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Bangladesh: “Agora ninguém pode abusar de mim”

10/10/2017
Equipes de MSF oferecem aconselhamento psicológico para sobreviventes de violência sexual e de gênero em Dhaka
Bangladesh: “Agora ninguém pode abusar de mim”

Foto: Amber Dowell

“Antes eu não tinha coragem de ajudar outras mulheres porque tinha medo do meu marido”, diz Saliha, falando rapidamente em meio ao calor da tarde. “Mas agora eu superei todos os meus medos e ansiedades”.

Saliha é paciente da Clínica de Saúde da Mulher mantida por Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Kamrangirchar, uma favela densamente povoada no sul de Dhaka, capital de Bangladesh.

Em três quartos muito bem pintados, a equipe dá assistência a mulheres como Saliha, sobreviventes de violência sexual ou de gênero. Apesar de isso incluir vítimas de abusos sexuais cometidos por estranhos, em Kamrangirchar atende-se principalmente mulheres que foram abusadas em suas próprias casas, por seus maridos ou outros membros da família.
Saligha sobreviveu a abusos de seu pai e depois de seu marido. Ela é, de alguma forma, a típica mulher que vem à clínica.
“Vemos muitos casos em que mulheres jovens são abusadas por seu parceiro íntimo e por outros momentos da família. Isso faz com que elas corram um grande risco de desenvolver distúrbios de saúde mental”, explica Mitu, uma psicóloga da clínica. “Elas desenvolvem depressão, ansiedade e às vezes há um risco alto de cometerem suicídio”.

A violência teve um efeito devastador sobre a saúde mental de Saliha. “Ele tinha o costume de me jogar para fora de casa quanto estava irritado. Eu era constantemente espancada e sofria abuso verbal”, explica. “Depois de tudo, eu tomava pílulas para dormir, cortava meus pulsos ou tentava me enforcar. Eu não podia contar nada para meus pais porque esse era meu casamento”.

Para muitas mulheres, não é só a violência física que sofrem que causa um forte impacto sobre sua saúde mental. Ainda que tivesse sido uma boa estudante, o marido de Saliha a convenceu de parar de ir à escola para ter um bebê. “Eu pensava que ele ia mudar de ideia depois do nascimento”, diz Saliha. Ele batia nela mesmo quando ela estava grávida.
Outros membros da família também podem ter responsabilidade. A sogra de Saliiha nunca aprovou o casamento com seu filho e fazia Saliha passar fome, escondendo dela o alimento da família.

Como mostra a experiência de Saliha, a violência perpetrada por parceiros íntimos vai além do comportamento físico ou sexual. Pode incluir todos os tipos de tratamento abusivo, como abusos emocionais, comportamento controlador, coerção e abuso financeiro.  

Uma pesquisa em larga escala conduzida entre as mulheres de Bangladesh indicou que 72% delas experimentaram algum tipo de violência doméstica nos últimos 12 meses. E, em uma pesquisa realizada entre os homens bengalis, 61% deles concordavam com a frase “há momentos em que a mulher merece ser espancada”.

Contudo, apesar da prevalência e da severidade do problema, a questão não é amplamente discutida. Das mulheres consultadas em Bangladesh que experimentaram algum tipo de abuso, 73%  relatam ter mantido o caso em segredo, sem contar a ninguém os problemas que enfrentaram. Leah, uma das dedicadas conselheiras da equipe da clínica, explica algumas das razões para isso:

“Elas não sabem que isso configura um tipo de abuso. Elas pensam que é direito do marido bater nelas, que o espancamento é um direito moral. Especialmente em Kamrangirchar há muitos casos de estupro cometidos pelos maridos, mas nossas pacientes não estão prontas para aceitar que os maridos podem estuprá-las. Elas não entendem que estão sendo abusadas”.

Também há poucas opções para mulheres que estão em relacionamentos abusivos. A maioria não tem dinheiro para viver de forma independente, e suas famílias podem não ter recursos para apoiá-las. Mesmo quando o dinheiro não é um problema, o estigma de ser uma mulher divorciada em Bangladesh é enorme e pode transformar coisas básicas, como alugar um lugar para viver, em um grande desafio. A falta de opções deixa muitas mulheres presas em relacionamentos violentos, frequentemente se isolando e lutando para sobreviver.

