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Relatos de uma pandemia: Aquidauana – parte 01

09/05/2021
Relatos de uma pandemia: Aquidauana – parte 01

Foto: Diego Baravelli

Após dois meses depois de deixar o projeto de Médicos Sem Fronteiras (MSF) contra a COVID-19 em Manaus, recebi a proposta para integrar uma equipe no projeto no Mato Grosso do Sul, especificamente na cidade de Aquidauana, área com diversas aldeias indígenas (Terenas) que estavam sendo afetadas gravemente pela pandemia no momento.

Ao chegar, uma equipe pequena estava presente, porém muitos outros colegas estavam chegando para integrarmos uma ação médica de avaliação e monitoramento dos pacientes doentes e agir para conter a disseminação do coronavírus em 11 aldeias indígenas e com possibilidade de estendermos a atuação para áreas adjacentes. O projeto também continha a atuação no Hospital Regional de Aquidauana, no qual os indígenas estavam sendo encaminhados para tratamento, com o objetivo de melhorar a qualidade do atendimento multidisciplinar ao paciente de COVID-19.

A epidemia no local estava no pico e o hospital e a atenção básica estavam sobrecarregados; tínhamos pressa em agir, pois sabíamos que, para conter a epidemia, o tempo de ação é crucial.

Tanto para o hospital, quanto para as aldeias indígenas, tínhamos psicólogos, enfermeiros, médicos, promotores de saúde, profissionais de água e saneamento e uma equipe de logística a postos para iniciar o trabalho. Era uma equipe extremamente competente e já experiente no contexto de resposta à COVID-19, então, estávamos com tudo em mãos para ajudar a comunidade indígena que nos esperava tão ansiosamente, pois, no momento, havia apenas dois médicos atendendo 11 mil pessoas aproximadamente, o que não foi capaz de suprir a onda de casos e óbitos.

Na vigilância epidemiológica e atenção básica e especializada, encontramos profissionais engajadíssimos no trabalho, mas estavam sobrecarregados com toda a situação. Então, conjuntamente, delineamos a reorganização dos fluxos de atendimento ao paciente de COVID-19 no município, e decidimos como monitoraríamos esse paciente isolado, impedindo a piora clínica. MSF reforçou as ações com uma clínica móvel composta por médico e enfermeiro, que realizavam visitas a esses doentes.

Oferecemos treinamentos aos agentes comunitários de saúde e enfermeiros do local (mais ou menos 100 profissionais) sobre como realizar esse monitoramento. MSF sempre tem como proposta deixar o legado do conhecimento, pois são essas pessoas que continuarão no local depois que formos embora. E acreditamos que dessa forma os fortalecemos para os próximos desafios que poderiam continuar a vir.

Foi muito lindo, pois juntamos as nossas forças às desses profissionais, que confiaram em nós em um momento tão crítico, e pudemos realizar esse trabalho tão grandioso. No fechamento do projeto, poder escutar de profissionais tão competentes que a epidemia que atingiu o município foi dividida em dois momentos, “antes e depois de MSF”, foi extremamente gratificante. Guardei uma lembrança muito boa desses dias em que trabalhamos exaustivamente, porém foram dias em que, no final, tudo valeu a pena.



 

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