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A reconstrução física e emocional da Chechênia

15/05/2014

 Já faz dez meses que cheguei na Chechênia, na Federação Russa. Grozni, capital da república, foi uma das cidades mais destruídas pela guerra e, desde 2011, vem passando por um processo de reconstrução. Quando cheguei, esperava encontrar uma cidade ainda em destroços e lutando para se reorganizar. Externamente, tudo parece em paz, mas esta paz é quebrada quando a fragilidade eclode e, sem perceberem, os indivíduos deixam escapar anos de sofrimento, por conta de um longo período de guerra.
 
O programa de tuberculose de MSF presta atendimento a pacientes sensíveis (SDR), multirresistentes (MDR) e ultrarresistentes (XDR) aos medicamentos. Os pacientes trazem experiência prévia em detenção ou deslocamento territorial, uma das principais causas de contaminação durante o período da guerra. O desafio diário é a tentativa de mantê-los em tratamento. Por meio de uma entrevista motivacional, eu reforço a importância da aderência ao tratamento e as diversas maneiras de lidar com os fortes efeitos colaterais. Todo o trabalho com os pacientes acontece de forma multidisciplinar, com profissionais locais, e uma enfermeira e um médico internacionais. As decisões são tomadas em conjunto.
 
No programa de saúde mental, o principal perfil de pacientes são pessoas que, direta ou indiretamente, foram afetadas pela guerra e também pelos conflitos armados que ainda ameaçam a população, além de casos de violência doméstica que vêm aumentando nos últimos anos. Os principais sintomas são ansiedade, problemas de humor e também comportamentais. A maioria dos pacientes são adultos e o tratamento é baseado em psicoterapia breve focal, com o objetivo de reduzir o sofrimento psíquico e aumentar a funcionalidade, através de manejos individuais e em grupo.
 
Por questões de segurança, os profissionais internacionais devem seguir rigorosamente as regras e também respeitar as questões culturais. Como vivemos em uma república muçulmana, mulheres são proibidas de usar calças ou mesmo mostrar o ombro. Temos que nos adaptar ao contexto e também com o clima frio que perdura por meses.
 
Meu trabalho neste projeto difere da minha experiência anterior em MSF. Aqui, assumi mais responsabilidades e supervisiono a equipe de saúde mental local, garantindo a qualidade dos serviços e ajudando os profissionais a desenvolverem uma escuta mais ativa, além de oferecer um espaço no qual eles se sintam confortáveis para expressar suas emoções e dividirem suas expectativas. As supervisões acontecem em diferentes contextos, de forma individual, em grupo e presencial. Mesmo em grupo, nós estabelecemos um tratamento individualizado para cada paciente e os conselheiros trazem diversos casos interessantes, de pessoas resilientes, que, em face a tantas perdas, sejam físicas, emocionais ou cognitivas, criam estratégias singulares para enfrentar a realidade e lidarem com as lembranças de uma vida marcada por conflitos, torturas, insegurança, privação, discriminação e violência. Há um elevado número de pessoas desaparecidas e os familiares chegam ao serviço com essa queixa latente.
 
Além de fortalecer a rede social de apoio, eu promovo treinamentos para os voluntários que trabalham no encaminhamento de pacientes, bem como para a equipe médica local. Nos últimos meses, venho encorajando a equipe de conselheiros a se dedicarem mais ao atendimento de crianças e adolescentes, oferendo, além de treinamentos, a criação de ferramentas adaptadas para o público-alvo, como brinquedos, livros, bonecos e brincadeiras terapêuticas. E os resultados de 2013 apontam que 98% dos pacientes terminaram o tratamento.
 
Por conta de a equipe nacional não falar inglês, o diálogo se dá com a ajuda de um tradutor. Durante anos, o programa foi administrado de forma remota, sem nenhum profissional internacional em campo, e alguns dos desafios foram a mudança de comportamento e a adaptação de uma nova proposta de manejo dos profissionais locais. Em meio às mudanças culturais, o desenvolvimento da sensibilidade e da empatia me dão a certeza de que, com o tempo, nós construímos uma relação de troca mútua e crescimento. E eu enxergo que, assim como todos os chechenos, nossos profissionais também precisaram desenvolver mecanismos de enfrentamento para lidar com a realidade e continuarem em seu próprio processo de reconstrução interna.