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O ritmo próprio do tempo em Moçambique

A médica Rachel Baccarini fala sobre o atendimento de pessoas com HIV em Beira
18/01/2019
O ritmo próprio do tempo em Moçambique

Foto: Morgana Wingard/NAMUH

O tempo em Moçambique parece ter um outro ritmo. Um ritmo que de tão lento e tão intenso confunde nossa cabeça. Cheguei ao projeto de HIV em Beira no início de julho de 2018, há quase 6 meses, e já se aproxima a hora da minha volta ao Brasil. Posso dizer que tantas coisas aconteceram que parece que foram dois ou três anos, mas ao mesmo tempo, foi como um piscar de olhos. Cheguei e já estou indo, fiz tanta coisa e parece que não fiz nada.

Beira é uma cidade à beira mar com aproximadamente 400 mil habitantes. O projeto é bem grande e focado na população mais vulnerável à infecção, chamada de população-chave (trabalhadores do sexo e homens que fazem sexo com homens). Atividades são desenvolvidas na comunidade, em um centro de saúde primária e no hospital central de Beira. São principalmente de prevenção, planejamento familiar, testagem para HIV e hepatite B, saúde sexual e reprodutiva, distribuição de preservativos, diagnóstico e tratamento de HIV avançado. O objetivo principal é diminuir a morbidade e mortalidade do HIV em Beira.

No Hospital, a maioria dos pacientes chegam muito graves, muitos estão desnutridos, com infecções graves relacionadas ao HIV. Médicos Sem Fronteiras apoia o hospital com médicos, enfermeiros, exames e tratamento. No Centro de Saúde funciona também atendimento aos pacientes com HIV e saúde sexual e reprodutiva.

Na comunidade, uma equipe de mais de 30 pessoas faz visitas domiciliares às pessoas atendidas, em um trabalho personalizado, cansativo e muito complexo. Na minha primeira semana no projeto, fui com a equipe e me vi de imediato com a realidade de Moçambique, que afinal não é muito diferente da realidade em toda África. Mesmo sendo brasileira e acostumada a trabalhar como médica em locais muito pobres como as periferias de grandes cidades, a pobreza aqui se estende para a maioria da população. Junto com a pobreza, a violência de todos os tipos é parte da realidade diária principalmente de mulheres e crianças.

O carro de Médicos Sem Fronteiras nos deixou numa área muito movimentada. Nas ruas sem pavimentação e cheias de buracos, muitas pessoas se movimentavam olhando dezenas de barracas onde se vendia de tudo. Bananas, tomates, repolhos, créditos para celular, sapatos e roupas sendo exibidos, espalhados pelo chão na frente das barracas. Em algumas barracas, mulheres fritavam uma espécie de bolinho que vendiam por 1 metical (o equivalente a 0,06 reais). As crianças corriam por entre os buracos e alguns carros e as txopelas, o triciclo que é o transporte mais popular.

Algumas pessoas da equipe ficaram por ali distribuindo preservativos e ensinando as pessoas a colocá-los, usando um molde de pênis de madeira que chamava atenção dos que passavam.

Eu acompanhei um pequeno grupo que entrou por pequenas vielas, becos enlameados, muito esburacados. Nós entramos cada vez mais, passamos por casas que são apenas quatro paredes de tijolo cinza aparente, com uma porta, capulanas (o colorido pano usado com frequência pelas mulheres do país) nas janelas sem vidros e teto de ripas de madeira e palha. Andamos por essas vielas debaixo de um sol escaldante por uns 10 minutos até entrarmos numa das casas.

A casa se resumia a uma sala de mais ou menos 6 metros quadrados. Nós éramos quatro pessoas e uma teve que ficar de fora porque não havia espaço. Dentro da casa estava uma mulher grávida de uns 6 meses, com um bebê no colo. No mesmo espaço ficava a cama, uma pequena mesa com uma televisão, duas cadeiras e um fogão de duas bocas. Uma vez dentro da casa, não se conseguia andar. Outras 3 crianças de 2 a 5 anos brincavam do lado de fora da casa por sobre montes de lixo e poças de água esverdeada e com muito mal-cheiro.

Ali nós conversamos com aquela mulher magra e de rosto sem expressão chamada Anika. Oferecemos testes, planejamento familiar, vacina de hepatite B. Eu vi o resultado do seu último exame e a encaminhei para o centro de saúde. E ouvimos um pouco da sua história.

Em resumo, aos 8 anos era maltratada pela mãe e abusada pelo pai. Aos 14 engravidou do seu amigo de infância. Saiu de casa com a barriga de 6 meses porque não conseguiu abortar por mais ervas que tenha tomado e por mais objetos que tenha introduzido na sua vagina. Morou na casa de uma tia até a criança nascer. Se prostituiu aos 15 anos, logo depois do parto feito em casa. Engravidou mais 4 vezes de homens de quem nem sabe o nome e ali estava ela, com seus 25 anos que pareciam 35, grávida, HIV positiva, tratando de tuberculose no centro de saúde, convivendo com a fome, a doença e a violência; trabalhadora do sexo em Beira.

Depois de meia hora saímos da casa de Anika e continuamos andando pelos becos cheios de lixo e de crianças até encontrarmos a próxima casa de mais uma trabalhadora do sexo. Minha cabeça doía e meu estômago se revoltava diante das cenas e das histórias que se repetiam naquela manhã.

Essa era a rotina daquele grupo de trabalho. Muitas mulheres da nossa equipe, corajosas e incansáveis mulheres, tinham histórias semelhantes e hoje se sentem orgulhosas de trabalhar com Médicos Sem Fronteiras e poderem ajudar suas companheiras de infortúnio.

Perto delas eu sou só mais uma estrangeira cheia de arrogância e expectativas. Mas também muito orgulhosa por fazer parte dessa organização e por poder conhecer esse povo sofrido, resistente, amigável e colorido.

 

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