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Promovendo saúde e dignidade

Nádia Duarte Marini conta a história de um inesperado nascimento em meio a tecidos coloridos
21/09/2018
Promovendo saúde e dignidade

Foto: Arquivo Pessoal

Estamos em Tete, uma cidade semi-rural no meio da savana. Por aqui passa um rio enorme, o Zambeze, e também crescem árvores gigantes, os embondeiros, mais conhecidos no Brasil como baobás.

Em Moçambique, apesar da língua oficial ser o português, existem mais de 20 idiomas locais, além das línguas dos países vizinhos. No meu dia a dia no projeto de MSF falo português com a minha equipe no escritório, inglês com os imigrantes que atendemos, e preciso de tradução em nhungue para fazer um aconselhamento na área rural. Quando não, em chichewa, que é falado na fronteira com o Malawi, ou em shona, idioma usado na fronteira com o Zimbábue. Estamos na rota de imigração, comércio e exploração de minérios da região. Essa riqueza de línguas e culturas é fascinante.

No nosso trabalho com a população que vive com HIV, coordeno duas equipes de apoio psicossocial que visitam diariamente comunidades urbanas e rurais para oferecer testagem e cuidados de saúde. São conselheiros, educadores e mobilizadores comunitários que visitam, todos os dias, crianças, adultos e idosos, para falar de saúde e promover cuidados essenciais para a vida.

Um dia, durante uma das visitas domiciliares de rotina, fomos interrompidos por um pedido de socorro vindo da rua. Era um moto táxi que levava uma mulher grávida para o hospital, mas teve que interromper a viagem no meio do caminho, pois ela dizia não aguentar mais: ia dar à luz ali mesmo. O homem, sem saber o que fazer, bateu na primeira casa à sua frente, sem sequer desconfiar que ali dentro tinha uma equipe de MSF. A mulher já estava agachada no chão, em frente à casa, com dores insuportáveis. Saímos todas num pulo: eu, a conselheira, a supervisora e a dona da casa, nossa paciente.

Até então, eu conhecia a capulana como sendo aquele tecido colorido que as mulheres moçambicanas usam em volta do corpo.  Não vi como e nem de onde, mas foram aparecendo capulanas, uma mais colorida que a outra. Estenderam uma no chão batido para que a mulher se sentasse. Fizeram duas ou três de cortina, para que ela tivesse mais privacidade naquele momento incerto. Não tivemos tempo de pegar luvas sequer. Enquanto fui chamar o motorista, na expectativa de que a levaríamos ao posto de saúde mais próximo para fazer o parto, ouço o choro do nenê. Supervisora e conselheira levantam-se, sorrindo, com o bebê nos braços, enrolado, claro, numa capulana! Levamos mãe e bebê ao hospital e, de lá, a equipe do Ministério da Saúde assumiu os cuidados. Por fim, retornamos à casa da nossa paciente para concluir a sessão iniciada.

Neste dia, graças à atitude da minha equipe, entendi que promover saúde significa promover dignidade. É dar ao outro o conforto possível, ainda que nem sempre nas circunstâncias ideais. É ser criativo e solidário, como as mulheres moçambicanas quando estendem suas capulanas em serviço do próximo.
 

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