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Bangladesh: comunidades Rohingya levadas ao limite

01/02/2021
Refugiados e Mianmar enfrentam aumento da violência e redução da ajuda humanitária no acampamento de Cox’s Bazar
Bangladesh: comunidades Rohingya levadas ao limite

Foto: Hasnat Sohan/MSF

Faruk é um refugiado Rohingya que vive em um acampamento em Cox's Bazar, Bangladesh. “Ninguém quer ser refugiado. A vida que temos aqui não é fácil”, afirma. “Vivemos em uma prisão aberta. A vida de um refugiado é horrível e todos os dias parecem iguais. Não podemos viajar para fora da área dos acampamentos, pois precisamos de uma autorização especial para sair, que só é concedida em circunstâncias especiais, como atendimento médico ou emergências.”

“Às vezes me mordo para ver se consigo sentir algo e já tentei me suicidar”, acrescenta.

Viver em acampamentos superlotados durante os três últimos anos, sem esperança para o futuro e sem status legal, já estava afetando a saúde mental dos refugiados Rohingya em Cox's Bazar. A pandemia de COVID-19 acrescentou ainda mais restrições e estresse à vida deles.

Olhando para além da pandemia, a rotina nos acampamentos não mostra sinais de melhora, nem esforços para realocar alguns refugiados e  enfrentar a superlotação, o que aumenta a inquietação. Rumores sobre realocações para Bhasan Char, uma massa de sedimentos que formou uma espécie de 'ilha' a 30 quilômetros do continente, datam de 2015, mas se tornaram realidade em dezembro. Antes disso, em maio de 2020, cerca de 300 refugiados Rohingya que haviam sido resgatados no mar foram transferidos para a ilha, como forma de quarentena contra a pandemia da COVID-19. Eles nunca saíram e pouco se sabe sobre as condições que enfrentaram enquanto detidos. No início de dezembro, juntaram-se a eles mais de 1.600 pessoas dos acampamentos em Cox's Bazar.

Até o momento, estima-se que mais de 3 mil pessoas foram realocadas para Bhasan Char. É provável que mais Rohingyas enfrentem realocação em breve. Autoridades afirmam que a ilha tem capacidade estimada para abrigar 100 mil pessoas. Organizações humanitárias independentes, incluindo a ONU, ainda não conseguiram acesso ao local, aumentando as preocupações já crescentes sobre as condições do local.

Mais recentemente, um incêndio destruiu cerca de 550 abrigos no acampamento de refugiados registrados em Nayapara. A imprensa estimou que cerca de 3.500 Refugiados vivem na região. Embora não tenha havido vítimas, apenas algumas pessoas com ferimentos leves, para quem vive no local, a perturbação na vida diária foi enorme.

Antes disso, os serviços nos acampamentos, fornecidos principalmente por organizações humanitárias, foram reduzidos em 80 por cento para ajudar a reduzir os movimentos e conter a disseminação do COVID-19. As medidas afetam atendimento médico, distribuição de alimentos e até mesmo oferta de água. O impacto crescente de muitos meses de apoio humanitário reduzido, especialmente em uma comunidade que está cada vez mais contida, restrita e colocada em uma posição de dependência da assistência humanitária, fez com que a luta diária para atender até mesmo as necessidades básicas aumentasse as tensões.

Todos esses fatores crescentes aumentaram o estresse mental enfrentado pelos refugiados Rohingya em Bangladesh, tornando suas vidas mais difíceis. Essa tensão se transformou em violência.

Asiya parece nervosa ao chegar ao hospital de MSF em Kutupalong. Ela precisa conversar com alguém sobre o que aconteceu com ela em outubro, durante um confronto de 12 dias nos acampamentos, entre dois grupos Rohingya,.

Com a voz trêmula, ela descreve a violência que testemunhou. “Eu estava escondida na cozinha com meus filhos para que ninguém pudesse nos atacar”, diz. “Quando a violência estourou nos acampamentos, não havia homens em casa. Ouvimos os disparos e ficamos em silêncio, fechando todas as portas. Ficamos assustados e chocados. ”

Após a violência, muitos refugiados e suas famílias deixaram os abrigos e se mudaram para outras partes do campo que não foram afetadas pelos confrontos. Nossa equipe de campo conversou com pessoas traumatizadas que tinham até medo de visitar hospitais, postos de saúde ou clínicas, para receber atendimento básico de saúde.

Kathy Lostos, coordenadora de atividades de saúde mental de Médicos Sem Fronteiras (MSF), afirma que, apesar das recentes escaladas, há medidas que podem ser tomadas para melhorar a situação dos que vivem nos acampamentos e, por sua vez, sua saúde mental. “A melhor coisa a fazer é restaurar a sensação de segurança com atendimento à saúde mental”, diz. “Ter algum grau de controle ou autonomia sobre o futuro é um fator determinante para criar uma sensação de segurança. Isso envolve coisas como incluir comunidades nos processos de tomada de decisão ou criar um senso de autonomia e controle sobre o futuro. [Isso] serve para mitigar os efeitos de longo prazo do trauma.”

“Quando o futuro de um grupo é incerto e a população não está integrada à sociedade, isso gera uma sensação de insegurança”, diz Lostos. “Sentir que sua vida está ameaçada pode levar à sensação de desamparo, acreditando que 'nada do que eu fizer terá importância', e isso pode ter um grande impacto na saúde mental das pessoas.”

Laila, uma voluntária no hospital de Kutupalong, enfrentou a violência enquanto estava em uma escola com sua família e seus pais. “Saímos de casa e nos abrigamos em uma escola dentro do acampamento, e ficamos quase 20 dias fora de casa”, diz.

Enquanto fala, Laila segura um papel em suas mãos e o enrola várias vezes. Nossa equipe de saúde mental percebeu que ela estava fazendo pouco contato visual, possivelmente tentando controlar suas emoções mantendo-se ocupada. “Estou tensa e realmente frustrada, pensando no futuro”, diz. “Comecei a pensar, de certa forma, que não temos futuro nem esperanças. Estamos presos aqui. As restrições de movimento e a impossibilidade de conseguir empregos estão tornando nossa vida muito mais difícil.”

Mas, apesar dos desafios crescentes, ainda há esperança dentro dos acampamentos. “Tenho muitos sonhos”, diz Faruk. “Quero visitar e explorar outros lugares. Quero ir para minha casa em Arakan [estado de Rakhine, Mianmar], desde que tenhamos justiça e direitos.”

Nos campos de Cox's Bazar, MSF desenvolve atividades de saúde mental desde 2009. Lá, nossas equipes oferecem apoio com sessões de aconselhamento individual, familiar e em grupo. Os especialistas em saúde mental se concentram nos mecanismos de enfrentamento e construção de resiliência. A pressão sobre os refugiados Rohingya está representada no número crescente de serviços de saúde mental oferecidos pela equipe de MSF em Cox's Bazar no ano passado, com um aumento estimado de 61% no número de pessoas que procuram serviços de saúde mental em comparação com o ano anterior. Esses números mostram um aumento estimado de 74% para consultas de saúde mental em grupo e um aumento de 51% nas consultas de saúde mental individuais em 2020. De janeiro a dezembro de 2020, a equipe de MSF realizou 36.027 consultas de saúde mental em grupo e 32.336 consultas individuais. Já em 2019, a equipe realizou 20.724 atendimentos em grupo e 21.297 individuais no mesmo período.

* Os nomes dos pacientes foram alterados a seu pedido.

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