessoas, fugir é a única alternativa.

Houve deslocamentos para países vizinhos?
Temos visto pessoas indo para Camarões nas últimas semanas. No início de fevereiro, 8.500 pessoas deslocadas estavam aqui, mas, nos últimos dias, cerca de 2 mil fugiram para a cidade fronteiriça de Garoua-Boulaï, em Camarões. Muitas pessoas estão chegando todos os dias, o que dificulta a obtenção de números confiáveis. Nesse momento, estamos vendo mulheres e crianças em caminhões, a caminho de Camarões. A segurança no trajeto entre Bouar e Garoua-Boulaï melhorou ligeiramente com a chegada recente das tropas da Sangaris. Por outro lado, os homens estão ficando para trás, porque temem serem mortos na estrada. A maioria das pessoas deslocadas tem medo de sair daqui e aquelas que o fazem assumem enormes riscos.

Qual a situação humanitária enfrentada pelas pessoas deslocadas?
As pessoas não recebem assistência alimentar desde janeiro. Conduzimos um rastreio nutricional e vamos dar início a um programa ambulatorial para tratar crianças desnutridas por toda a região de Hausa. A situação nutricional ainda não é catastrófica, mas identificamos cerca de 20 crianças desnutridas na última semana. Se nada for feito, a situação pode piorar rapidamente. É comum que a região seja afetada por um pico de desnutrição durante a estação da seca, bem como por muitos casos de infecção respiratória.

Em quais atividades MSF tem estado concentrada desde janeiro?
Desde nossa chegada, tratamos 72 pacientes na sala de emergência do hospital. Aproximadamente 40 deles foram vítimas de um acidente de caminhão, que aconteceu durante o trajeto de fuga para Camarões. Eles foram tratados em Bouar antes de serem escoltados para Garoua-Boulaï há alguns dias, onde equipes de MSF os buscaram para dar continuidade ao tratamento do outro lado da fronteira.

Os pacientes feridos que estamos tratando agora no hospital de Bouar foram feridos há diversos meses. Atendemos, recentemente, pacientes com fraturas de fêmur que haviam ocorrido há diversos meses. Eles estavam escondidos na mata devido à insegurança. Alguns começaram a sair dali porque a situação está um pouco mais calma agora do que estava há alguns meses.

Qual a situação em termos de acesso a cuidados médicos?
É difícil. As pessoas, principalmente os muçulmanos, estão com medo de deixar seus bairros para ir ao hospital por conta da situação de segurança e da presença de homens armados nas estradas. Um centro de saúde foi estruturado no local para oferecer cuidados de saúde primária. No entanto, pessoas que levaram tiros ou facadas não têm alternativa que não ir ao hospital, que fica a um quilômetro. Elas se sujeitam a riscos consideráveis pela estrada quando viagem em busca de tratamento.

Fora da cidade, diversos diretores de centros de saúde reportaram saques às suas instalações. Alguns alegam terem sido ameaçados por grupos armados por diversas vezes desde março. No hospital de Bouar, houve até uma incursão de homens armados no dia 31 de janeiro, o que levou à interrupção das atividades por dois dias. Em Bohong, a 70 quilômetros de Bouar, o centro de saúde foi atacado diversas vezes, sendo a mais recente delas em dezembro, e foi obrigado a fechar suas portas, apesar das necessidades da comunidade por cuidados de saúde. Logo que a situação de segurança permitir, vamos organizar clínicas móveis nos arredores de Bouar.
 
MSF atua na RCA desde 1996 e administra oito projetos regulares em Batangafo, Boguila, Carnot, Kabo, Ndéle, Paoua, Bria e Zémio e sete de emergência em Bangui, Bouar, Bangassou, Bozoum, Bossangoa, Yaloke e Berberati. A organização conta com 240 profissionais internacionais e 2 mil locais trabalhando no país. Equipes adicionais de MSF estão prestando assistência a refugiados centro-africanos em Camarões, no Chade, na República Democrática do Congo e no Congo.

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