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Tratando o HIV onde ao menos 1 em cada 10 pessoas tem o vírus

O infectologista Augusto Cezar Meneguim lembra seu trabalho em Moçambique, no primeiro semestre deste ano
30/11/2018

Foto: Arquivo pessoal

Beira, Moçambique. Prevalência de HIV na população geral em torno de 13%. Arrumei minhas duas mochilas e vim para meu primeiro projeto. A primeira impressão foi acima da expectativa.

O projeto da Beira tem, atualmente, dois componentes principais: apoio à população-chave na comunidade, especialmente profissionais do sexo e homens que fazem sexo com homens, e suporte ao centro de saúde, focando em HIV avançado, saúde da mulher e assistência médica à população-chave. Também estamos na fase de implementação de um grande projeto sobre HIV avançado no pronto-socorro do Hospital Central. Anteriormente, o projeto fazia parte do chamado Projeto Corredor, vinculado a outros projetos no Zimbábue e Malaui. A ideia era garantir o acesso à prevenção e ao tratamento de HIV das populações que se movem constantemente em razão das atividades que exercem, como caminhoneiros e profissionais do sexo. Essas pessoas estão constantemente em busca de melhores oportunidades em lugares diferentes e acabam tendo o acesso à saúde negligenciado.

Atualmente, a maior parte de meu tempo é dedicada à implementação e ao seguimento do projeto de HIV avançado no Centro de Saúde da Munhava. Sou infectologista e tenho experiência no cuidado desse tipo de paciente; porém, infelizmente, essa não é a realidade daqui. A propósito, diferentemente do Brasil, onde as pessoas que vivem com HIV são atendidas em centros especializados, aqui elas são atendidas em centros de saúde comuns. Meu grande desafio é conseguir implementar um fluxo diferenciado de atendimento para os pacientes com HIV avançado, ou seja, aqueles com imunidade baixa e/ou que se apresentam com doenças oportunistas.

Para isso, realizamos treinamentos com o pessoal que trabalha no centro para auxiliá-los no diagnóstico e no tratamento das complicações que esses pacientes podem apresentar. Além disso, reabilitamos o laboratório com vários testes úteis para auxiliar nessa tarefa. Isso garante que os pacientes sejam tratados antes de ficarem seriamente doentes, o que tem grande impacto na vida dessas pessoas.

Entretanto, a fim de que tudo funcione, são necessárias muitas negociações com os clínicos, laboratório, diretoria do centro de saúde e, às vezes, departamentos de saúde. Não posso negar que estou aprendendo muito e desenvolvendo muitas competências que não tinha. Além disso, sabendo que a mortalidade desses pacientes é tão alta, conseguir garantir um sistema de atendimento diferenciado que beneficia mais de 7 mil pacientes com certeza vai ter um grande impacto, e essa é a diferença que quero fazer nesse canto do mundo.