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Testemunhos no Rio Anapu

A produtora de conteúdo multimídia Mariana Abdalla fala sobre a sua experiência em Portel, no Pará, onde MSF esteve para levar acesso a cuidados de saúde.
13/08/2021
Testemunhos no Rio Anapu

Foto: Acervo pessoal

“Grande parte do meu trabalho como profissional de audiovisual é saber observar, ouvir e acolher as pessoas, os momentos e os lugares ao redor. Apesar de na hora da captura de imagem e na ilha de edição eu ter que selecionar tomadas, ângulos e perguntas, o meu envolvimento, a experiência, a emoção e a memória que fica é a inteira, a bruta.

Nas primeiras semanas de julho de 2021, estive no município de Portel, na Ilha do Marajó, no Pará. Lá, embarquei e parti na clínica móvel de MSF pelo Rio Anapu, que teve a intenção de testar e detectar a COVID-19, bem como levar atenção básica de saúde a comunidades ribeirinhas. Do ponto de vista logístico e médico, o desafio era enorme. A distância entre as casas e as comunidades, na maioria das vezes, era de horas em barco.

Apesar de partilhar dos mesmos direitos básicos, é inegável que a falta de acesso a estes é parte intrínseca da realidade dessa população. Isso é verdade há muito tempo. Os povos ribeirinhos, habitantes tradicionais das margens dos rios, são descendentes dos migrantes nordestinos que chegaram à Amazônia na segunda metade do século XIX para a extração do látex. Na década de 50 do século XX, apesar da crise da borracha, estes permaneceram na região e, ainda hoje em isolamento extremo, vivem majoritariamente da pesca, da criação de alguns animais e de roças.

Com a clínica móvel, desembarcamos em algumas comunidades-chave que possuíam uma estrutura básica para montarmos nosso fluxo de trabalho. Pessoalmente, o que mais me impactou foi perceber quão vulneráveis estão as mulheres da região. Vimos meninas e mulheres jovens acompanhadas de muitos filhos e atendemos várias meninas e adolescentes com uma vida sexual ativa. Nos disseram que elas trabalham desde cedo – desde criança, na verdade – na roça, criam e são responsáveis por seus filhos e servem seus maridos quando estes vão e voltam do trabalho para as madeireiras locais.

Um dia, durante uma ação na comunidade de Sobradinho, eu e alguns colegas embarcamos na lancha rápida que tínhamos à disposição para pontualmente alcançar localidades mais distantes e pacientes mais isolados. Nos haviam relatado que uma comunidade específica não tinha recebido informação sobre a nossa ação naquele dia. Não hesitamos. Pegamos o megafone e saímos em sua direção. Depois de uma hora navegando, o “estamos quase lá” não foi suficiente para uma colega e tivemos que parar em uma casa na ribeira para que ela fosse ao banheiro.

Era um lugar muito isolado, sem nenhuma outra moradia por pelo menos 20 minutos de distância em lancha rápida em todas as direções. Enquanto ela estava lá, pelo menos 10 crianças vieram até a beira da palafita. Aos poucos, chegaram mais mulheres e meninas adolescentes, bem como um homem de, em média, 60 anos. Mais tarde, essa colega me disse que demorou a voltar do banheiro porque a “avó da casa”, a mulher mais velha, a puxou para o lado para desabafar um pouco: “eu me sinto em uma prisão, não consigo acessar nada em relação à saúde”, ela disse.

Ao longo da viagem, muitas pessoas chegaram às nossas ações. A equipe de MSF testou casos suspeitos de COVID-19, referenciou pacientes, orientou e passou conhecimentos essenciais de saúde. Está claro para mim que fizemos algo positivo. No entanto, também voltamos com a sensação de que essa população precisa de muito mais do que conseguimos oferecer aqueles dias. Voltamos cheios de empatia, mas também frustração. Mas, afinal, não foram esses mesmos sentimentos que impulsionaram a criação de MSF? Não são esses mesmos sentimentos que devem nos impulsionar a dar o nosso melhor, todos os dias, no trabalho humanitário?

Para mim, é um dever e um privilégio poder retratar o testemunho dessas pessoas e essa realidade da forma mais fiel possível. Foi um privilégio acordar às 6 da manhã com o sol nascendo atrás do rio, espreguiçar na palafita com a escova de dente na mão, dar bom dia ao senhor da casa à frente e ouvir o grito de dentro do barco: “Vamos começar a tirar as coisas? Hoje começa às 8h”. Foi um privilégio ter sido um par de olhos nessa clínica móvel – para todos que não estavam lá, e, principalmente, para todos que estão lá todos os dias.”

Em meio à situação grave e ameaça de terceira onda, MSF reforçou, entre junho e julho, ações contra a COVID-19 no Brasil. Neste período, profissionais da organização atuaram no Pará, Ceará, Bahia e Paraíba. Na ilha do Marajó, MSF apoiou as autoridades de saúde na localidade de Portel.

O município, no entanto, enfrenta sérios obstáculos para acessar cuidados médicos por causa da localização distante e das dificuldades de infraestrutura. O que fez com que os cuidados de saúde levados à região fossem além da COVID-19. Geralmente, os deslocamentos na região têm de ser feitos por rio, durante várias horas ou até mesmo dias de viagem. Por isso, as equipes de MSF levaram à Portel as chamadas clínicas móveis para atendimento de pacientes em áreas remotas.


 

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