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Além da retórica: a necessidade de estratégias comunitárias para combater o HIV/Aids

19/11/2014
Para MSF, iniciativas devem ser pautadas pelas necessidades das pessoas que vivem com o vírus

O pedido da Unaids para que se preencham as lacunas no que diz respeito ao acesso a serviços voltados para HIV não será atendido a menos que a oferta de tratamento antirretroviral (Tarv) seja radicalmente remodelada, com base em abordagens voltadas para as comunidades que estejam adaptadas às realidades das pessoas que vivem com HIV, alerta a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), às vésperas do Dia Mundial de Luta contra a Aids (1º de dezembro).

A experiência em primeira mão de MSF e de outras organizações demonstrou que abordagens comunitárias que facilitam o acesso aos antirretrovirais (ARVs) e são menos custosas constituem estratégias essenciais para manter mais pessoas em tratamento para o HIV, o que contribui para a desaceleração da transmissão. Tais abordagens são endossadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Unaids, mas sua implementação em larga escala permanece atravancada pela dificuldade de aceitação de uma mudança de paradigma que empodere as comunidades como parceiras , ao invés de simplesmente recebedoras de serviços de saúde.

“A ampliação efetiva do tratamento para HIV não acontecerá se as coisas continuarem sendo feitas da mesma forma. Mas a retórica atual não incorpora totalmente estratégias eficientes, que se provaram efetivas há anos”, afirma o Dr. Eric Goemaere, referente para HIV/Aids de MSF.

Desde 2007, MSF e outras organizações foram pioneiras na implementação de uma ampla gama de estratégias comunitárias para aproximar o tratamento das casas das pessoas. A separação da necessidade de uma consulta clínica anual e do acesso ao refil de comprimidos diários diminui a quantidade de tempo e dinheiro necessária para se ter acesso a medicamentos, e demonstrou uma retenção de mais de 90% dos pacientes estáveis a cuidados oferecidos com base em diferentes modelos na África do Sul, Malauí, Moçambique, Zimbábue e Quênia. Pilotos em países da África Central e Ocidental, que estão atualmente atrasados em sua resposta ao HIV, como República Democrática do Congo e Guiné, apresentaram bons resultados no tratamento dos pacientes.

Mas as principais ferramentas regulatórias que contribuiriam para o funcionamento dessas soluções não são promovidas, apoiadas nem financiadas ativamente. Por exemplo, profissionais não médicos que trabalham com HIV/TB, normalmente, não são reconhecidos nem financiados, e as limitações regulatórias que estabelecem o suprimento de apenas um mês de refil de medicamentos por pessoa reduz enormemente os benefícios dessas estratégias para os indivíduos. Os governos permanecem tímidos no repasse do poder e das responsabilidades aos próprios pacientes sobre a gestão da sua própria condição crônica, limitando a possibilidade da distribuição de medicamentos, bem como os testes para HIV, nas comunidades.

“Modelos comunitários sugerem comunidades fortes, empoderadas e totalmente engajadas de pessoas vivendo com HIV e organizações da sociedade civil. No entanto, continuamos observando a redução dos financiamentos destinados a essas comunidades, enfraquecendo ainda mais o foco no paciente e o engajamento na lua contra o HIV. Esse é o elemento que falta na resposta atual”, conta Amanda Banda, coordenadora de advocacy para HIV de MSF.

Na África do Sul, o grupo ativista Treatment Action Campaign (TAC, na sigla em inglês) está enfrentando uma grave crise de financiamento, que ameaça seu fechamento, após 15 anos de existência. De acordo com a Unaids, 59% das ONGs que atuam com HIV ou com direitos humanos tiveram seus financiamentos reduzidos em 2012.

Modelos comunitários demandam flexibilidade dos sistemas de saúde e não há um modelo que se adapte a todos os sistemas. Pessoas vivendo com HIV deveriam ter a oportunidade de decidir como adaptar seu tratamento diário às suas vidas, para que o sistema de saúde e a organização dos serviços os ajudem, ao invés de prejudicá-los. MSF pede aos governos que adaptem sua resposta às necessidades e demandas de seus cidadãos, e que parceiros internacionais prestem suporte e financiem essas estratégias pró-ativamente.


Atualmente, MSF apoia o tratamento para HIV de 341.600 pessoas em 20 países. 71% das 35 milhões de pessoas HIV positivo vivem na África subsaariana.