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As primeiras impressões do Sudão do Sul

10/06/2012

Parte 1 - Gogrial, 10 de junho de 2012

Olá, já faz um tempo que não escrevo. O fim do meu projeto no Níger foi uma mistura de alegria e tristeza. Alegria porque, depois de tanto tempo longe da minha família, amigos e meu amado país, não via a hora de voltar para a casa, mas tristeza porque tive que deixar os meus novos amigos e a nova família que me acolheu tão bem no Níger. Como eu escrevi na minha carta de despedida para a equipe nacional: “Eu nunca vou esquecer o Níger”.

Depois de dois meses em casa, parti para um novo projeto, desta vez em Gogrial, no Sudão do Sul. Cheguei primeiro a Juba, capital do país, e, após dois dias de muitas reuniões sobre o projeto, fui para Gogrial.

Após dois aviões e meia hora de carro numa estrada de terra toda esburacada chegamos a Gogrial, que é uma cidade no meio do nada. Temos o hospital e nosso acampamento no mesmo lugar. A única fonte de energia disponível vem do gerador de MSF e a água vem de poço artesiano, também construído por MSF. Somos 15 profissionais estrangeiros e fui bem recebida pela equipe. As acomodações são melhores do que eu esperava. Achei que fosse ficar em barraca, mas cada um tem o seu próprio quarto (imita as casas locais daqui, chamadas de tukuls, feitas de pau a pique, mas as nossas são de concreto), temos uma cozinha, uma sala comunitária, uma grande área livre, uma parte com chuveiros e outra com os banheiros recém-construídos; um é uma latrina e o outro um vaso sanitário improvisado - acho que não existe vaso de louça em todo o Sudão do Sul). Em compensação, a comida é péssima. Aqui em Gogrial não encontramos nada. Em geral, nós mandamos o dinheiro e eles mandam grande parte da comida de Juba (a capital), mas, nas últimas semanas, tivemos um aumento dos casos de malária e de desnutrição e os aviões vinham cheios de Plumpy Nut e medicamentos, sem espaço pra nossa comida.

Agora está começando a temporada de chuvas. E não é chuva, é temporal. Dá até medo. Parece que vai levar o tukul embora. A fauna daqui também é bem interessante, para não dizer o contrário: tem insetos de todos os tamanhos, cores e formas. À noite, é impossível ficar do lado de fora. Dá a impressão de que seremos devorados por eles.

Quanto ao meu trabalho, o projeto é encantador, temos ambulatórios, o pronto-socorro, o hospital e a maternidade. Meu trabalho divide-se em supervisionar as consultas dos pacientes internados no hospital, auxiliar nos casos difíceis no ambulatório e supervisionar o pronto-socorro. Atendemos, na maioria das vezes, crianças, mas também muitos adultos.

Não temos médicos no Sudão do Sul. O país passou 20 anos em guerra civil e conquistou sua independência há um ano. Então, a maioria da população nunca foi à escola ou estudou em campos de refugiados. Temos dois tipos de clínicos: os chamados “comunity health workers”, que estudaram 9 meses e trabalham nos ambulatórios, e os “clinical officers”, que estudaram 3 anos e trabalham no hospital e no pronto-socorro. Com apenas alguns meses de estudo, não tenho dúvidas de que eles fazem um ótimo trabalho, mas o problema é que lidar com a saúde é algo complexo, então dá para imaginar que tenho que estar presente o tempo todo. Não tenho descanso, eles me chamam o tempo todo, durante o dia, durante a noite, no meio das minhas refeições, nos finais de semana. Adoro o meu trabalho, mas confesso que é realmente cansativo. O bom é que o tempo passa rápido; a semana mal começa e já é domingo e logo segunda de novo. Com certeza meu projeto vai passar super rápido.

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