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Uma história escrita pelo Ebola

11/02/2015

Estou trabalhando pela quarta vez com Médicos Sem Fronteiras e pela primeira vez venho ao continente africano. Quando fui chamada para um projeto de Ebola, na Libéria, fiquei imaginando o que iria encontrar, e a realidade foi um tanto assustadora. Antes de vir ao projeto, foram dois dias de treinamento para conhecer os protocolos e desafios que iríamos encontrar. O curso é dado por profissionais com experiência e, além de apresentar a teoria, eles nos repassam suas vivências em campo.

No curso, o interior de um hospital foi reproduzido e nós fomos preparados de forma prática a nos vestirmos, a como nos comportar, o que podemos ou não fazer quando estamos trabalhando em zonas de alto risco. Minha primeira vez usando o equipamento de proteção individual foi inquietante. Não podia respirar, andar, falar ou mesmo me mover da forma como faço usualmente. Aquilo me fez pensar se eu conseguiria utilizá-lo, mas, com os treinamentos, colocar a vestimenta passa a fazer parte da rotina do hospital, e nosso corpo se adapta a tudo.

Já no hospital, encontro os  29 aconselhadores que fazem parte da equipe de apoio psicossocial. Esse foi o meu primeiro desafio: eu não seria apenas uma psicóloga a atender os pacientes, mas lideraria uma equipe que, desde agosto de 2014, tem enfrentado a maior epidemia de Ebola da história. Essas pessoas são meus heróis e heroínas. Eles conseguiram ir trabalhar e enfrentar situações extremas, como mais de 45 mortos no mesmo dia, acolhendo familiares, organizando os funerais, prepando tudo para que os familiares pudessem visitar seus entes queridos nos últimos dias de vida. A maior parte da equipe nacional ainda tem que lidar com o preconceito ao voltar para suas casas, onde familiares e vizinhos os discriminam por estarem trabalhando em um hospital para pacientes com Ebola. É simplesmente incrível a resiliência dessas pessoas.

Logo no início de minha experiência aqui, minha primeira paciente foi uma menina de dez anos pesando menos de 30 quilos, que chegou ao hospital depois da morte de sua mãe, alguns dias antes, por conta da contaminação por Ebola. Grande parte do contágio pelo vírus se dá nos funerais, quando a família não sabe que a pessoa morreu de Ebola, e um grande número de conhecidos participa do ritual, comem e, às vezes, dormem no mesmo lugar. No mesmo dia em que essa criança veio para o nosso hospital em Monróvia, Elwa 3, seu pai e seu irmão foram internados em outra unidade de tratamento de Ebola. Eles morream dois dias antes dela. No princípio, ela se mantinha calada, muito fraca, recusando-se a comer e com dores no corpo e febre. Criamos algumas histórias com desenhos feitos pela própria equipe e adaptamos a cultura local. Foi assim que ela conseguiu sorrir pela primeira vez no hospital. Mas quando pedíamos que ela criasse a continuação da história, ela terminava com a morte do personagem principal, que, no caso, era o cachorro muito esperto. Ela nos contava que o cachorro não comia e por isso ia morrer. Ela nos contava sobre ela mesma!

Para a equipe, foi muito difícil aceitar aquilo, e eles queriam sempre dar uma final feliz para a história. Tive que cuidar de todos os envolvidos: da equipe, que não suportava ver a criança falar de sua morte; e da criança, que já não conseguia mais lutar para viver.

Seu último sorriso foi para a irmã que veio visitá-la. Ela já não conseguia andar. Então, pedimos ajuda da equipe médica para carregá-la até a área de visitantes. Ela só bebia água e sorria, mas já não conseguia formular frases completas. Havia sinais de comprometimento neurológico, uma vez que ela já fazia movimentos involuntários. Mesmo assim, sorriu para seus dois irmãos, teve apoio constante da equipe, que se preocupou em mantê-la sem dor e sempre acompanhada, para que até no enfrentamento da morte, pudesse se sentir cuidada. No dia seguinte, morreu às 11 da manhã.

Assim como a história do cachorro que criamos para ela, este meu diário de bordo não tem final feliz. As mortes ocorrem todos os dias. Conseguimos aumentar o número dos que sobrevivem, mas mesmo esses sobreviventes não conseguem voltar a ter uma vida normal. Sobreviveram ao Ebola, mas o preconceito os impede de serem aceitos em suas casas, vilas ou cidades. O preconceito os mata um pouco a cada dia. Por isso, iniciamos uma nova fase do projeto para prover apoio psicossocial aos sobreviventes. Essa história, no entanto, fica  para o próximo diário de bordo.