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Annas Alamudi, responsável pela logística da operação de retirada de 71 feridos da Líbia por barco, conta como foi a operação

04/04/2011
Embarcação chegou em Sfax, na Tunísia, após 13 horas de viagem

"A decisão de organizar uma remoção médica dos pacientes de Misrata, na Líbia - onde as instalações médicas estão sobrecarregadas devido à violência em curso - para a vizinha Tunísia foi tomada há poucos dias.  O hospital em Misrata havia sido fechado devido aos pesados bombardeios e as clínicas que continuam funcionando estão superlotadas, com pacientes gravemente feridos e poucos suprimentos médicos.

Rapidamente concluímos que a melhor maneira de fazer a remoção seria de barco.  Então, MSF fretou um ferry de passageiros que foi batizado de Pawl San. Passamos alguns dias preparando a embarcação, tiramos a maioria dos assentos, forramos o chão com lonas plásticas, colocamos colchões e penduramos equipos de soro em cordas e barbantes. Nossa idéia era de que seria uma ambulância básica, flutuando para chegar aos feridos o mais rapidamente possível.

Antes de podermos embarcar os pacientes, tivemos que descarregar o barco. Nós havíamos levado cerca de 6,5 toneladas de materiais médicos, incluindo 300 kits cirúrgicos - o suficiente para realizar mil operações cirúrgicas -, medicamentos, materiais de esterilização e fluidos intravenosos. Depois de descarregar o barco, começamos a carregar os pacientes nas macas do cais.
Havia pacientes com queimaduras, fraturas expostas e uma grande variedade de outros ferimentos.

A questão do tempo era essencial, porque precisávamos estar de volta em águas internacionais antes do pôr-do-sol. Nós embarcamos todos os pacientes e estávamos prontos para partir quando um novo grupo de pacientes chegou. Ainda bem que ainda estávamos lá, porque esse grupo era mais crítico. Um homem tinha uma perna amputada e ferimentos causados por armas de fogo; outro havia levado um tiro na cabeça. Dentre os 71 removidos, 11 estavam gravemente feridos, e três corriam risco de vida.

Quando conseguimos embarcar todos os pacientes, já não havia quase luz do sol. O capitão acabou tendo que sair de lá em disparada, pois realmente não queríamos navegar depois de escurecer. A jornada foi difícil, mas os médicos e as enfermeiras foram fantásticos. Tudo estava muito agitado, muitos pacientes estavam sofrendo de enjôos, e, às vezes, era muito difícil se manter de pé. Mas as enfermeiras estavam lá, engatinhando no meio dos pacientes, tentando atender todos, enquanto um dos médicos ajudava os pacientes a urinar em uma garrafa. Era tudo mais difícil enquanto tentávamos, ainda, administrar os equipos de soro.

Foram 13 longas horas até que aportarmos em Sfax, na Tunísia, às 5 da manhã de segunda-feira, e foi maravilhoso ver 20 ambulâncias a postos esperando os pacientes. Apesar das condições adversas, os pacientes com os quais consegui conversar estavam muito gratos de estar lá, não paravam de nos agradecer. Na minha opinião, foi uma operação bem-sucedida e fico feliz por termos sido capazes de ajudar. Havia pessoas doentes que precisavam sair do país, e nós fizemos isso. Nosso trabalho foi feito."

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