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Borno, Nigéria: apesar da COVID-19, malária, desnutrição e doenças transmitidas pela água não recuarão

06/04/2020
Equipes de MSF trabalham para controlar a disseminação do novo coronavírus no estado de Borno
Borno, Nigéria: apesar da COVID-19, malária, desnutrição e doenças transmitidas pela água não recuarão

Foto: Scott Hamilton/MSF

Após mais de uma década de conflito armado, surtos de desnutrição grave, malária, sarampo e cólera, aproximadamente 1,5 milhão de deslocados internos no estado de Borno, na Nigéria, agora enfrentam o fantasma da COVID-19. Muitos vivem em acampamentos superlotados, com pouca água e instalações sanitárias, abastecimento limitado de itens essenciais de higiene, como água e sabão, e falta de espaço individual. A infraestrutura de saúde funcional em Borno é escassa e a possibilidade de encaminhamento de pacientes é extremamente limitada. Como há muitas pessoas já vulneráveis a surtos de doenças, a assistência humanitária essencial deve ser mantida; as condições das instalações de água e saneamento devem ser aprimoradas nos campos de deslocados internos; e os profissionais de saúde que trabalham na linha frente de combate ao novo coronavírus, dos quais a população dependerá, devem ter acesso a equipamentos de proteção individual.

Médicos Sem Fronteiras (MSF) trabalha no estado de Borno desde 2014 e, durante esse período, presenciamos as condições deploráveis em que vivem os deslocados internos. Muitos deles são afetados por enfermidades endêmicas em assentamentos superlotados, como doenças transmitidas pela água e infecções do trato respiratório, como a pneumonia, que foi identificada como uma ameaça significativa quando somada à COVID-19.

Manter operações que salvam vidas

 A COVID-19 está tendo um efeito devastador nos sistemas de saúde, economias e populações em todo o mundo e representa uma ameaça substancial em Borno. No entanto, mesmo que a COVID-19 não estivesse presente na Nigéria, a necessidade de assistência humanitária em Borno ainda seria enorme. Em pouco mais de um mês, a estação chuvosa começará, trazendo consigo um aumento no número de casos de malária e desnutrição. Em Maiduguri, Ngala, Pulka e Gwoza, nossos hospitais funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana e, durante a estação chuvosa, todos estarão lotados. Somente em 2019, as equipes de MSF trataram mais de 10 mil pacientes com desnutrição em Borno e mais de 33 mil com malária; mais de 40 mil pacientes foram recebidos nas salas de emergência de MSF. O efeito que a COVID-19 terá sobre nossos pacientes não deve ser subestimado. Se o caos causado por essa pandemia gerar cortes na oferta de assistência humanitária, os resultados serão catastróficos.

MSF está extremamente preocupada com a disseminação da COVID-19 e com o impacto potencialmente desastroso que ela terá sobre os mais vulneráveis. À medida que o vírus se espalha na Nigéria, nossa prioridade é manter nossas operações, que salvam milhares de vidas todos os anos, e proteger nossos pacientes e profissionais. Para fazer isso, nossas equipes médicas e logísticas reforçaram os protocolos de prevenção de infecções, informaram as comunidades locais sobre as melhores medidas de prevenção contra a COVID-19, instalaram pontos de água para lavar as mãos nas comunidades locais, estabeleceram zonas de isolamento e adaptaram nossos processos de triagem.  Em um momento de demanda global sem precedentes por suprimentos médicos, a aquisição de equipamentos de proteção individual para a equipe de saúde representa um desafio substancial; no entanto, é um desafio que devemos enfrentar para proteger os profissionais médicos da linha de frente e continuar tratando nossos pacientes.

Água limpa: um recurso precioso e limitado

Em Pulka, onde MSF mantém um hospital que oferece serviços abrangentes, com atividades de extensão, capacidade cirúrgica, assistência à maternidade e tratamento de violência sexual e de gênero, a situação é terrível. Pulka é uma cidade de guarnição, isto é, um centro populacional controlado pelos militares nigerianos. Atualmente, abriga aproximadamente 63 mil pessoas, 78% das quais foram deslocadas pelo menos uma vez desde 2015. Existem 27 mil pessoas vivendo em campos superlotados de deslocados internos em Pulka, com acesso limitado a serviços básicos, incluindo água, alimentos e assistência médica. Em Pulka e Gwoza (uma cidade vizinha), os campos de trânsito para recém-chegados estão superlotados; em Gwoza, o número da população do campo de trânsito é o triplo da capacidade recomendada; e em Pulka, os abrigos comunitários mantêm pessoas por meses ou até anos, mas, na verdade, são projetados para ser uma solução temporária, de apenas duas semanas.

Em uma avaliação recente, conduzia por nossos especialistas em água e saneamento, MSF constatou que o fornecimento de água diário por pessoa em Pulka era de apenas 11 litros –quantidade muito abaixo do padrão mínimo humanitário de 20 litros, destinados para saúde e higiene. Desses 11 litros, apenas uma média de dois litros era clorada e, portanto, adequada para beber. Quantidades muito baixas, como 4,5 litros por pessoa, também foram registradas em pesquisas anteriores.

“Você precisa acordar cedo para conseguir água o suficiente. Tenho sete filhos e, às vezes, falta água para bebermos – e, então, temos que pedir aos nossos vizinhos. Todos os dias as mulheres lutam por isso – sabemos que não haverá água o suficiente para todos”, conta Ajia Adam, uma deslocada interna que vive em Pulka.

Em Maiduguri, capital do estado de Borno, o abastecimento de água e as condições de saneamento não são muito melhores. Entre 1999 e 2011, MSF respondeu sete vezes a surtos de cólera em Maiduguri e, em 2018, mais de 4 mil pessoas foram diagnosticadas com cólera em 18 áreas do governo local nos estados de Borno, Adamawa e Yobe.

“Em todos os cenários com deslocados internos onde MSF atua no estado de Borno, as lacunas no abastecimento de água e saneamento exacerbam a ameaça representada pela COVID-19. Essas lacunas, combinadas com os níveis de superlotação e com os problemas de saúde endêmicos, combinados à falta de infraestrutura de saúde, destacam a vulnerabilidade da população. Não há dúvidas sobre o perigo que a COVID-19 represente, no entanto, uma coisa é certa: outras doenças e condições médicas não cederão. Não podemos permitir que essa pandemia atrapalhe a oferta de assistência médica paralela. É fundamental continuar prestando serviços médicos neste momento para salvar vidas”, diz Siham Hajaj, coordenadora-geral de MSF na Nigéria.

A COVID-19 não é a única ameaça que as pessoas enfrentam no estado de Borno, mas sua presença na Nigéria destaca a extrema vulnerabilidade de muitos que já sofreram os horrores da guerra, de doenças e da desnutrição. Para eles, o distanciamento social é um luxo abstrato e lavar as mãos frequentemente reduz um recurso precioso – às vezes, não há água nem para beber. Diante dessa pandemia, as ramificações da frágil infraestrutura de saúde de Borno estão mais claras do que nunca. É imperativo que a assistência humanitária seja mantida para essa população. O contrário disso custará vidas.

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