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Por que larguei tudo no Brasil e vim pra cá?

12/09/2012

Gogrial, 12 de setembro de 2012

É engraçado como são as coisas. Quando me mandaram as informações sobre este projeto, o mais importante era a clínica de tuberculose; quando cheguei aqui, descobri que a clínica de tuberculose que havia começado a funcionar no início do ano estava parada por falta de estrutura física e pessoal nacional capacitado. Por outro lado, em Bruxelas, na minha conversa com a médica responsável no Sul do Sudão, quando perguntei se tínhamos desnutrição por aqui, ela me disse que tínhamos pouquíssimos casos. E foi justamente o contrário. Na minha primeira semana aqui, encontrei pelo menos oito crianças desnutridas na enfermaria de pediatria (que tem 11 leitos ao todo) e esse número começou a crescer; um mês depois de minha chegada, abrimos a enfermaria de desnutridos (ITFC em inglês, ou CRENI em francês) e agora acabei me tornando responsável por ela, já que ninguém da equipe nacional tem experiência com desnutrição e muito menos os profissionais estrangeiros. Ou seja, tive que organizar o serviço e tenho que estar presente o tempo todo para saber se tudo está correndo bem. O melhor de tudo isso é que, quando estou muito cansada, me perguntando por que larguei tudo no Brasil e vim para cá, é só ir para o ITFC que me lembro: não tem preço olhar para aquelas criancinhas que eram pele e osso quando foram admitidas agora com bochechas, sete a dez dias depois, na alta. É muito recompensador.

Como as mães ficam pelo menos sete dias no ITFC, acabo conhecendo bem todas elas. Já até ganhei um nome Dinca: Abuk. Também estou melhorando meu Dinca, já faço as consultas sozinha e chamo o enfermeiro para me ajudar quando as mães resolvem me contar a história da vida da criança, porque só sei o básico (tem tosse? Diarreia? Como está o apetite?). Mas, já é melhor que nada.

Também estou feliz porque, diferentemente do Níger, os clínicos aqui adoram discutir casos e receber treinamentos. Tenho dado treinamentos toda semana! Nós também discutimos os casos interessantes próximo do leito e até os enfermeiros participam, fazendo perguntas. É muito legal ver que estão interessados.

Quanto à tuberculose, estamos implementando uma área no hospital para atender esses pacientes e também estabelecemos um relacionamento de cooperação com o Ministério da Saúde. Assim, podemos mandar nossos pacientes para este centro para pegarem os medicamentos.

Apesar de estarmos na época de pico da malária, não temos recebido tantos casos como no Niger. No ano passado, nesta época, já tínhamos três crianças por leito, mas por aqui acho que o problema é que tudo é tão longe e os pacientes têm que andar por tantos dias que chegam muito tarde, ou não chegam. Outro dia, recebi uma criança que tinha sido picada por uma cobra. Chegou quase morta e os pais me disseram que andaram por dois dias para chegar aqui; é muito triste. É uma realidade tão dura que não dá para comparar com nada que conhecia antes.

Mudando de assunto, finalmente recebemos o novo coordenador em Gogrial. Ele é da Bélgica e é superssimpático! O novo cirurgião também chegou e vai ficar por três meses. Ou seja, até o final da minha permanência no projeto terei um cirurgião. Ele é espanhol, mas morou em Angola e fala português. É até estranho falar português depois de meses falando outras línguas. O novo coordenador geral de projeto no Sudão do Sul também veio para Gogrial para conhecer. Ele é da Itália, mas morou no Brasil, em São Paulo, por nove meses e fala português com sotaque de paulistano. Foi superdivertido falar com ele. Nas duas últimas semanas, recebemos tantos visitantes que perdi a conta: o pessoal da coordenação em Juba (capital do Sudão do Sul) e depois o pessoal de Bruxelas. Mas foi legal ver umas caras diferentes e o bom foi que eles trouxeram comida! Queijos e chocolates belgas (os melhores do mundo, na minha opinião)! Uma festa! O bom de morar em um lugar como Gogrial é que passamos a valorizar todas as pequenas coisas da vida.

Estou supercansada, mas agora faltam três semanas para as minhas férias e quando eu voltar das férias faltarão seis semanas para eu encerrar minha participação no projeto. Como passa rápido! Nem acredito que este ano passarei o Natal com minha família.

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