“Pudemos dar a mão àquelas mães e cuidar de suas crianças”

Ana Amorim, pediatra de MSF, examina paciente com tuberculose pulmonar. A criança, atendida no Hospital Regional de Mazar-i-Sharif, recebeu os cuidados adequados e conseguiu sobreviver à doença. ©MSF

A pediatra brasileira Ana Amorim relata sua experiência trabalhando com Médicos Sem Fronteiras no Afeganistão.

Eu estou* em uma cidade do norte do Afeganistão chamada Mazar-i-sharif. Esta cidade, a quarta maior do país foi tomada pelo atual governo, liderado pelo Talibã, em 2021.

Mas essa história aqui é muita mais antiga. Esta população tem vivido sob guerras e conflitos há décadas, e já foi dominada inúmeras vezes por grupos nacionais e internacionais. Povo gentil e carinhoso, mas sem paz e obviamente sem acesso à saúde.

Em um país nessas condições, todos são atingidos e sofrem, porém sempre e em qualquer lugar são as crianças, principalmente aquelas com idade inferior a 5 anos de idade, as mais sacrificadas.

Afeganistão é um lugar de extrema vulnerabilidade para uma criança nascer. Ou, em outras palavras, é um dos países onde as crianças mais morrem. Onde há alta prevalência de tuberculose e desnutrição infantil. Onde o sarampo mata crianças de modo que eu nunca vi em toda minha carreira de 35 anos como médica e pediatra.

Enfermaria de sarampo no departamento pediátrico apoiado por MSF no Hospital Regional de Mazar-i-Sharif. Afeganistão, janeiro de 2025. ©Logan Turner/MSF

São tantos os desafios que, não à toa, nós, de Médicos Sem Fronteiras (MSF), eu, que atuo na minha função, e vocês, que doam e contribuem para que eu possa trabalhar, estamos aqui. Desde 1980, portanto há mais de 40 anos, MSF está ajudando a levar serviços de saúde às pessoas daqui, fazendo valer a máxima de que toda vida deve ser cuidada e toda criança tem direito a crescer e mostrar seu brilho próprio, seja onde for.

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Minha rotina é me levantar às 5h30 da manhã e sair para o hospital. Neste momento, estamos no inverno e está muito frio (sempre perto de zero grau). Vamos no carro de MSF: eu e toda a equipe (médicos, enfermeiros, farmacêuticos, técnicos de laboratório, psicólogos, engenheiros, logísticos, promotores de saúde, entre outros). Vamos sempre sob excelente segurança pacífica.

Eu chego ao hospital e vou logo colocar meu jaleco branco de trabalho e começo a percorrer o local, iniciando pela emergência até chegar ao centro de terapia intensiva infantil. A rotina é a de sempre, de muito trabalho. Precisa ter não apenas conhecimento, mas também braços, pernas e coração muito fortes, pois a demanda é imensa.

Vocês podem imaginar quem, quando me veem chegando, se encaminham em desespero ao meu encontro. São as mães com seus filhos tão graves no colo. Elas me tocam com suas mãos manchadas de sangue, de terra e de lágrimas. São mãos de mães buscando ajuda. E nós, Médicos Sem Fronteiras, estamos aqui.

O dia passa tão rápido que, quando percebo, já é noite. Volto para a casa onde toda a equipe mora. Chego exausta, mas na maioria das vezes com contentamento, porque pudemos dar a mão àquelas mães e cuidar de suas crianças. E o dia seguinte chega, e tudo recomeça.

Obrigada por ajudar Médicos Sem Fronteiras a salvar vidas.

*Diário de bordo escrito em janeiro de 2025.

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