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Uma emergência sem precedentes em Manaus

23/04/2021
Uma emergência sem precedentes em Manaus

Foto: Arquivo pessoal

Em Janeiro de 2020, retornando do Afeganistão após 13 longos meses de missão, esperava que a vida seria o habitual. Porém, logo após o início da pandemia, nada do que foi planejado foi realizado. Tivemos que viver o momento sem saber o mínimo que aconteceria no dia de amanhã e com previsões negativas para os outros dias que viriam.

Diante desse conturbado cenário, minha ida para outro projeto de MSF foi cancelada e me propuseram trabalhar em Manaus na abertura do projeto COVID-19  em meados de abril. A proposta do meu trabalho era de realizar triagem de pessoas com sintomas da doença em abrigos do município, para atender moradores de rua, indígenas venezuelanos refugiados da etnia Warao  e população em situação de vulnerabilidade em geral.

A pressão era grande. Havíamos chegado no pico da epidemia. Os serviços de saúde estavam sobrecarregados, os equipamentos de proteção individual eram escassos, não haviam testes disponíveis, a situação piorava a cada dia e tínhamos que agir rápido.

Arduamente, estabelecemos as atividades no local com duas clínicas móveis visitando os abrigos para organizar os isolamentos e encaminhar os casos sintomáticos para tratamento o mais rápido possível. Porém, não haviam vagas de UTI disponíveis para a população de Manaus e de todo o interior do estado. MSF decidiu, então, dar suporte ao serviço hospitalar, criando mais leitos e realizando treinamento das equipes em um dos centros de saúde sobre COVID-19.  

A cada dia encontrávamos mais sintomáticos nos abrigos e a necessidade de um local próprio para isolamento ficou clara, pois não havia estrutura necessária para separar pessoas com sintomas de COVID-19 para evitar a transmissão dentro dos próprios abrigos. MSF então abriu um centro de isolamento conjuntamente com as secretarias de saúde e de assistência social  de Manaus para encaminhar os indígenas Warao com sintomas da doença.

Criamos uma rede de apoio com as outras ONGs que já estavam presentes  nesses abrigos da capital, trabalhando conjuntamente para atingirmos os objetivos mais rápido, pois, como a situação era muito nova, havia uma grande sensação de desespero e uma grande necessidade de estratégias contundentes. Foi aí que vi como a atuação de MSF é importantíssima, pois vem com uma grande experiência em epidemias e dá  luz do direcionamento para  instituições e profissionais locais, unindo forças e não os substituindo, o que tiraria a responsabilidade de cada um no processo.   

Realizamos treinamentos aos servidores públicos que trabalhavam nesses abrigos sobre biossegurança em COVID-19 para que não se contaminassem durante o trabalho, pois muitos eram funcionários  de outras áreas que  foram remanejados nessas funções pelo aumento da carga de trabalho e adoecimento massivo de colegas em curto período de tempo.

Pessoalmente, o mais impressionante foi realizar o treinamento na funerária municipal que teve seu quadro de pessoal triplicado durante esse pico pelo número de óbitos na cidade, principalmente dos que aconteciam em casa.  Como foram contratados emergencialmente, tinham pouco conhecimento sobre a doença e como se prevenirem de uma forma mais efetiva na hora da manipulação dos corpos.

O trabalho era intenso, com colegas ficando doentes ou mesmo exauridos e tendo que ir embora da missão, com aumento massivo dos casos no interior e com a diminuição dos casos nos abrigos em Manaus, o cansaço e a mente pediam descanso e após dois meses decidi deixar a missão.
Manaus foi um grande aprendizado, não só do combate à pandemia, mas sim da percepção dos meus limites, do cuidado humanizado comigo mesma, que eu tenho que estar bem para cuidar dos outros e claro, me preparar para outros desafios que viriam a seguir.

 

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