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Aumento da violência atrapalha ajuda humanitária em Darfur

15/09/2006
Em entrevista, Bruno Jochum, diretor de operações de MSF Suíça, e o Dr. Denis Lemasson, chefe de programa de MSF França falam sobre a operação no Sudão

Em 2004, o conflito em Darfur fez com que dois milhões de pessoas deixassem suas casas em busca de refúgio nas cidades controladas pelo Exército regular. Vinte mil pessoas migraram para o Chade, país vizinho.

Hoje, com a intensificação do conflito, há uma redução considerável da assistência humanitária, que é vital para a população: as famílias que vivem nas zonas de combate não recebem qualquer tipo de ajuda e estão em perigo imediato. Além disso, a falta de segurança, problema presente em todo Darfur, ameaça a ajuda oferecida às populações que estão aglomeradas nos acampamentos, mas também para os residentes, os nômades ou os que vivem na zona rebelde.

O crescente aumento dos problemas de segurança em Darfur afetam as operações de ajuda em MSF?

Bruno Jochum : Estamos chegando ao limite de nossa assistência: nós não temos acesso a populações que são diretamente afetadas pelo conflito. Nas áreas onde atuamos, a crescente falta de segurança leva à diminuição e interrupções de nossas atividades, além de colocar a vida das famílias de deslocados internos em grande perigo.

Falando globalmente, nós enfrentamos hoje uma significante redução da ajuda destinada aos deslocados internos em Darfur, causada por várias razões, uma delas é a falta de segurança. Ao mesmo tempo, hoje é muito claro que as populações que sofrem diretamente com a retomada do conflito não têm nenhuma assistência. Qualquer avaliação independente sobre a necessidade das pessoas, especialmente feridos de guerra, é impossível. O aumento do nível de insegurança afeta a população, assim como os trabalhadores humanitários, e restringe muito nosso espaço de trabalho.

Nos últimos dois meses, a falta de segurança em estradas e a proliferação de ataques com diferentes níveis de violência (12 trabalhadores humanitários foram mortos desde maio de 2006) nos fazem refletir sobre a ajuda oferecida a essas populações sobreviventes, que são totalmente dependentes. Hoje, a sobrevivência das populações em locais onde a assistência humanitária ainda era possível está ameaçada em várias áreas de Darfur. Devido à falta de segurança, algumas de nossas operações no campo foram temporariamente suspensas, ou tiveram o número de integrantes da equipe reduzido. Outra conseqüência é que as todas nossas ações com clínicas móveis, voltadas especificamente para populações nômades, tiveram de ser suspensas.

Quais são as conseqüências para as populações?

Denis Lemasson : A diminuição do espaço de ajuda humanitária trouxe conseqüências imediatas para nossos pacientes, especialmente para os que precisam de atendimento cirúrgico significante. Não podemos mais levar essas pessoas para unidades médicas adequadas, porque a falta de segurança torna as estradas inacessíveis. Alguns pacientes morrem porque não puderam ser enviados para um hospital.

A saúde dos deslocados internos de Darfur, que vivem em locais onde ainda é possível chegar ajuda, continua aceitável apenas porque o sistema humanitário conseguiu dar respostas eficazes para suas necessidades nos últimos dois anos. Essas famílias ficam totalmente dependentes, uma vez que moram em acampamentos que se tornaram prisões a céu aberto, e estão desprovidos de todos os meios de auto-suficiência para sobrevivência. Qualquer diminuição da ajuda vai ter conseqüências diretas em sua saúde. Nossas equipes já testemunharam esse tipo de situação em Mornay, onde a população enfrenta uma epidemia de cólera.

No entanto, é a crescente falta de segurança que traz as mais trágicas conseqüências. No dia 14 de setembro, por exemplo, a deterioração da situação na área de Jebel Marra fez com que nossa equipe deixasse o vilarejo de Kutrum, onde 110 casos de cólera foram registrados. Se a epidemia se espalhar, as pessoas doentes não terão chance de cura. Para essas populações, agora sem assistência, um desastre médico é possível.

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