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Precisamos falar sobre as mulheres

A psiquiatra Carolyne Cesar fala sobre o atendimento a sobreviventes de violência de gênero no Sudão do Sul
17/08/2018
Precisamos falar sobre as mulheres

Foto: MSF

As histórias se repetem na clínica: mulheres estupradas, mulheres mantidas em cativeiro como escravas sexuais, mulheres agredidas, mulheres assediadas. Diversas organizações apontam para o uso de violência sexual como uma “arma de guerra” ou “tática de terror”. O uso de corpos femininos como uma recompensa pelas dificuldades que os soldados enfrentam na guerra também não é novo. Entretanto, não é possível ignorar que essa violência também acontece em períodos de paz, mudando apenas o perpetrador. Os verbos continuam os mesmos, mas os sujeitos mudam para esposos, companheiros, namorados, amigos, conhecidos, vizinhos e todos os tipos de civis.

Em nossa clínica, o índice de violência doméstica é alto e superior ao índice de estupro. Mulheres agredidas por parceiros bêbados ou mesmo sóbrios, que se mostravam insatisfeitos por um dado comportamento realizado ou não realizado; ou qualquer outro “motivo” utilizado para perpetuar uma violência aprendida há muito tempo e que precede em anos incontáveis o que se vê hoje. Hoje é só uma colagem de muitos “ontens”.

A verdade, no entanto, é que talvez ninguém saiba ao certo sobre os índices de estupro. Existem em Yei outros serviços que tratam parcialmente casos de violência sexual e de gênero e esses outros atores são também unânimes ao relatar que o estigma e a vergonha, tão universais, são fantasmas pesados também aqui e impedem que sobreviventes procurem atendimento médico. De fato, a maioria dos casos de estupro recebidos em nossa clínica ocorreram mais de 72 horas antes. Vergonha, culpa e estigma resultam não apenas em cicatrizes emocionais, mas também em gravidezes não desejadas, abortos clandestinos, HIV, hepatite B e outras doenças sexualmente transmissíveis.

É numa tukul*, em nossa clínica, que algumas dessas mulheres têm voz, uma voz que se ergue para tentar quebrar um silêncio doloroso e pesado. É nesses relatos que o passado é elaborado e as vivências – impossíveis de serem mudadas – ganham novos significados. É nesse primeiro ato de coragem, o de falar, que as palavras tomam forma e a dor consegue ser amenizada. É ali, naquela tukul, que vemos mulheres se reerguendo, mulheres trazendo outras mulheres e talvez o mais importante: mulheres entendendo que ser considerada culpada quando se é vítima é só uma outra face de uma agressão comunitária.

* Tukul é uma construção típica do Sudão do Sul, feita de palha.