“Quando se trata de saúde, deve-se sempre olhar para as pessoas”

Pacientes na Clínica Jansuk, no condado de Yei, no Sudão do Sul. ©Manon Massiat/MSF
Pacientes na Clínica Jansuk, no condado de Yei, no Sudão do Sul. ©Manon Massiat/MSF

Isabela Teles compartilha a trajetória em seu primeiro projeto com Médicos Sem Fronteiras (MSF), em Yei, no Sudão do Sul. Como gerente de atividades de saúde mental, ela encontrou no trabalho humanitário uma forma de reinventar suas estratégias de apoio psicossocial 

Meu primeiro projeto em MSF foi em Yei, no Sudão do Sul, para trabalhar por seis meses como gerente de atividades de saúde mental. Uma mistura de ansiedade, expectativa e medo me acompanharam desde o aceite da proposta.  

Com o tempo, compreendi que abraçar o sonho de apoiar aqueles que estão excluídos do acesso aos cuidados de saúde significa abraçar não somente os riscos, mas as incertezas que podem me vulnerabilizar. 

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No começo de março de 2025, o pequeno avião do Serviço Aéreo Humanitário pousou numa pista de terra no meio da vegetação, dando início a essa jornada. O carro de MSF esperava por mim e outros colegas, e logo partimos em direção à cidade. Naquela estrada poeirenta e esburacada, o lugar onde faria meu trabalho ia se revelando. Crianças e adolescentes em uniformes escolares: camisa branca, calça e saia em tons escuros (azul, preto ou verde). Alguns ainda com meias brancas  impecavelmente brancas, até a altura dos joelhos  e suéterapesar do calor. A educação no Sudão do Sul é um privilégio para os poucos que podem pagá-la  (ou que pagam sem poder). 

Me chamou a atenção as mulheres em seus longos vestidos coloridos, transportando cargas na cabeça, tendo seus bebês amarrados às costas. Alguns dias depois, na clínica apoiada por MSF, vi uma menina de 3 anos de idade brincar de boneca dessa forma: amarrando-a nas costas e andando de um lado para o outro. Brincava de ser mulher/mãe, segundo suas observações: sempre em movimento, sempre se ocupando de algo.  

Quando se trata de saúde, há muito mais a ser investigado em cada caso e deve-se sempre olhar para as pessoas. Os livros científicos não detêm todo o conhecimento que precisamos para cuidar do outro.”   

Mango House (“Casa da Manga”, em tradução livre) era o nome do nossalojamento. Um pátio com duas imensas mangueiras ao centro, cercadas por quartos. O tamanho das mangueiras é impressionante. Hind, a gerente de recursos humanos  e uma das pessoas mais generosas que já conheci  me recebeu e explicou o funcionamento da casa e as regras. Era também o seu primeiro projeto. Os quartos eram modestos: cama  coberta com rede mosquiteira , mesa, cadeira e banheiroUma acomodação comum, mas muito diferente das cabanas redondas feitas de barro e palha (chamadas de tukuls) vistas pelo caminho. 

A primeira impressão que tive ao conhecer meus colegas foi de amabilidade e largos sorrisos. Recebi boasvindas muito acolhedoras. coordenador médico do projeto, Patrick, com sua humanidade, profissionalismo e sabedoria, me enriqueceu muito. “Pessoas leem livros, doenças não leem livros”, é o que ele costumava dizer. Quando se trata de saúde, há muito mais a ser investigado em cada caso e deve-se sempre olhar para as pessoas. Os livros científicos não detêm todo o conhecimento que precisamos para cuidar do outro.   

A equipe de saúde mental de MSF era composta por uma conselheira, uma conselheira educadora e uma supervisora. Também faziam parte do time quatro outros conselheiros que trabalhavam em unidades primárias de saúde do Ministério da Saúde local, com o apoio de MSF. Apesar de o projeto existir há alguns anos, era a primeira vez que um gerente de saúde mental era designado para ficar mais de um mês.  

Isabela Teles trabalhou como gerente de atividades de saúde mental de Médicos Sem Fronteiras em Yei, no Sudão do Sul.
Isabela Teles trabalhou como gerente de atividades de saúde mental de Médicos Sem Fronteiras em Yei, no Sudão do Sul. ©Arquivo pessoal

Encontrei uma equipe cheia de expectativas e necessidades, fazendo muito com poucos recursos. Os conselheiros eram recrutados na própria comunidade e recebiam treinamento para oferecer um suporte básico em saúde mental e atenção psicossocial (sessões individuais e em grupo, ações de sensibilização e conscientização sobre saúde mental e psicoeducação) 

O Sudão do Sul enfrenta uma crise de saúde mental profunda, mas muitas vezes invisível. Décadas de conflito, deslocamento, empobrecimento e insegurança alimentar causaram marcas duradouras. Informações que sinalizam a relevância do trabalho de MSF ao oferecer cuidados de saúde mental em um país onde projetos de apoio psicossocial continuam cronicamente subfinanciados e vulneráveis a cortes orçamentários repentinos. 

A maioria dos pacientes que os conselheiros encontram carregam cicatrizes psicoemocionais relacionadas à violência física, sexual e social. As dores que chegam até o serviço de saúde mental de MSF não podem ser lidas com categorias psicopatológicas genéricas e prontas.  

Dos que acessavam os serviços de saúde mental, a maioria eram mulheres. Conhecer a cultura e contratos sociais é entender o enquadramento dos arranjos que tornam a vida possível, assim como compreender o sofrimento na sua dimensão psicossocial.  

A mulher que perde o marido de forma violenta não encontra espaço para o processo do luto. O desespero de não saber como, sozinha, irá alimentar a si e cinco filhos transborda. A que se angustia e sofre diante do envelhecimento traz como causa o fato do único filho ainda não estar casado. Em um contexto sem seguridade social, a esposa do filho é responsável pelo cuidado dos sogros. Ter um filho solteiro significa um futuro em desamparo. A que não pode ter filhos se vê diante de uma dor muito mais profunda que o desejo da maternidade não realizado, pois a fertilidade é tida como valor central e obrigação social da mulher.  

O contexto era duro e desafiava o que eu sei e acredito sobre a saúde mental. Ele me provocava a refletir como algumas concepções de saúde mental dão conta apenas do ser humano dentro de um sistema de significados e práticas de uma cultura específica.  

Muitos dos meus dilemas, dúvidas e impotências eram elaborados no silêncio das horas pós-trabalho. A quietude não significava desamparo. Eu tive tempo, recursos, suporte e espaço. Fui lembrada diversas vezes de que era o meu primeiro projeto em MSF. Estava tudo bem precisar de tempo para aprender.  

O que venho aprendendo é que não existe fórmula em relação à prática da saúde mental no contexto humanitário. Ela precisa ser criada, recriada e cocriada.  É um processo gradual de medir os progressos não pelo ideal, mas pelo possível. 

 

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