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Uma experiência com sabor de caju e manga

A enfermeira Marina Barardi conta como foi supervisionar uma equipe de 40 pessoas num projeto pediátrico em Bissau
04/08/2017
Uma experiência com sabor de caju e manga

Foto: Acervo Pessoal

Foi minha segunda missão com MSF em Guiné Bissau, um país da África Ocidental. A capital, Bissau, é um local com muitas necessidades sociais, mas também um lugar muito tranquilo e pacato. Foram seis meses de trabalho intenso e duro no hospital de referência Simão Mendes, mas também foi um tempo reconfortante. Foi surreal como o tempo passou quase sem eu perceber, acho que pela enorme carga de trabalho que tinha. O projeto lá é de cuidados intensivos e de emergência para crianças e recém-nascidos. Eram 24 leitos e, em muitas das camas, fazíamos uma espécie de "ninho" para receber os recém-nascidos, que eram maioria na maior parte do tempo em que estive lá. Eles vinham de suas casas (muitos partos são domiciliares) e outros da própria maternidade do hospital.

A casa em que eu morava ficava a 5 minutos do hospital. Eu podia ir e voltar caminhando todos os dias tranquilamente e no caminho encontrava com muitos agricultores que vendiam frutas e verduras da estação. O que mais me surpreendeu por lá foi o tamanho das mangas. Elas eram enormes e muito, muito doces, como eu nunca havia provado... Este é sabor que Bissau tem para mim: caju e manga!

Chegava ao hospital às 8h e nesse mesmo horário todas as mães já estavam lavando suas roupas nas bacias, com os seus bebês amarrados às costas com tecidos. Depois, disputavam um cantinho no gramado ou no muro para pendurar e secar suas roupas.

No hospital, eu supervisionava uma equipe de aproximadamente 40 enfermeiros nacionais, sendo a maioria deles jovens e recém-formados. Era impressionante a disposição e a alegria que mostravam com o trabalho, mesmo sendo um trabalho desafiador e árduo. Isso era o que muitas vezes me trazia motivação e energia para estar ali. Aceitavam novas sugestões e contribuições no método de trabalho e também traziam importantes colaborações, sendo que acontecia uma troca cultural de costumes e saberes rica e saudável.

Cada enfermeiro era responsável por aproximadamente cinco pacientes. Muitas e muitas vezes não paravam (literalmente) durante suas 12 horas de plantão. Almoçavam em 15 minutos e voltavam à dedicação intensiva que os pacientes exigiam. Foram muitas reanimações, muitos óbitos e dias de angústia, mas também muitas superações. Fomos aprendendo juntos a lidar com tantas questões delicadas que se vive dentro de uma UTI e a superar nossas fragilidades e medos que no final tudo acabou se transformando numa fortaleza para a equipe como um todo.

Me emociono muitas vezes quando lembro de cada criança que esteve ali, com sua história familiar (muitas vezes complexa) e suas pequenas singularidades que me cativavam! Lembro-me ainda do rostinho e da história dos muitos pacientes. Uma delas era uma menina de 11 anos que tinha fraturado o fêmur. O caso acabou se complicando, ela pegou tuberculose e ficou bastante deprimida, se recusando inclusive a comer. Ela ficava o dia inteiro só deitada na cama, não queria nem se levantar, mesmo podendo. Quando conversávamos com ela, ela só chorava. Até que surgiu a ideia de lhe darmos uma boneca. Seus olhinhos brilharam e foi o primeiro sorriso em semanas que ela esteva ali.  Incrível como um pequeno gesto (que pensamos ser insignificante para nós) pode ser uma coisa tão importante para o outro. Ela dormia abraçadinha com a boneca todos os dias. Depois de mais de dois meses internada ela ficou bem e foi para casa.

Era uma sensação muito boa ver um paciente que ficou à beira da morte indo, enfim, para casa. Quando saiam de alta para seus lares, às vezes voltavam para nos visitar e nos traziam de presente um lindo sorriso no rosto!

Voltei para casa super cansada, mas bem feliz por todos esses pequenos sorrisos que recebi e colecionarei! Essa experiência só reforçou meu sentimento do quanto é importante a presença de MSF nesses locais.