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2005: retrospectiva do ano

06/02/2006
Neste artigo, Rowan Gilles, Presidente do Conselho Internacional de MSF faz um balanço de 2005, ano que teve um início trágico com as tsunamis no Sul da Ásia, terminou com o terremoto na Caxemira e foi marcado por inúmeras outras crises humanitárias

Por Rowan Gilles, Presidente do Conselho Internacional de MSF

No dia 26 de dezembro de 2004, logo após as tsunamis terem devastado o Sul da Ásia deixando mais de 300 mil mortos e milhares de feridos e desabrigados, mais de 200 profissionais estrangeiros de MSF e centenas de profissionais locais correram para as áreas mais afetadas, especialmente a Indonésia e o Sri Lanka. Em 72 horas, nossas primeiras equipes começaram a trabalhar em conjunto com governos nacionais e regionais para oferecer ajuda emergencial às pessoas atingidas pela tragédia.

A resposta de MSF incluiu a oferta de profissionais e de materiais de saúde para estruturas de saúde já existentes, clínicas móveis para lugares onde a assistência não estava disponível, a montagem de sistemas de água e saneamento nos locais onde estavam os desabrigados; a distribuição de produtos essenciais de ajuda humanitária, e, uma vez que as necessidades iniciais haviam sido atendidas, a oferta de assistência psicossocial para aqueles que ficaram traumatizados pelo desastre e suas conseqüências.

Em contraste com todas as outras catástrofes onde as organizações de ajuda humanitária estiveram no último ano, as tsunamis provocaram um sentimento excepcional de boa vontade, solidariedade e generosidade em nível internacional.

Menos de uma semana após as tsunamis, MSF já havia recebido mais do que o suficiente para realizar as atividades de saúde emergenciais que havia previsto para a região e pediu então aos doadores que contribuíssem com nosso trabalho em outras emergências.

Além disso, MSF contatou seus doadores em todo o mundo para pedir a permissão para usar as doações já efetuadas em outras situações de crise como Níger, Uganda, Somália, Colômbia ou República Democrática do Congo (RDC), onde uma enorme quantidade de pessoas continua sofrendo, ano após ano, em silêncio.

A resposta foi bastante positiva e as doações estão sendo agora utilizadas em lugares como o sudoeste de Níger, onde ao longo de 2005 equipes de MSF trataram cerca de 50 mil crianças gravemente desnutridas, e onde houve uma falha na resposta da comunidade internacional a uma crise nutricional e de saúde.

É este apoio permanente de milhares de indivíduos que torna possível para MSF atender as necessidades de saúde e oferecer ajuda humanitária em apenas algumas horas após um desastre ou uma crise. MSF pode começar o trabalho sem precisar esperar que a comunidade internacional acorde para a crise ou que doadores institucionais liberem financiamentos.

Graças aos seus colaboradores, MSF pode manter sua independência e intervir quando e onde sua ajuda é mais necessária. Esta imparcialidade e independência de análise e ação são elementos cruciais da identidade de MSF, que deve ser mantida apesar da inconstância no campo da ajuda humanitária. A identidade e os princípios de MSF possibilitam que a organização trabalhe em contextos complicados onde os efeitos de crises provocadas pelo homem são devastadores para os indivíduos.

Trabalhando em zonas de conflito

A neutralidade de MSF tem sido fundamental no conflito da República Democrática do Congo (RDC), onde, para a maioria das pessoas, a chamada transição da guerra para a paz permaneceu como uma miragem ao longo de 2004 e 2005. Milhares de pessoas continuam morrendo de doenças tratáveis como malária e sarampo. A chama da violência continua acesa, encurralando aqueles que vivem nas províncias de Ituri, Kivus do Norte e do Sul e Katanga.

Em junho de 2005, o seqüestro de dois profissionais de MSF por milícias armadas forçou MSF a retirar suas equipes dos arredores da cidade de Bunia, deixando milhares de pessoas sem cuidados de saúde. No entanto, MSF continua trabalhando no hospital da cidade, onde cirurgiões realizam operações em adultos e crianças que sobrevivem a ferimentos de bala, facadas, queimaduras e à violência sexual. Em outras partes da RDC, equipes de MSF oferecem cuidados básicos e hospitalares para populações locais e pessoas que se deslocaram por causa da violência.

Na Colômbia, pessoas vêm sendo forçadas há décadas a enfrentar confrontos violentos entre forças governamentais, grupos paramilitares e guerrilhas armadas, que aterrorizam civis tanto em áreas rurais quanto urbanas. Nos nossos projetos pelo país, MSF tenta aliviar um pouco o sofrimento levando serviços de saúde, incluindo cuidados psicossociais, para pessoas que fogem da guerra e outras pessoas vulneráveis.

Igualmente, na capital haitiana Porto Príncipe, civis também são afetados pela violência política e criminal que vem devastando sua cidade desde setembro de 2004.

Enquanto as condições de vida em diversos bairros mais empobrecidos piora e os ataques brutais se intensificam, o número de pessoas feridas por ataques violentos – e que vêm recebendo assistência médica e cirúrgica de MSF – continua aumentando. Em julho de 2005, MSF se pronunciou sobre a piora da situação de segurança e fez um apelo público para que todos os grupos armados respeitassem a segurança dos civis e permitissem que os feridos recebessem cuidados médicos emergenciais.

Chamando atenção para a contínua violência em Darfur

Hoje, cerca de dois anos após o início da violência na região de Darfur, no oeste do Sudão, o conflito desapareceu da imprensa. Mas o terror infligido aos civis permanece presente.

