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Atendimento psicossocial ajuda moradores do Complexo do Alemão a lidarem com violência

22/09/2008
Responsável pela implementação do programa, a psicóloga Milena Osório fala sobre desafios de ajudar a população a ter melhor qualidade de vida

Localizado na Zona Oeste do Rio de Janeiro, o Complexo do Alemão é formado por 13 comunidades carentes marcadas pela violência e por condições de vida precária. Episódios violentos freqüentes deixaram a população encurralada, com pouco acesso a cuidados de saúde e vivendo em um ambiente de medo e tensão.

Desde de outubro de 2007, Médicos Sem Fronteiras oferece um serviço de atendimento psicossocial para ajudar a população a lidar com problemas desencadeados pela violência, como ansiedade e depressão. Mais de 1,3 mil consultas já foram realizadas para atender pacientes de todas as idades, em sua maioria crianças e adolescentes. Abaixo, a psicóloga colombiana Milena Osório, responsável pela implementação do programa no Brasil e que trabalha com MSF há mais de dez anos, fala sobre o projeto.

Qual a importância do atendimento psicossocial em um projeto como o do Complexo do Alemão?
Milena Osório - O componente de saúde mental é provavelmente a parte do projeto que mais atende as necessidades da população. Claro que as necessidades médicas são muitas, mas o programa psicossocial é um espaço privado, confidencial e neutro no qual as pessoas conseguem ser ouvidas sem serem julgadas. É um lugar onde podem sentar e discutir com os psicólogos, que vão ajudá-las a potencializar os recurso que têm para lidar com essa situação de tensão. Isso realmente é algo muito novo para os moradores da comunidade, porque as pessoas vivem com um sentimento de desconfiança. Elas têm que ter cuidado sobre o que falam e com quem falam. Falar com uma outra pessoa sobre um evento violento que elas presenciaram poder fazer com que elas sejam interpretadas de maneira errada, como se tivessem feito uma denúncia, por exemplo, e isso pode trazer conseqüências para a segurança física da pessoa. Muitas vezes não querem falar com os familiares, para não preocupá-los. É muito difícil.

Na sua opinião, qual é a necessidade mais urgente?
Milena – Aqui há um círculo de silêncio, que eles têm que manter muitas vezes para sobreviver. É um silêncio muito opressor. Isso precisava ser rompido. Era muito importante dar a essas pessoas a oportunidade de exprimir coisas que elas guardavam dentro delas. Há também o problema das crianças, que é muito grande. A maioria dos moradores queria apoio para as crianças, devido a dificuldades na escola, problemas de comportamento, medo e de incontinência urinária.

Como é feito o atendimento?
Milena – Contamos com uma equipe de dois psicólogos, que trabalham com entre cinco a 15 sessões, com alguma flexibilidade. É uma terapia breve, muito objetiva, porque MSF não quer oferecer um apoio que faça com que as pessoas fiquem dependentes. A meta é fazer com que as pessoas aprendam a viver melhor com os problemas que têm porque elas vão enfrentar de novo as mesmas dificuldades. É um trabalho muito diferente do que é feito quando o paciente é exposto a uma única experiência traumática na vida. Se você viveu uma experiência ruim e vive em um lugar que que te faz lembrar diariamente dessa experiência, é muito difícil. Precisamos fazer um trabalho que ajude as pessoas a encontrarem alguma solução, alguma alternativa.

Há algum tipo de encaminhamento para outras estruturas de saúde, como ocorre nos casos médicos?
Milena - Se vemos que a pessoa precisaria de um acompanhamento mais longo, a gente encaminha. Se é um adolescente, encaminhamos para organizações parceiras que têm atividades como capoeira ou grafite. Mas depende muito do caso porque a rede ambulatorial de saúde primária brasileira não tem como atender a demanda. Infelizmente não temos lugares para encaminhar muitos de nossos pacientes. Temos contado basicamente com algumas PAMs (Posto de Atendimento Médico), mas estão sempre com as vagas cheias.

Esse componente psicossocial já estava previsto no programa ou surgiu depois, conforme o projeto foi sendo implementado?
Milena - Esse projeto foi inspirado em outros já realizados por Médicos Sem Fronteiras em contextos de violência urbana, como no Haiti e na Colômbia, e por isso o componente de saúde mental já existia. Agora que tipo de apoio íriamos oferecer era uma questão aberta. Quando fizemos a missão exploratória, em 2007, começamos a fazer pesquisas e ver qual eram as principais necessidades, para elaborar uma abordagem adequada.

Como foi a implentar um serviço como esse em um ambiente tenso e de desconfiança?
Milena – Quando houve a missão exploratória, fui conhecendo as comunidades e entrevistando pessoas em todas elas. Perguntávamos se as pessoas gostariam de ter um serviço como esse e a resposta era sempre positiva. Nos primeiros meses de atendimento, tínhamos entre três a quatro pacientes por dia. As pessosa estavam um pouco testando nosso serviço. Hoje, já realizamos mais de 1,3 mil consultas.

Quais são os principais problemas encontrados num ambiente marcado pela violência?
Milena - A violência física, psicológica e social que os moradores enfrentam em uma comunidade carente varia desde um ferimento no meio de um confronto até a estigmatização, os preconceitos e outras formas de violência. Os problemas de ansiedade são muitos e podem ter um componente físico, como a hipertensão, crises de pânico, falta de ar, taquicardia, entre outros. É um nível muito alto. Há também muitos casos de depressão nas famílias que perderam alguma pessoa. Os lutos são muito mal gerencidados porque as pessoas não conseguiram falar, descarregar essa carga da morte de alguém, como isso aconteceu. Tudo isso gera lutos muito negativos. Há muita tristeza por ter perdido um filho, de não ter um futuro melhor, de sofrimento causado por maus-tratos.

Qual é a posição do projeto com relação ao testemunho (témoignage)?
Milena – A garantia de confidencialidade com relação ao que os pacientes contam é um fator importantíssimo para o sucesso do projeto. Houve um aumento do número de pacientes justamente porque eles sabem que prezamos essa confidencialidade. Sabemos que a questão do témoignage é importante e pensamos, no futuro, em utilizar alguns dos dados que temos, mas sempre mantendo a promessa de sigilo feita aos pacientes.

Você disse que muitos pacientes são crianças. Como é o trabalho com elas?
Milena – É um trabalho muito difícil porque nós precisamos também trabalhar com os pais, já que muitas vezes eles também têm medo e não sabem como lidar com isso e nem como ajudar as crianças. Tempos que sensibilizá-los sobre como a criança reage frente ao medo, a um barulho do qual não gostou. Essa também é uma das partes mais difíceis do trabalho.

Como o atendimento psicossocial se encaixa no programa médico?
Milena - Eles andam sempre juntos. Qualquer paciente médico, quando está sendo atendido, se apresenta alguma dificuldade emocional vai receber um atendimento de emergência psicológica. O médico chama os psicólgoos para dar um apoio a esses pacientes. Há uma segunda articulação, o encaminhamento da equipe médica para os psicólogos. Quando os pacientes passam pela triagem médica, muitas vezes os enfermeiros e técnicos de enfermagem percebem que o problema do paciente é mais psicológico do que médico e fazem um encaminhamento para o serviço psicossocial.

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