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Bombardeios indiscriminados e falta de garantias da coalizão liderada pela Arábia Saudita forçam MSF a retirar suas equipes de seis hospitais no norte do Iêmen

18/08/2016
Decisão foi tomada após o ataque aéreo que atingiu o hospital de Abs, apoiado por MSF. Ao todo, 19 pessoas foram mortas e 24 ficaram feridas
Bombardeios indiscriminados e falta de garantias da coalizão liderada pela Arábia Saudita forçam MSF a retirar suas equipes de seis hospitais no norte do Iêmen

Foto: MSF

Após os bombardeios aéreos do dia 15 de agosto ao hospital de Abs, na província iemenita de Hajjah, que matou 19 pessoas e feriu 24, a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) decidiu evacuar seus profissionais dos hospitais que apoia nas províncias de Saada e Hajjah, no norte do Iêmen.

MSF retirou suas equipes dos hospitais de Haydan, Razeh, Al Gamouri e Yasnim, em Saada, e dos hospitais de Abs e Al Gamouri, em Hajjah. O ataque ao hospital de Abs foi o quarto e o mais mortal a uma instalação apoiada por MSF durante o conflito iemenita. Além disso, tem havido inúmeros ataques a outras instalações e serviços de saúde por todo o país.

Desde os fracassos das conversações de paz entre a coalizão liderada pela Arábia Saudita e as forças Houthi no Kuwait há 11 dias, a coalizão retomou e intensificou sua campanha no norte do Iêmen.

Ao longo dos últimos oito meses, MSF se reuniu com oficiais de alto nível da coalizão em duas ocasiões em Riyadh para assegurar a oferta de assistência médica e humanitária aos iemenitas, assim como para buscar garantias de que os ataques a hospitais cessariam. No entanto, os bombardeios aéreos continuaram, mesmo MSF tendo compartilhado sistematicamente com todas as partes do conflito as coordenadas geográficas dos hospitais nos quais atua. Oficiais da coalizão afirmaram repetidamente que honram o Direito Internacional Humanitário, porém, esse ataque mostra seu fracasso e incapacidade de controlar o uso da força e de evitar ataques a hospitais cheios de pacientes. MSF não está satisfeita nem convencida de que esse ataque foi um erro, conforme dito em uma declaração da coalizão liderada pela Arábia Saudita.

Diante da intensidade da atual ofensiva e da perda de confiança na capacidade da coalizão de evitar ataques fatais como este, MSF considera que, nas circunstâncias atuais, os hospitais em Saada e Hajjah são espaços inseguros tanto para pacientes quanto para profissionais. A decisão de evacuar as equipes - que incluem obstetras, pediatras, cirurgiões e especialistas em emergência - de um projeto nunca é tomada facilmente, mas, na ausência de garantias confiáveis das partes em conflito de que respeitarão o status de proteção conferido a instalações médicas, profissionais de saúde e pacientes, pode não haver outra opção. Este é o caso das províncias de Hajjah e Saada, baseado nos eventos recentes.

Enquanto uma investigação independente continua a ser necessária, devemos ressaltar que investigações militares anteriores conduzidas pela coalizão relacionadas a instalações de MSF não foram compartilhadas com a organização. “Este último incidente mostra que as atuais regras de engajamento, protocolos e procedimentos militares não são suficientes para evitar ataques a hospitais, e precisam de revisão e mudanças”, diz Joan Tubau, diretor-geral de MSF na Espanha. “MSF pede à coalizão liderada pela Arábia Saudita e aos governos que a apoiam, particularmente dos Estados Unidos, Reino Unido e França, que garantam uma aplicação imediata de medidas orientadas para ampliar substancialmente a proteção de civis.”

Os hospitais que MSF apoia em Saada, Haydan, Razeh, Abs, Yasnim e Hajjah continuarão sendo mantidos por profissionais do Ministério da Saúde e voluntários. Esses hospitais já estão enfrentando grandes dificuldades para continuar respondendo às necessidades médicas causadas pelos bombardeios e às necessidades agudas criadas ou exacerbadas pela escassez com a qual os iemenitas estão tentando lidar. MSF pede a todas as partes em conflito que garantam a segurança desses hospitais e que lhes permitam continuar a prestar cuidados médicos com neutralidade e imparcialidade.

MSF lamenta profundamente as consequências desta evacuação para os nossos pacientes e os nossos colegas médicos iemenitas do Ministério da Saúde que vão continuar a trabalhar nas unidades de saúde em condições inseguras. Esperamos que a situação de segurança melhore para que a população tenha algum descanso e as equipes de MSF sejam capazes de voltar a oferecer cuidados médicos extremamente necessários. MSF lamenta o fracasso coletivo de proteger os civis iemenitas da ação militar e também da falha em ajudá-los com a resposta humanitária adequada.

MSF condena o modo como todos os atores envolvidos – a coalizão saudita, os Houthi e seus aliados – estão conduzindo essa guerra e perpetrando ataques indiscriminados sem qualquer respeito pelos civis. Mais uma vez, MSF envia suas condolências às famílias de nossos profissionais e pacientes que foram mortos no ataque. O fato de uma equipe médica e pessoas doentes e feridas terem sido mortas dentro de um hospital mostra a crueldade e a desumanidade dessa guerra.

Antes dessa evacuação, MSF atuava em 11 hospitais e centros de saúde no Iêmen e oferecia apoio a outros 18 hospitais ou centros de saúde em oito províncias: Aden, Al-Dhale, Taiz, Saada, Amran, Hajjah, Ibb e Sana’a. Atualmente, mais de 2 mil profissionais de MSF estão trabalhando no país, incluindo 90 profissionais internacionais.

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