“Um dos dias mais emocionantes da minha carreira”

Felipe Euzébio, primeiro à direita, com outros profissionais de MSF e jovens que desenvolveram um espaço comunitário na clínica de MSF em Yei, Sudão do Sul. ©Arquivo pessoal.

Como gerente de promoção da saúde e engajamento comunitário, Felipe Euzébio coordenou o desenvolvimento de um espaço construído coletivamente por jovens em Yei, no Sudão do Sul, para integrar os cuidados de saúde à comunidade. Uma comovente experiência que o motivou ainda mais como profissional humanitário.

Quando cheguei em Yei, em outubro de 2024, uma das primeiras responsabilidades que recebi do referente médico do projeto foi desenvolver uma estratégia para aproximar a população jovem dos serviços de saúde oferecidos por Médicos Sem Fronteiras (MSF).

Naquele momento, estávamos notando um aumento preocupante no número de casos de violência sexual contra adolescentes com menos de 15 anos de idade. Em uma única semana, atendemos cinco meninas — a mais nova com apenas 12 anos — por meio do nosso sistema de atendimento de base comunitária. Esse sistema contava com o apoio de pessoas focais nas comunidades, responsáveis pelo primeiro acolhimento às sobreviventes e pelo encaminhamento delas para nossa clínica. Ao mesmo tempo, outros serviços oferecidos diretamente na clínica de MSF — como apoio de saúde mental, planejamento familiar, consultas pré-natais e atendimento clínico geral — recebiam poucas pacientes jovens. Havia uma desconexão evidente entre o que ocorria nas comunidades e o que chegava até nossos serviços.

Era preciso criar uma estratégia que fizesse os jovens se sentirem parte dos serviços de saúde oferecidos por MSF — uma estratégia que, ao mesmo tempo, funcionasse como forma de prevenção à violência sexual.

Meu primeiro passo foi realizar reuniões comunitárias com grupos de jovens em diferentes áreas de Yei. Para minha não tão grande surpresa, a própria comunidade já tinha uma resposta: os jovens pediam por um espaço que fosse deles. Um lugar onde pudessem frequentar, socializar, estudar, brincar, simplesmente ser jovens.

Esta é a essência do engajamento comunitário: encontrar, junto com a população, soluções para problemas de saúde, e construí-las de forma conjunta e sustentável, para que, mesmo quando MSF não estiver mais presente, as iniciativas permaneçam vivas. Como gerente de promoção da saúde e engajamento comunitário, cabia a mim mediar esse processo.

• Gostaria de trabalhar com MSF? Acesse: Trabalhe – MSF Brasil

Começamos, então, a buscar possibilidades e encontramos um antigo prédio em desuso nos fundos da clínica construída por MSF — uma área que havia servido como espaço de isolamento durante a pandemia de COVID-19. A equipe de educadores comunitários, com o apoio das pessoas focais do sistema de base comunitária, iniciou a mobilização dos jovens da vizinhança. Precisávamos entender: o que eles queriam que esse espaço fosse? Que atividades gostariam de desenvolver? Que itens seriam importantes? Que oficinas e aulas poderiam acontecer ali?

Aos poucos, a ideia foi tomando forma: um espaço de jovens dentro da clínica de MSF, com atividades recreativas quinzenais de promoção da saúde e a presença constante dos educadores comunitários. Um lugar sempre aberto para acolher os jovens — e uma porta de entrada alternativa para aqueles e aquelas que buscassem preservativos, aconselhamento em planejamento familiar, apoio de saúde mental e, o mais importante, um ponto seguro para sobreviventes de violência sexual.

Pintamos o prédio de branco, abrimos janelas onde antes não havia nenhuma e marcamos a primeira atividade: colorir as paredes com desenhos. Mais de 90 jovens, de diferentes idades e vilarejos ao redor da clínica, apareceram para participar. Organizamos estações com pincéis de vários tamanhos, tintas de diversas cores e godês improvisados de papelão. Foi um dia ensolarado, cheio de risadas, cores e brincadeiras.

Os educadores comunitários ajudaram as crianças menores com seus desenhos, e todas as pessoas puderam deixar sua marca, construindo, junto com MSF, esse novo espaço que passava a ser deles.

Espaço voltado ao público jovem na clínica de MSF em Yei, Sudão do Sul. ©Arquivo pessoal.

Quinze dias depois, realizamos a inauguração. O espaço agora estava completo: cadeiras, mesas, tambores, bolas, bambolês, dominós, cordas de pular, blocos de montar, tapetes, entre tantos outros itens.

Todos os profissionais de saúde da clínica se juntaram à festa, e contamos com a presença de 130 participantes. Os jovens organizaram uma votação para escolher o nome do local. Em grupos, sugeriram possibilidades, e depois, com palmas e gritos, elegeram o favorito. Para minha surpresa, o nome escolhido foi Felipe’s Friendly Space (“Espaço Amigável do Felipe” em inglês) — uma homenagem a mim, por ter ajudado a tornar realidade algo que há muito tempo eles desejavam.

Foi um dos dias mais emocionantes da minha carreira — e também um dos mais divertidos. Lembrou-me do motivo pelo qual decidi me tornar antropólogo e trabalhar com educação em saúde em projetos humanitários. Mediar essas realizações, construir pontes onde antes não havia diálogo, nos lugares onde isso é mais necessário e urgente — é algo profundamente bonito de se viver.

Compartilhar

Relacionados

Como ajudar