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Os ricos aprendizados em Angola

Médica brasileira descreve a experiência com Médicos Sem Fronteiras em projeto de febre amarela na Angola
17/06/2016
Os ricos aprendizados em Angola

Foto: Arquivo Pessoal

Diálogo com minha irmã: “Eveline, fui chamada para mais um projeto com Médicos Sem Fronteiras!” “Quando você viaja?” “Amanhã!” “Amanhã?! Como assim?”

Trabalhar para MSF é isso: ser chamada para sair em projeto de emergência e, em no máximo três dias, deixar tudo que está fazendo e ir feliz e empolgada para o novo desafio!

Dessa vez, a proposta foi trabalhar em Angola para cuidar de pacientes com febre amarela (doença que só conhecia pelos livros). A viagem já começou com emoção! No primeiro voo (de Fortaleza a Lisboa), solicitaram um médico para atender uma emergência. Fiquei tensa com receio de ser algo grave e não ser possível dar assistência adequada no avião (já havia passado por situações assim antes). Por sorte, era uma coisa simples e o paciente logo melhorou.   MSF trabalha na terra, no mar ou no ar!

Chegando a Angola, fui a Luanda, capital do país, para receber informações sobre o projeto e, no dia seguinte, viajei a Huambo, local onde trabalhei por 2 meses.Os angolanos são bem simpáticos e acolhedores. E o melhor de tudo é que eles falam português, isso facilitou bastante minha comunicação com os pacientes.

Ficamos hospedados em um hotel que ficava em frente ao hospital. Ao lado havia um restaurante cuja gerente era meio angolana/meio brasileira, e garantia que tivéssemos ótimas refeições e que eu me sentisse um pouco em casa. Foi lá que conheci os ritmos locais (kizomba, kuduro, semba e tarrachinha) e pude apreciar algumas especialidades da culinária angolana.

Na primeira visita ao hospital, logo ao chegar à enfermaria, havia uma mulher gritando bem alto “A suku yange” (“Ai, meu Deus” em umbundu, uma das línguas angolanas) e pulando, que depois se jogou no chão. Ela havia acabado de receber a notícia do falecimento de um parente. Em muitos lugares da África, as pessoas manifestam assim a dor da perda de alguém próximo. Por essa recepção no hospital, imaginei que a experiência não seria fácil. E não foi! Vi essa cena se repetir muitas outras vezes. E nunca deixou de ser duro...

No começo, trabalhava todos os dias de 8h00 até cerca de 22h00 e ainda ficava todas as noites de sobreaviso para atender as intercorrências dos pacientes com febre amarela. Já acordava bem cansada, mas ao chegar ao hospital e ver o tanto de coisas que precisava ser feito, logo recuperava as energias e trabalhava a todo pique.

Logo na primeira semana, atendi pacientes com as mais diversas manifestações de febre amarela. Todos eram jovens, a maioria entre 18 e 35 anos, e muitos deles chegavam em estado grave. Perdi vários pacientes e sempre era muito doloroso dar a notícia aos familiares.

Dentre os sobreviventes, dois foram bem marcantes. O Carlos e o Mário, ambos com 18 anos. O Carlos chegou com insuficiência renal e hepática graves e, apesar do tratamento de suporte e de muitas horas dedicadas a ele, não estava apresentando melhoras. Expliquei à família sobre o risco de ele não sobreviver. O Mário apresentou vários episódios de convulsão e em seguida evoluiu para coma. O fígado e os rins também não estavam funcionando bem e ele apresentou vários sangramentos. Conversei com o pai sobre a gravidade do quadro e sobre as limitações que tínhamos para tratamento e ele ouviu tudo com muita angústia e, ao final, com os olhos cheios de lágrimas, repetiu várias vezes: “Obrigado, doutora!” Fiquei muito comovida com a angústia desse pai que estava prestes a perder o filho.

Após dois dias, para minha surpresa e alegria, os dois jovens começaram a melhorar de uma forma que eu nunca tinha visto antes. Após cerca de 10 dias, consegui dar alta aos dois. Foi uma grande festa no hospital! Infelizmente, nesse mesmo dia, chegaram dois outros pacientes graves, que em poucas horas foram a óbito. Era uma montanha russa de emoções, convivia com a oscilação entre a alegria da sobrevivência à doença e a tristeza da morte.

No dia seguinte, chegou a Esperança, menina de 13 anos, bastante desnutrida, com malária confirmada e suspeita de febre amarela. Estava bem grave, precisou de oxigênio e de várias transfusões sanguíneas. Surpreendentemente, a evolução dela fez jus ao nome e ela se recuperou de forma inesperada e, após 2 semanas, foi para casa em ótimo estado.

Certa vez fui chamada para ver mais um paciente grave e inconsciente. Qual foi minha surpresa ao constatar que sua língua estava cheia de carvão. A mãe me explicou que este era o tratamento caseiro para icterícia (olhos e pele amarelos).  Outra vez me deparei com um paciente que havia convulsionado antes de chegar ao hospital e percebi seu dedo indicador direito enfaixado e sangrando muito. Isso ocorreu em decorrência da crença dos familiares de que fazer um corte no dedo e chupar o sangue era o melhor tratamento para crise convulsiva!

Foi um projeto onde vivi muitas coisas novas: aprendi a cuidar de pacientes com febre amarela e percebi que com tratamento intensivo muitos pacientes conseguem sobreviver (tivemos uma mortalidade menor do que a descrita na literatura internacional para pacientes com febre amarela); nunca tinha perdido tantos pacientes em tão pouco tempo e nunca tinha visto pacientes tão graves se recuperarem com tão poucos recursos. É bem verdade que eles contaram com muita dedicação de toda a equipe... pois, como dizem os angolanos, “Estamos juntos!”