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Bangladesh: “As necessidades de água potável continuam sendo extremas”

18/10/2017
Escassez de água e saneamento são preocupantes em acampamentos de refugiados Rohingya
Bangladesh: “As necessidades de água potável continuam sendo extremas”

Foto: dar Yasin

Mais de meio milhão de refugiados Rohingya chegaram a Bangladesh em menos de dois meses após uma onda de violência no estado de Rakhine, em Mianmar, país vizinho. A maioria dos refugiados vive em acampamentos improvisados, sem acesso adequado a abrigo, alimento, água potável ou latrinas. O especialista em água e saneamento Paul Jawor, da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), acaba de voltar do sudeste de Bangladesh. A seguir, ele descreve as terríveis condições enfrentadas pelos refugiados e as formas como MSF está fornecendo água potável em um dos assentamentos.

Paul, você acaba de voltar de Bangladesh. O que você conta sobre a situação lá?

Poucas vezes na vida vi tantas pessoas – centenas de milhares delas – vivendo em abrigos improvisados e se acomodando em um lugar do tamanho de uma cidade europeia pequena, com muito pouco acesso a serviços básicos. Ações de assistência estão sendo implementadas, mas as necessidades dos refugiados, especialmente no que diz respeito a água limpa, ainda são extremas.

Em Unchiparang, um dos campos em que MSF oferece assistência médica, 33 mil pessoas só bebem água não tratada, coletada em arrozais, poças ou poços pouco profundos cavados à mão. Grande parte das poucas latrinas disponíveis já desmoronaram, de modo que as pessoas defecam a céu aberto, contaminando ainda mais a água.

Sob uma perspectiva geológica, Unchiparang tem um terreno plano, com colinas no meio do campo. Um pequeno rio passa por ali, mas só alguns refugiados de um dos lados das colinas têm acesso fácil a ele. O solo argiloso, pesado e impermeável se enche de lama quando chove. O aquífero, “depósito” de água subterrânea, não é profundo e, se alguém cavar demais, encontra água salgada devido à proximidade com o mar.

Dadas as enormes necessidades de água potável, o que as equipes de MSF conseguiram fazer até agora no local durante as primeiras semanas?

Nossa prioridade, como sempre nessas situações, foi assegurar que houvesse água limpa e potável na clínica que instalamos no campo. Devemos garantir que as instalações de saúde não sejam um lugar em que as pessoas possam contrair outras doenças, em especial diarreias. Os profissionais de saúde devem poder lavas suas mãos e materiais; os pacientes devem poder tomar seus medicamentos com um copo de água limpa.

Conseguimos fazer uso do rio, que é a principal fonte de água. Nossas equipes instalaram uma grande tubulação que leva a tanques enormes, capazes de distribuir até 30 mil litros de água limpa e clorada por dia. Isso está muito abaixo dos padrões ideias para uma população tão grande, mas estamos aumentando essa capacidade, especialmente para as pessoas que se instalaram longe do rio. Também lideramos uma campanha de sensibilização para que a população não contamine o rio.

Em outros locais, utilizaremos uma versão maior e mais segura do poço tradicional na técnica de solo. Começamos a escavar esses “poços”, que têm mais ou menos dois metros de largura e cinco de profundidade, e nosso objetivo é ter entre 15 e 20 deles em breve. As estruturas terão plataformas de concreto para evitar a entrada de sujeira e uma pequena parede para impedir possíveis inundações. Os poços serão alinhados para evitar a contaminação da água superficial. Além disso, logicamente, a água será clorada.

A principal dificuldade quando um local e sua população são tão grandes é escolher onde cavar os poços. Analisamos os registros médicos de nossa clínica e trabalhamos com nossas equipes de promoção de saúde para identificar os focos de origem de muitos casos de diarreia. Quando os poços forem construídos, as famílias que vivem nesses lugares, que são as mais vulneráveis, receberão baldes, assim como kits de higiene e purificação. É essencial que toda a comunidade se envolva. A equipe de promoção de saúde de MSF vai realizar treinamentos de cloração e manutenção dos sistemas de água com a população local.

Como você vê a situação nos próximos meses para os refugiados em Unchiparang?

Com o início da estação seca e com a chegada de mais refugiados todos os dias, o acesso à água continuará sendo uma preocupação central em todos os acampamentos. O rio que atravessa o campo de Unchiparang secará em dois ou três meses, como acontece todo ano, e os poços fornecerão cada vez menos água por dia.

É importante que MSF e outras organizações se preparem e instalem sistemas de água que possam sustentar a população durante a estação de seca. Planejamos construir quatro “piscinas” no campo de Unchiparang. Nós não as chamamos assim porque as pessoas podem nadar nelas, mas sim para dar uma ideia de seu tamanho. Elas têm sete metros quadrados e quatro metros de profundidade. Podem conter 200 metros cúbicos de água e capturar tanto a chuva como a água subterrânea. Essa não é uma ideia nova. Tanques como esses estão presentes em todas as mesquitas e em algumas casas particulares da região. Além disso, MSF já construiu esses sistemas em resposta a outras emergências, como, por exemplo, em Mianmar, depois da passagem do ciclone Nargis.

Para além do âmbito médico, melhorar o acesso à água e ao saneamento é uma parte importante do trabalho de MSF para atender às necessidades dos refugiados em Bangladesh. MSF já construiu mais de 200 latrinas, 25 poços de água e um sistema de abastecimento de água pela força da gravidade. Por meio de caminhões, a organização também fornece a acampamentos e assentamentos uma média de 100 metros cúbicos de água do poço em uma de suas clínicas.
 

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