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2006: O ano revisto

02/01/2007
Médicos Sem Fronteiras divulga relatório sobre atividades desenvolvidas no ano que passou e discute estratégia para 2007

Em julho de 2006, em meio à intensificação do conflito armado entre as Forças de Defesa Israelense (IDF) e os guerrilheiros libaneses do Hezbollah, MSF lançou uma operação de emergência para atender às necessidades humanitárias médicas. A assistência foi oferecida do lado israelense que lidava com as mortes de civis e feridos pelos ataques de foguetes. No entanto, a natureza do conflito fez com que houvesse mais necessidade e menos assistência disponível no Líbano.

Com uma grande parte dos bombardeios provocando o fechamento das principais estradas e pontes em todo o país, o transporte era difícil e perigoso, obrigando MSF a fazer pronunciamentos públicos para lembrar que aos envolvidos no conflito que eles tinham que garantir que a ajuda chegasse aos civis isolados pelos confrontos.

Apesar desse pedido contundente, MSF manteve sua neutralidade ao se abster de comentar decisões militares específicas de ambos os lados. Essa abordagem independente e imparcial do oferecimento de ajuda permitiu que nos locomovêssemos e oferecêssemos assistência em um contexto no qual quase todo tido de locomoção era evitado.

As dificuldades de chegar até as pessoas em necessidade no Líbano ilustram um crescente problema de acesso que MSF enfrentou no ano que passou. Apesar da relativa simplicidade de nossa missão – oferecer assistência médica humanitária imparcial para os que precisam e evitar a perda de vidas – nossa capacidade de ter acesso aos pacientes raramente pode ser prevista. A maioria das pessoas para as quais levamos ajuda está atrelada a contextos políticos e sociais muito complexos, que criam barreiras significantes para o oferecimento de ajuda.

Preocupação com a segurança

No momento em que escrevo, organizações humanitárias estão reduzindo suas atividades ou saindo de Darfur, no Sudão. Mais de um milhão de pessoas têm sobrevivido sob parâmetros "adequados" de saúde por mais de dois anos nos acampamentos do Sudão e no Chade, mascarando a total falta de esperança e desespero que prevalecem nessas ilhas de assistência. Esses são os com sorte, que conseguiram manter contato com a cada vez mais escassa assistência disponível.

Fora dos acampamentos, especialmente no Oeste e Norte deDarfur, a violência contra civis continua, somando-se ao significante aumento da violência contra trabalhadores humanitários, incluindo a equipe de MSF, fazendo com que viagens por terra e assistência logística sejam quase impossíveis.

MSF trabalha em Darfur desde 2004 e pretende ficar enquanto pudermos ser eficientes, apesar de a situação estar se tornando cada vez mais precária.

Sérios incidentes de segurança nos forçaram a reduzir nossas atividades na região de Jebel Marra, apesar do surto de cólera, e não podemos mais enviar material cirúrgico para emergência pelas estradas. Essa redução na habilidade de assistência médica básica deve ter um impacto crítico em uma situação sanitária já frágil.

O mesmo ocorreu no Sri Lanka, país no qual trabalhamos por muitos anos durante o conflito, onde 17 trabalhadores humanitários da ONG Ação Contra a Fome foram executados em julho de 2006.

Os responsáveis por esse terrível crime não foram identificados. Com ataques como esse claramente voltados contra trabalhadores humanitários, há uma grande preocupação com o futuro da assistência humanitária nesse país. MSF está lutando para ter acesso a áreas envolvidas nessa brutal guerra civil onde não existe ajuda humanitária.

Uma mistura nada saudável

No ano passado, aumentou a descrença nas organizações humanitárias por parte das autoridades capazes de nos garantir acesso. A desconfiança nem sempre é injustificada.

A prática de algumas organizações não-governamentais (ONGs), contratos privados e muitos governos fazendo trabalho "humanitário" com um objetivo político específico causam confusão e reduzem a aceitação da natureza universal da assistência humanitária. Isso contribui para uma situação na qual grupos opostos a qualquer tipo de objetivo político usam essa confusão como desculpa para atacar trabalhadores humanitários.

Essa crescente falta de credibilidade é apenas um dos desafios atuais relacionados à assistência emergencial discutidos em um artigo escrito por Marilyn McHarg para o 'Registro de Atividades 2006' de Médicos Sem Fronteiras, que ressalta nossa necessidade de se adaptar e antecipar não apenas as mudanças no cenário humanitário, mas também a dinâmica social, política e até o meio ambiente geográfico para identificar aonde e como podemos oferecer de maneira eficaz o melhor tipo de assistência.

Abordando o problema do acesso, ela propõe o desenvolvimento de novas estratégias para que possamos continuar a desenvolver nosso trabalho. No momento que esse documento é divulgado à imprensa, estamos lançando um novo projeto para oferecer cirurgia de reconstituição para os feridos iraquianos na Jordânia e estamos trabalhando com grupos médicos iraquianos para ajudá-los a responder aos efeitos da violência diária naquele país.

Coordenação: não é uma panacéia

Com um número cada vez maior de organizações humanitárias, existe hoje mais tentativas de coordenar a assistência humanitária para controlar e direcionar essa ajuda em uma certa direção.

A coordenação superficial pode ter um resultado positivo, permitindo que várias agências usem seus esforços para uma resposta compreensiva. No entanto, a "falta de coordenação" é atualmente usada como desculpa para cada falha da assistência humanitária. Em alguns casos, não se trata de uma falha na ajuda, mas uma falta de acesso deliberado e político às populações em necessidade.

