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Afeganistão: "Minha irmã, eu vou cuidar de você"

01/10/2018
Mais de 100 mil bebês já nasceram na maternidade de MSF em Khost, feita por mulheres e para mulheres
Afeganistão: "Minha irmã, eu vou cuidar de você"

Foto: Aurelie Neyret/The Ink Link/MSF

A médica e obstetra belga Séverine Caluwaerts trabalhou nove vezes nos últimos seis anos na maternidade de Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Khost, leste do Afeganistão. Séverine presenciou o nascimento do primeiro e do 100.000° bebê na instalação, no começo deste ano. Ela lembra da manhã em que uma mulher foi levada ao hospital, inconsciente e com sangramento excessivo.

“Ela veio ao nosso hospital depois de dar à luz seu 11º filho em casa. Ela começou a sangrar durante a noite e a placenta ainda estava dentro dela. Ela deveria ter recebido cuidados horas antes, quando o sangramento começou, mas é muito perigoso viajar à noite. A família não teve escolha a não ser esperar por mais algumas horas até o primeiro raio de sol, quando puderam ir ao hospital.

Enquanto a levavam para dentro, pálida e completamente sem fôlego, dou uma olhada nela e penso já estar morta. Mas, ainda assim, temos que tentar salvá-la.

Nós a levamos para a sala de estabilização. Eu não conseguia sentir o pulso e a pressão arterial era inexistente. Nós tentamos ressuscitá-la. Eu pretendia parar em 20 minutos, não adiantava continuar. Ela já não estava mais entre nós.
'Foi tão triste', penso comigo mesmo, 'ela vai morrer nas minhas mãos, deixando 11 crianças’. Quando uma mãe morre, não é apenas a vida dela, mas a vida de seus filhos e a de seu marido que também são destruídas. Todo mundo é afetado. Uma mãe, uma mulher, tem um impacto enorme na família.

Então, de repente, um pulso muito fraco. Nós realizamos uma transfusão de sangue, depois mais uma, outra, e novamente outra - quatro bolsas de sangue foram usadas. A pressão sanguínea começou a subir e nós a levamos às pressas para o centro cirúrgico. Ela sangrava muito. Não tínhamos escolha a não ser remover o útero.

Milagrosamente, ela começou a melhorar. O quadro dela se estabilizou, o sangramento diminuiu e depois parou. No final, usamos 10 bolsas de sangue só para mantê-la viva.

Ela foi para casa cinco dias depois e eu ainda não consigo acreditar. Nunca pensei que ela fosse sobreviver. Mas ela sobreviveu, ela é uma guerreira, como tantas mulheres que conheci no Afeganistão.

A história dessa mulher não é incomum em Khost. O extraordinário acontece todos os dias na maternidade de MSF. Voltei a trabalhar no hospital nove vezes desde que inauguramos a instalação em 2012 e ela ocupa um lugar muito especial no meu coração.

Eu vi o primeiro bebê nascer e agora 2 mil mulheres vêm aqui todos os meses para dar à luz. No início deste ano, celebramos 100 mil bebês nascidos aqui. É a maternidade mais movimentada de MSF no mundo.”

Um hospital para mulheres e por mulheres

“O Afeganistão continua sendo um dos lugares mais perigosos do mundo para dar à luz. Quando MSF chegou pela primeira vez à província de Khost, descobrimos que muitas mulheres e bebês estavam morrendo desnecessariamente, simplesmente porque não tinham acesso aos cuidados médicos de que precisavam. Em 2012, houve uma grave falta de profissionais qualificados, e mães e bebês morreram de condições evitáveis e tratáveis.

Quando inauguramos, realizávamos 15 partos por dia. O número rapidamente subiu para 30, depois para 50. E, agora, nos dias mais movimentados, 100 mulheres dão à luz em nosso hospital.

Mas MSF oferece mais do que apenas cuidados gratuitos e de qualidade a mulheres grávidas e bebês em Khost. Este é um hospital de mulheres e para mulheres. Quase toda nossa equipe é do sexo feminino. Isso é incrivelmente importante nessa área do Afeganistão: há uma separação estrita entre os sexos que deve ser respeitada, especialmente em uma maternidade.

A partir do momento em que as pacientes entram na instalação, queremos que elas se sintam à vontade. Este é um lugar onde as famílias sabem que suas esposas, mães, irmãs e filhas estarão seguras. Nossas colegas afegãs se sentem responsáveis pelas pacientes e as tratam como se fossem da família. Elas dizem coisas como: ‘Ei, minha irmã, eu vou cuidar de você.’ E, muitas vezes, elas são realmente da família, pois nossa equipe incentiva suas irmãs e outros parentes a também virem ao hospital.

