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Uma outra visão

A pediatra Junia Cajazeiro compartilha sua experiência atuando com migrantes venezuelanos em Roraima.
21/11/2021
Uma outra visão

Foto: Diego Baravelli

Morei por 3 meses em Boa Vista, capital de Roraima, em 2019. Foi a primeira vez que atuei com Médicos Sem Fronteiras no meu país. Foi uma experiência e tanto chegar no local que iria trabalhar já entendendo a língua local, a cultura e o sistema de saúde. Lá, atendia refugiados venezuelanos e a população brasileira.

No centro de saúde, eu atendia crianças, mas quando nós fazíamos atendimentos nos locais em que refugiados venezuelanos estavam usando como abrigos temporários ou quando nós íamos à rodoviária de Boa Vista - local onde, naquela época, cerca de mil venezuelanos dormiam todos os dias em barracas - eu atendia adultos ou idosos. Como a minha especialidade é a saúde de crianças e adolescentes, eu tinha combinado com a médica que trabalhava comigo que, caso eu tivesse alguma dificuldade, eu pediria ajuda a ela na condução dos casos, e assim ficamos.

Em um desses atendimentos, em determinado momento, chegou para mim um senhor com cerca de 70 anos de idade. Ele me lembrava muito do meu pai. Ele me disse que estava ali sozinho. Tinha vindo com sua família, mas no meio do caminho, eles haviam se perdido. Não sabia onde estava sua mulher e filhos. Me disse que desde cedo não tinha comido, não tinha conseguido chegar a tempo da distribuição do jantar pois estava tentando arrumar dinheiro para comprar remédio para dor de cabeça. Ele estava com feridas na pele que lembravam sarna. Perguntei se ele se coçava, e ele disse que sim. E então perguntei, como poderia ajudá-lo. Ele disse que só queria um comprimido para dor de cabeça. Era só aquilo que o incomodava. E quando ele me disse isso, eu não consegui respondê-lo. Estava visivelmente emagrecido, olhos fundos, lesões na pele, roupa rasgada, sapatos velhos, não tinha comido nada no dia inteiro e o que o incomodava era a dor de cabeça.

Não conseguia não pensar no meu pai e no tanto que eu jamais queria que meu pai ou qualquer familiar meu passasse pelo o que aquele senhor estava passando. Enquanto minha cabeça estava nessa espiral de pensamentos, ele me olhava. Minha amiga médica também me olhava e, em uma fração de segundos, me perguntou: “Precisa de ajuda?” Eu disse sim. Não consegui prescrever um remédio para dor de cabeça para aquele senhor. Não podia ser somente aquilo que ele precisava. Ele precisava e merecia muito mais. Ele saiu dali com a medicação para dor de cabeça, para sarna e um lanche.

Quando falamos em empatia, sempre pensamos em nos colocar no lugar do outro. Naquele dia, não consegui me colocar no lugar dele, mas enxerguei nele meu pai e aquilo me doeu mais, muito mais do que qualquer possibilidade de eu estar passando pelo que ele passou. Voltei lá mais algumas vezes para a campanha de vacinação e outras intervenções, mas nunca mais o vi.

No final de 2018, em Boa Vista, MSF iniciou um projeto de reforço ao sistema de saúde da capital de Roraima em razão da chegada de um grande número de migrantes e solicitantes de asilo vindos da Venezuela. Nosso projeto em Roraima continua ativo, oferecendo cuidados médicos gerais, de saúde sexual e reprodutiva, saúde mental e atividades de promoção de saúde à população migrante, principalmente por meio de clínicas móveis em Pacaraima e Boa Vista.  

Junia Cajazeiro é médica pediatra e atuou no Uzbequistão de 2016 a 2017, na Etiópia em 2017, no Iraque em 2018, e no Brasil atuou em Roraima no ano de 2019 e em Manaus, em 2020.

 

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