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Bio-Manguinhos responde positivamente à petição de MSF

18/12/2015
Mais estudos serão conduzidos com a vacina sarampo-rubéola pelo instituto para definir seu padrão de termoestabilidade

Foto: Pedro Ballesteros/MSF

Em resposta à manifestação de mais de 27 mil assinantes da petição promovida pela organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF), o instituto Bio-Manguinhos afirma que está trabalhando em estudos para estabelecer o tempo que a vacina conjugada sarampo-rubéola resiste em temperaturas consideradas extremas para orientar seu uso em situações específicas.

Ainda que o apelo da petição lançada em setembro deste ano demandasse um bom perfil de termoestabilidade para que a vacina pudesse ser utilizada sem a necessidade de todo um aparato logístico para mantê-la entre 2 e 8 graus Celsius, segundo Marcos da Silva Freire, líder do projeto de desenvolvimento da vacina conjugada sarampo-rubéola e vice-diretor de Desenvolvimento Tecnológico de Bio-Manguinhos-Fiocruz desde 2009, o mais prudente neste momento é avançar com a formulação atual do produto. Ele ressalta que a vacina é termoestável nas temperaturas estabelecidas para estocagem e distribuição, assim como na temperatura de 37oC por sete dias. “Para chegarmos a esta fase, diversas formulações foram testadas, e esta foi a que apresentou melhores resultados quanto à termoestabilidade. Buscar uma formulação ou processo que aumente a termoestabilidade de uma vacina composta de vírus vivo não é simples, e demandaria muito trabalho na escala laboratorial sem a garantia de sucesso“, afirma.

Marcos diz ainda que o instituto planeja conduzir estudos para definir com precisão as variações de temperatura que a vacina sarampo-rubéola suporta. Nesse sentido, serão feitas análises acerca do aperfeiçoamento dos indicadores de temperatura das embalagens da vacina. “Com os dados obtidos nos estudos de termoestabilidade em temperaturas mais altas, nós vamos trabalhar com os produtores para chegarmos a um monitor de frasco de vacina específico. A boa notícia é que o fornecedor, que é autorizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), diz que isso é possível”, diz Marcos. Segundo definição da OMS, os monitores de frasco de vacina, que medem a exposição ao calor, são graduações de tempo e temperatura incorporadas aos frascos de vacina no momento da fabricação. Por meio da mudança gradual da cor, eles alertam os profissionais de saúde quando uma vacina foi excessivamente exposta ao calor e não deve mais ser usada.

Atualmente, cerca de 22 milhões de crianças de até um ano de idade não recebem todas as vacinas que estão disponíveis e de que necessitam para estarem protegidas contra doenças graves que podem levar a morte. Hoje, para viabilizar campanhas de vacinação em locais remotos e sujeitos a altas temperaturas, se faz necessária uma cadeia de frio que demanda energia elétrica e refrigeradores para garantir a conservação de vacinas em determinadas temperaturas para que sejam efetivas. Tudo isso representa enormes desafios logísticos e financeiros para governos e organizações humanitárias que, como MSF, envolvem-se com a vacinação de pessoas em cantos remotos do mundo. “É com satisfação que recebemos a informação que esforços serão feitos no sentido de buscarmos uma solução para os desafios que hoje encontramos em campo. Entendemos as dificuldades, e reconhecemos o compromisso e a seriedade de Bio-Manguinhos com a saúde pública para além das fronteiras brasileiras. Nossa parceria de longa data com a Fiocruz tem beneficiado nossos profissionais e pacientes de forma efetiva”, afirma Lucia Brum, médica e consultora em doenças emergentes da Unidade Médica Brasileira (Bramu) de MSF.

Atualmente, o mercado conta com apenas um fornecedor da vacina sarampo-rubéola, e Bio-Manguinhos é um dos poucos produtores de vacina no mundo que está desenvolvendo um produto para atender a demanda global a um preço acessível. De acordo com o instituto, em termos regulatórios, a morosidade na deliberação dos registros ou mesmo aprovações emergenciais é um desafio a ser superado. “A regulação da produção e a liberação de vacinas para o uso humano deve acompanhar as demandas por novos produtos, tecnologias e customização dessas vacinas. Assim, quando avaliamos a necessidade de produtos, seja por questões epidemiológicas ou mesmo socioeconômicas, deve existir uma maior flexibilidade”, conclui Marcos.