Há uma sensação de segurança dentro da enfermaria: as mulheres retiram suas burcas, mostram seus cabelos e amamentam seus bebês. Isso ocorre porque não há homens na enfermaria: são mulheres cuidando de mulheres.”

Se você planta sementes, você colherá flores

“MSF também é uma das maiores empregadoras de mulheres em Khost: empregamos cerca de 430 pessoas, a maioria delas mulheres, muitas das quais nunca tiveram um emprego antes. Nós contratamos profissionais de limpeza, enfermeiras, obstetrizes, babás e médicas.

Muitas das nossas funcionárias têm famílias e são frequentemente elas as principais cuidadoras. Para que elas não tenham que parar de trabalhar, abrimos uma creche no hospital com serviços gratuitos. É ótimo para nós porque continuamos com nossas funcionárias valiosas, mas também oferecemos às mulheres a oportunidade de continuar trabalhando, mesmo quando têm filhos pequenos para cuidar.

Muitas de nossas funcionárias estão ansiosas para adquirir novos conhecimentos e obter qualificações: as obstetrizes se tornam médicas, as recepcionistas se tornam parteiras, as profissionais de limpeza se tornam recepcionistas. É por isso que é maravilhoso continuar voltando para cá: vejo as médicas a quem ensinei um ano antes a realizar cesarianas repetindo o procedimento sozinhas e com confiança, sem precisar da minha ajuda. Se você planta sementes, você colherá flores.”

Nós não podemos salvar todo mundo

“Apesar dos nossos melhores esforços, não podemos salvar a todos. Essa é uma das coisas mais difíceis de se trabalhar em Khost. Durante meu tempo lá, eu testemunhei a morte de três mulheres em trabalho de parto ou com complicações relacionadas ao parto.

Uma mulher, de quem lembrarei até a morte, veio ao hospital em maio deste ano. Lembro-me claramente da data porque foi no dia em que minha avó morreu.

Às 21h30 recebi um telefonema de uma das minhas colegas afegãs que trabalhava no hospital no turno da noite. Uma gestante havia sido levada à instalação e sofria do que eles pensavam ser um ataque grave de asma. Ela estava grávida de sete ou oito meses e esperava trigêmeos.

Quando cheguei, ela estava com insuficiência cardíaca. Seu coração, não seus pulmões, estava quase parando. O órgão não bombeava oxigênio suficiente pelo sangue. No momento em que a vi, ela estava ofegante.

Nós lhe demos remédios para o coração e ligamos para o anestesista. Nós precisávamos realizar a cesariana antes de começar a reanimação cardiorrespiratória. Mas era muito perigoso para ela ir ao centro cirúrgico - ela poderia morrer a qualquer momento na mesa de operações. Foi uma escolha terrível, era como escolher entre a cólera e a peste.

Decidimos estabilizá-la e tentar levá-la novamente ao centro cirúrgico em uma hora, caso a família concordasse em realizar uma cesariana. Eu saí para discutir as opções com o marido e a sogra.

Enquanto eu estava explicando a situação, ela entrou em parada cardíaca. Com os bebês ainda vivos, precisávamos operar o mais rápido possível, mas não havia tempo para levá-la ao centro cirúrgico.

Os trigêmeos nasceram, mas a mãe morreu na maca, ainda na sala de parto. Nós tentamos diversas vezes salvar a todos.

Os dois primeiros bebês viveram por meia hora. Eu orei para que o terceiro sobrevivesse, para que algo positivo restasse dessa situação miserável. Mas ele morreu 36 horas depois.

Jamais esquecerei o momento em que trouxemos o marido para ver sua esposa. Ele desmoronou em lágrimas sobre o corpo dela. Todos ao meu redor estavam chorando e também escorriam lágrimas dos meus olhos.

Mas felizmente esses momentos são raros. A grande maioria das mulheres que nos procuram saem saudáveis da instalação e com seus lindos filhos e filhas em seus braços.”

Esperanças para o futuro

“Trabalhar em Khost mudou minha vida. Foi um verdadeiro privilégio ver os belos aspectos da cultura afegã. Eu conheci mulheres maravilhosas e fortes que estão tentando fazer a diferença em suas comunidades. Todos nós temos tantas coisas em comum, mais do que todas as nossas diferenças. Eu senti isso mais do que nunca no Afeganistão.

Estou muito orgulhosa do trabalho que MSF está fazendo em Khost: o hospital está oferecendo uma esperança real à comunidade, e nosso trabalho em todo o país está tendo um impacto na redução do número de mortes durante o parto.
Talvez seja por isso que tantas mulheres dão o nome de Hila a suas filhas. Hila significa "esperança"; esperança de um futuro melhor para o Afeganistão, para as crianças e para as mulheres. Por elas terem esperança, também espero que um dia as coisas melhorem. Ainda não, mas um dia. Eu tenho esperança."
 

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