As complicações e perigos em potencial que envolvem a coordenação tomadas como uma resposta única para as falhas de assistência no passado são discutidas nesse documento por Fabien Dubuet e Emmanuel Tronc, que ressaltam a posição de MSF, enquanto a ONU implementa mudanças em seu sistema de avaliação de ajuda e de operação.

MSF mantém cautela ao separar-se desses processos, confiando na independência de avaliação e ação para responder a necessidades específicas de populações específica, em vez de contribuir para uma estrutura global de origens e eficácia dúbias.

Acesso independente e imparcial não é apenas um princípio, mas também uma abordagem prática que nos permite ter acesso seguro e rápido às pessoas em necessidade.

Respostas eficazes

Apesar de nossa preocupação com essas questões, nossos registros do ano que passou indicam um grande volume de assistência médica para indivíduos e famílias em todo o mundo: isso inclui a realização de mais cirurgias que salvaram vidas, mais tratamento de malária e o oferecimento de assistência mental para mais pessoas do que antes.

Em 2005, MSF ofereceu assistência médica humanitária para mais de 10 milhões de pessoas, incluindo assistência em grandes respostas emergenciais depois do terremoto na Ásia, em outubro, e o tratamento de 26 mil pessoas com cólera em Angola em 2006, o maior surto desta doença naquele país em uma década.

Mas esses números pouco significam sem a reflexão sobre a relevância da assistência e a qualidade de nosso trabalho: cada paciente é muito mais do que estatística e nós devemos ter certeza de que se tratamos alguém com malária, por exemplo, ele recebe uma consulta humana, diagnóstico e tratamento corretos.

Particularmente quando tempos acesso a ferramentas logísticas e médicas apropriadas em terreno, podemos adotar novos métodos de tratamento para oferecer tratamento relevante e de qualidade.

Uma nova abordagem para o velho problema de tratar crianças mal-nutridas, centros móveis de alimentação e a disponibilidade de um produto de reabilitação nutricional portátil e eficaz ajudou MSF a realizar sua maior e mais bem sucedida operação contra desnutrição infantil em Níger em 2005. Ao todo, 63 mil crianças desnutridas passaram pelo programa, no qual foi registrado um recorde de cura.

Dr. Milton Tectonidis explica essa intervenção e sua importância em um ensaio nesse documento – uma operação que nos permitiu mostrar que a morte por desnutrição não é necessariamente inevitável e que cada vez mais pode ser comparada à morte por negligência.

Da mesma maneira, a medida que continuamos a oferecer um programa completo de prevenção e tratamento de HIV/Aids às pessoas e comunidades de 32 países, nossa estratégia em desenvolvimento é descentralizar a ajuda e aumentar o número de locais onde o tratamento é disponibilizado – uma abordagem descrita por nossa equipe em Thyolo, Malauí.

O tamanho da ação que realmente é necessária, no entanto, continua limitado pela falta de recursos humanos e pelo estado do sistema de saúde em vários países. É utópico acreditar que esses problemas vão ser solucionados de maneira satisfatória que permita o tratamento de todos com HIV/Aids.

Uma resposta eficiente a essa epidemia tem como obstáculo a falta de medicamentos, diagnósticos e ferramentas de monitoração especialmente desenvolvidas para os países pobres, que são obrigados a sobreviver com os detritos de pesquisas voltadas para o Ocidente. Ferramentas mais apropriadas são necessárias com urgência para combater essa crise, permitindo tratar mais pessoas apesar da falta de recursos humanos e da crise dos sistemas de saúde.

Enquanto nos orgulhamos dos resultados de nossas intervenções em 2005/2006, nós também reconhecemos que MSF só pode oferecer soluções imediatas ou a curto prazo. Devemos deixar claro que essas melhoras modestas que pudemos realizar não devem ser vistas como uma oportunidade para que governos e organizações internacionais abdiquem de suas responsabilidades ou como álibi para a falta de ação política.

Dando testemunhos e aumentando o conhecimento público sobre os negligenciados é como evitamos que o problema seja esquecido. Este ano, nós incluímos no documento uma seleção de fotos de pessoas da República Democrática do Congo – onde a necessidade humana tem sido largamente ignorada pela comunidade internacional.

Autocrítica é um elemento essencial de MSF e as 19 seções de MSF passaram por um processo interno no ano que passou com o objetivo de melhorar nossas operações e estrutura administrativa. O resultado disso é o compromisso de manter a transparência de nossas ações e aumentar de maneira concreta a prestação de contas a quem atendemos e aos doadores, que generosamente apóiam nosso trabalho, pois é a confiança dos doadores individuais que nos permite agir rapidamente e independente nas repostas às necessidades humanas.

Nós vemos essa prestação de contas como uma ferramenta em potencial para refletir abertamente sobre nossas operações e para melhorá-las de maneira significante, à medida que enfrentamos novos desafios e obstáculos. MSF vai continuar a procurar novas maneiras de contornar quaisquer barreiras que possam surgir, logísticas, de segurança ou política de forma a continuar a ajudar os que estão sendo negligenciados – baseado em nossa identidade e nossas sérias intenções de levar assistência médica de qualidade para pessoas que não as teriam de outra maneira.

Rowan Gillies, M.B.B.S.
Presidente do Conselho Internacional de MSF
Marine Buissonnière
Secretário-Geral de MSF