“Algumas pacientes me perguntavam ‘mas o que podemos fazer?’”, diz Cindy, agente de saúde mental do projeto. “Nada vai mudar, então por que estão nos oferecendo serviços se seus pacientes passam pela mesma situação repetidas vezes?”.

Porém, para mulheres como Saliha, o aconselhamento pode ser transformador.

“Agora meu trauma psicológico se foi”, diz Saliha. “Depois de vir à clínica, tive coragem de superar essa luta diária. Eu aprendi como lidar com os abusos de meu marido”.

Ainda que elas continuem sendo vítimas de violência em casa, o aconselhamento dá a essas mulheres um espaço para falar, para ver o sentido de suas experiências e discutir possíveis planos de segurança. “Mostramos a elas como viver melhor física e mentalmente mesmo com esses problemas”, diz Fatima, da equipe de aconselhamento.

Isso, por si só, pode deixar as mulheres mais seguras, de acordo com Mitu. A depressão e a ansiedade as colocam em maior risco de violência porque “podem fazer com que elas se afastem de suas vidas diárias, que parem de funcionar, levando a possíveis problemas em suas vidas familiares”.

Um aconselhamento que ajuda as mulheres a se reconciliarem com suas famílias não só as deixa mais seguras, como também é melhor para seus filhos.

“Infelizmente, quando as mães estão estressadas em decorrência da violência dos parceiros, muitas vezes elas se tornam abusivas com os filhos”, explica Cindy. “Estudos revelam que crescer em um ambiente violento é devastador para o desenvolvimento de uma criança: ela não consegue se concentrar na escola, se torna agressiva e sofre como se estivesse sendo vítima direta dos abusos. Então, essas crianças se tornam mais uma geração de uma família traumatizada e correm maior risco de repetir e perpetuar esses padrões”.

“Era muito doloroso”, diz Saliha, pensando em como seu marido a espancava em frente à filha pequena. “Eu só pensava: ‘Ela é muito nova. Quando ela crescer, o que vai ter aprendido? Ela vai crescer na mesma situação que eu enfrentei na minha infância? ’ Não quero que minha menina cresça em meio a essa atmosfera. ”.

A equipe em Kamrangirchar espera ampliar o serviço de aconselhamento e passar a oferecer sessões especificamente voltadas para atender às necessidades de crianças que crescem em ambientes violentos. Enquanto isso, os profissionais continuam alcançando os grupos mais vulneráveis. Além do serviço de aconselhamento, a clínica oferece cuidados médicos para grávidas e novas mães – tendo como alvo, principalmente, as mulheres com menos de 25 anos de idade. Como mostram as figuras frágeis na sala de espera, muitas são mais novas que isso.

Enquanto as pacientes aguardam suas consultas, os conselheiros aproveitam as pacientes frequentes. Usando um conjunto laminado de imagens brilhantemente pintadas, Leah conversa com mulheres e meninas sobre casamento precoce, saúde mental e violência doméstica. Tímidas em um primeiro momento, elas vão se engajando, respondendo às perguntas feitas por Leah. Em suas consultas médicas, elas são questionadas sobre a situação em casa e são encaminhadas para o aconselhamento, se precisarem.  

Do início do ano até agora, mais de 600 mulheres que sofreram violência perpetrada pelo parceiro íntimo começaram a receber aconselhamento em Kamrangirchar. A equipe está trabalhando arduamente para educar a comunidade e disseminar as informações sobre os serviços disponíveis. Payel, responsável do projeto pela informação, comunicação e educação, considera mudar a atitude das pessoas o seu maior desafio.

“Muitas mulheres pensam que merecem isso porque seus agressores fazem com que elas se sintam assim. Se eu bato em você, é por sua. É culpa sua eu ter me comportado assim. Romper essa visão é muito difícil. Acreditamos que vai levar algum tempo até remover esses pensamentos. Mas estamos tentando usar novas estratégias a fim de romper com isso e estamos esperançosos de que, um dia, conseguiremos isso.”.Saliha também está esperançosa.

“Em Bangladesh, nós, mulheres ou esposas, como nos chamam, vamos para onde? Não podemos voltar para nossos pais, então temos que tolerar essa tortura. Minha opinião é completamente diferente. Mulheres têm o poder de reagir. Por que elas teriam de tolerar a tirania e a opressão de seus maridos? Por que elas não conseguem sair dessa situação?
É muito importante mudar a mentalidade das mulheres. Elas precisam dar um passo à frente e mostrar seu poder aos homens”.
 

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