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Sobre cobras venenosas, despedidas e mangas

A psicóloga Vanessa Cardoso relembra seus últimos dias no projeto de Yambio, no Sudão do Sul, em 2011
19/10/2018
Sobre cobras venenosas, despedidas e mangas

Foto: Matthias Steinbach

Depois de seis meses aqui e de todas as terças-feiras pela manhã visitar um dado campo de deslocados internos, pela primeira vez nosso carro capotou. É a tão esperada estação das chuvas por aqui que vai até outubro. Como dia 12 era meu último dia no projeto, não fui. Nenhum ferido com gravidade. As condições das estradas que são de barro não são boas já em tempos de seca.

No meu último domingo, me preparava para sair com um colega brasileiro quando avisto em minha cabana a temida cobra mamba negra. A mesma que eu vi há semanas na porta do banheiro. Dessa vez maior e passando rente a meu pé em direção ao armário. Não queiram saber. É o horror. Gritava o nome de um destemido amigo japonês que sempre me salvou de aranhas e outros bichos, mas ele não me ouvia e quando ouviu veio a passos lentos. Eu podia vê-lo de minha janela. Minutos depois ele me disse que não se apressou porque estava certo de que era um gafanhoto, um sapo, um camaleão. Só quando me ouviu dizer cobra é que de fato reagiu. Eu havia saltado para minha cama, e ele, o japonês, chamou nossos dois seguranças nascidos aqui e que têm toda a técnica para matar cobras. Os dois entraram, também estavam um pouco céticos, mas enfim a encontraram e ela se foi desse mundo com mais de 10 pauladas. Seu veneno é fulminante, diziam. Eu fiquei ali, paralisada com essa informação e com a imagem dela passando tão perto de mim. Eram 8:30 da noite. Depois do susto e da histeria, sabia que estava prestes a viver vários sintomas de ansiedade, mas saí ainda assim. Quando contava a história nem eu mesma podia acreditar e posso, por isso, entender que para vocês também seja difícil. É claro que, ao voltar, evitei dormir na minha cabana e só agora depois de 48 horas e um belo revestimento na porta eu pude dormir em paz aqui.

Meu voo foi cancelado por problemas técnicos na aeronave, mas teria sido adiado de qualquer forma porque foi mais um dia de muito vento e muita chuva. Daqui para frente será assim, esperar até o último minuto para saber se deixamos Yambio ou não. Se não for na quinta, será no sábado e se não for no sábado, será na próxima terça. Depende do tempo. Alguns amigos daqui me dizem que tocarão o tambor, que farão magia e danças. Parece que está dando certo. Uma certa angústia e uma sensação de não pertencimento porque a festa de despedida já aconteceu, você já se despediu de seus colegas em diferentes lugares, já recebeu presentes e já fez o discurso também. Física e simbolicamente você não tem mais lugar. Ao menos é assim que eu sinto. Faz apenas uma semana e eu chorava copiosamente por mais um corte. É sempre um corte sabido, sempre sei quando venho e quando terei de ir embora, mas ainda assim é um corte e dói. O tempo passa tão rápido que parece que você não teve tempo hábil para digerir tudo e está sendo arrancada dali. Agora, agora, não. Não choro mais e preciso sair. Mas tenho já muitas saudades.

Faz meses que só ouço falar do esperado mês de abril, porque é quando nascem as mangas; finalmente, sinal de vida. Algumas pessoas me diziam: “fique mais um pouco, você não pode perder a estação das mangas.” É um evento. Já é dia 13, mas a maioria está verde ainda. Mesmo assim, em cada canto das cidades você pode ver adultos e crianças jogando objetos lá pro alto, com pedaços enormes de madeira tentando fazer cair o maior número delas. E depois descascam ali mesmo enquanto conversam ou enchem suas sacolas plásticas intermináveis. Às vezes estamos em reunião numa linda área descoberta aqui sentados debaixo de uma mangueira quando de repente uma das mangas cai. Já caiu no nariz de um, na cabeça de outro. Eu estava a caminho da cozinha num desses dias de ventania quando logo atrás de mim caiu um galho cheio delas. Senti um frio na barriga quando as folhas passaram por minha perna. Às vezes estávamos dormindo e éramos acordados com algumas delas caindo no telhado de zinco da casa principal. Parecia som de bomba. Quando se está num contexto considerado instável em termos de segurança isso é bem possível. Hoje, ainda que sejamos acordados, sabemos que é apenas a personagem principal dessa estação mostrando que está pronta. Bem, ao menos as mangas estão prontas.