Muitos daqueles que estão em campos no Sudão ou logo após a fronteira com o Chade vêem um futuro nada promissor para seus problemas. Cidades queimadas, violência sexual e ataques violentos fazem da volta para casa uma opção irreal para a grande maioria. Ainda assim, os campos ou cidades onde eles se aglomeram estão longe de serem considerados locais seguros.

As pessoas que vivem nessas áreas continuam sendo submetidas à agressão e fugas repetidas. Durante 2005, MSF continuou levando assistência a mais de um milhão de pessoas que foram forçadas a fugir de suas casas, ou de alguma forma foram afetadas pela violência e suas conseqüências.

Além dos cuidados de saúde oferecidos, MSF se manifestou em diversas ocasiões, inclusive em pronunciamento ao Conselho de Segurança da ONU, sobre o que nossas equipes testemunham em Darfur. Após oferecer cuidados de saúde para centenas de mulheres e meninas que sobreviveram a estupros ou outros tipos de violência sexual em Darfur, MSF se pronunciou sobre a violência contra a mulher, num relatório divulgado em março de 2005. As duras observações do relatório levaram o governo do Sudão a prender dois profissionais estrangeiros de MSF que coordenavam os trabalhos da organização em Darfur.

Finalmente, apelos internacionais ajudaram a libertar os dois profissionais. Os membros de MSF acreditam que é sua responsabilidade conscientizar pessoas e governos sobre os abusos que testemunham. É impossível permanecer em silêncio. Como MSF pode melhor assistir as vítimas de violência sexual continua sendo uma questão importante.

Enquanto isso, os habitantes de enormes áreas do sul do Sudão começaram a sofrer de desnutrição devido à escassez de alimentos. As equipes de MSF que trabalham lá estão tratando um número cada vez maior de crianças sofrendo de desnutrição severa, enquanto a situação nutricional precária é agravada pelo retorno para casa de pessoas refugiadas e deslocadas dentro do país, agora que o acordo de paz está em vigor.

Melhorando a saúde daqueles que têm doenças negligenciadas

Diariamente, em diversos países do mundo, MSF se confronta com um outro tipo de violência que afeta milhões de pessoas. Pacientes que vivem com doenças como malária, tuberculose (TB), HIV/Aids, doença do sono e doença de Chagas, citando apenas algumas, morrem porque os medicamentos necessários para tratá-los não estão disponíveis em quantidades suficientes, são muito caros, ou simplesmente não existem.

Um estudo sobre a malária sugere que, uma vez que essa doença afeta principalmente as pessoas pobres que vivem em países em desenvolvimento, há pouca urgência para melhorar o fornecimento de medicamentos essenciais, buscar novos tratamentos ou desenvolver melhores instrumentos para diagnóstico. Recentemente, tem havido um tímido ressurgimento de pesquisas sobre essas doenças. No entanto, considerando as décadas de negligência, esses avanços são pequenos e desproporcionais com relação ao número de pacientes que aguardam hoje diagnóstico e tratamento.

Enquanto MSF e muitas outras organizações vêm demonstrando que é possível tratar adultos com HIV, mesmo aqueles que vivem em locais muito pobres, o mesmo não se pode dizer para as vítimas mais jovens da doença.

Nossa batalha para tratar crianças infectadas pelo HIV sofre graves obstáculos pela falta de formulações apropriadas de medicamentos e de instrumentos para diagnóstico. Apesar do fato de que MSF está hoje tratando com sucesso mais de 45 mil pacientes em 29 países, nossas equipes são forçadas a improvisar soluções, como partir comprimidos de adultos em dois, ou ainda convencer crianças pequenas a tomarem xaropes com gosto amargo para que possamos tratá-las.

Para os pacientes de HIV/Aids que também estão infectados pela tuberculose (TB) – a infecção oportunista mais comum – os obstáculos também são enormes.

Problemas em diagnosticar a TB, grande quantidade de comprimidos, interações de medicamentos, e a falta de assistência coordenada são algumas das dificuldades enfrentadas por nossas equipes de saúde em vários países, especialmente em partes do sul da África, onde ambas as doenças matam milhares de pessoas a cada ano. No entanto, como temos demonstrado, é possível integrar com sucesso a assistência da TB ao HIV/Aids. Em países como a África do Sul, alguns importantes progressos vêm permitindo que pacientes muito doentes se recuperem e recomecem suas vidas.

Cumprindo nossos compromissos

Quer seja tratando um paciente co-infectado pelo HIV e pela TB, uma vítima da violência na RDC ou no Haiti, ou ainda uma criança desnutrida em Níger, MSF continua lutando para levar assistência médica para aqueles que mais necessitam. No entanto, nossa capacidade de acesso às pessoas necessitadas é desafiada pelo uso abusivo dos símbolos humanitários para fins políticos, e pela freqüente violência contra os profissionais de ajuda humanitária.

A responsabilidade de Estados em respeitar o papel da ação imparcial da ajuda humanitária é um problema que buscamos sempre ressaltar.

MSF já foi acusada de estar "fora da moda" e mesmo de extremista por reafirmar seus princípios básicos num mundo em evolução. No entanto, é o uso desses mesmos princípios que nos permite realizar ações pragmáticas em tais condições.

Para finalizar, gostaria de explicitar que temos sempre um objetivo em mente: oferecer assistência à saúde àqueles que necessitam, sob qualquer circunstância.

Um feliz 2006

Rowan Gilles
Presidente do Conselho Internacional de MSF