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Acapulco, México: “A população é exposta à violência diariamente”

31/07/2015
Em entrevista, María Simón, coordenadora do projeto de MSF em Acapulco, fala sobre situação na região

Foto: Analia Lorenzo/MSF

Em Acapulco, não há um conflito armado tradicional. No entanto, a cidade na costa do estado mexicano de Guerrero é considerada a terceira mais violenta do mundo – atrás de San Pedro Sula, em Honduras, e Caracas, na Venezuela. Nos primeiros seis meses de 2015, 524 mortes violentas, resultantes de homicídios, foram registradas na cidade, e essa é apenas a ponta do iceberg. Altos níveis de violência afetam a maioria de seus habitantes, incluindo aqueles do distrito de Colonia Jardín onde, em 2014, a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) inaugurou um projeto em parceria com o Distrito de Saúde 07, com o  Departamento Municipal de Saúde de Acapulco e o escritório de Acapulco da Pastoral Social, para oferecer serviços psicológicos e cuidados para sobreviventes de violência sexual. María Simón, coordenadora do projeto, acaba de retornar de Acapulco.

Você pode nos falar sobre a situação em Acapulco?
Acapulco, conhecida como destino turístico nos anos 70 e 80, é atualmente afetada pela dinâmica brutal dos confrontos entre diferentes grupos do crime organizado que duelam pelo controle da cidade. A escalada da violência teve consequências humanitárias devastadoras para a população – assassinatos, pessoas feridas, desaparecimentos forçados, sequestros, extorsão, recrutamento forçado de menores, ameaças sistemáticas à população, deslocamentos forçados e uma ruptura clara da estrutura social.

Como você descreveria a população?
As pessoas que vivem nas “colônias” periféricas (distritos) estão expostas à dinâmica relacionada com a violência diariamente. Desde a eclosão da violência na cidade, elas tiveram de adaptar seus hábitos em níveis pessoal, familiar e comunitário.

Os 60 mil habitantes do distrito de Colonia Jardín, onde MSF atua, sofrem um elevado nível de exposição a eventos potencialmente traumáticos do passado e recentes. O sofrimento vivenciado por familiares de vítimas de assassinato e de pessoas desaparecidas, de vítimas de sequestro e de extorsão e de pessoas deslocadas por conta de ameaças e violência tem enorme impacto em sua saúde mental.

A violência também causa o colapso da estrutura social, com o aumento das taxas de evasão escolar, disfunção familiar e violência doméstica, desemprego, suicídio e uma falta de oportunidades generalizada.

Como são os cuidados médicos oferecidos a essas pessoas?
Na área de saúde mental, o projeto conta com seis pontos de cuidados localizados em centros de saúde e em uma igreja paroquial, onde serviços psicoterapêuticos são oferecidos a indivíduos, famílias e grupos. Nossos psicólogos observam diariamente que as consequências da violência são devastadoras para essa população – sintomas relacionados com ansiedade, depressão e distúrbios pós-traumáticos são frequentes. Nós oferecemos cuidados a pessoas que, tendo sofrido elas mesmas ou testemunhado eventos extremamente violentos, têm graves dificuldades para seguirem com suas vidas. Elas se isolam do seu entorno, revivem o que aconteceu diversas vezes, têm dificuldades de pensar claramente, além de sofrerem distúrbios alimentares e terem dificuldade para dormir.

Quanto à violência sexual, os cuidados oferecidos a sobreviventes é gravemente dficiente, por não garantir que as vítimas recebam cuidados médicos de emergência adequados. MSF oferece cuidados integrais para sobreviventes e, para isso, conta com um médico que trabalha para fortalecer a capacidade do sistema de saúde público e seu pessoal. Esse fortalecimento é feito por meio de treinamento sobre a legislação mexicana da região, que garante cuidados médicos integrais e confidenciais a sobreviventes.

Qual o objetivo dessa intervenção?
Reduzir o sofrimento de e o impacto psicológico sobre essas vítimas da violência, por meio da integração de serviços de saúde mental aos cuidados primários oferecidos em centros de saúde. Também queremos garantir que vítimas de violência sexual tenham acesso a cuidados integrais de alta qualidade.

Como chegamos a distritos onde o nível de insegurança é tão alto e qual a estratégia para chegar às pessoas?
Em 2013, conduzimos um projeto de dengue, envolvendo fumigação e atividades de sensibilização na área de atuação, o distrito de Colonia Jardín, em Acapulco. Por meio dessa ação, pudemos aprender sobre a realidade dessa população. O componente comunitário foi essencial tanto para o projeto de dengue quanto para este atual. Desde 2014, temos trabalhando com uma equipe local composta de residentes de Colonia Jardín. Eles explicam à população quem somos e quais atividades desenvolvemos, e nós oferecemos conversas psicossociais em diferentes áreas da comunidade.

Promover a conscientização acerca da saúde mental e de questões relacionadas com a violência sexual entre a população é essencial para romper mitos e barreiras e fazer com que os habitantes comecem, gradualmente, a ir às consultas de serviços oferecidos pelo projeto. Graças a essa estratégia, muitas pessoas gravemente afetadas pela violência estão aprendendo sobre a existência dos nossos serviços e sobre a possibilidade de ir até eles buscar ajuda.

Cerca de metade dos pacientes que frequentam as consultas são crianças que sofrem com as consequências da violência. Estamos tratando, por exemplo, crianças que testemunharam o assassinato de parentes. Em casos desse tipo, distúrbios relacionados com o desenvolvimento são comuns, como problemas no controle da urina ou desordens linguísticas ou comportamentais. Na ausência de cuidados adequados, os problemas tendem a piorar e podem ter um impacto irreversível nas vidas dessas crianças.

Quais os desafios que enfrentamos?
Os desafios são muitos, mas, sem dúvida, os principais estão relacionados com a conclusão de uma estratégia baseada na comunidade baseada na aceitação, que nos permita continuar a nos aproximarmos da população, e com o desenvolvimento de estratégias de segurança que sejam adaptáveis a contextos de violência urbana, que não podem ser comparados com aqueles com os quais MSF normalmente se depara em cenários de conflitos armados.

MSF mantém projetos no México desde 1985. Durante o ano de 2014, a organização tratou cerca de 21.200 pessoas em seus diferentes projetos e ofereceu 2 mil consultas de saúde mental.