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O nascimento de um país

A psicóloga Vanessa Cardoso relembra como foi acompanhar a votação que levou à criação do Sudão do Sul
13/10/2018

Foto: Acervo pessoal

Aqui, se não fossem nossos geradores, escuridão total. Não há iluminação em todas as ruas da cidade de Yambio. E quando todas as luzes estão apagadas, o céu fica lindo porque você pode ver muitas, muitas estrelas. Esses dias a lua estava quase cheia de si e toda amarela. Deu vontade de procurar o meu lugar na fileira, sentar e aplaudir. O pôr do sol também é lindo entre as árvores.
 
Pensei que internet me faria mais falta. Não tenho conexão a menos que vá a uma cafeteria. Não há pressa e também não há razão para tal. Às vezes me sinto num mundo à parte. Parece que só você não sabe que as 24 horas aqui têm outro compasso. Todos os verbos de movimento, andar, falar, escrever, contar, por exemplo, são verbos com outro movimento.
 
Vejo que as pessoas me olham muitas vezes muito sérias e fico em dúvida se devo cumprimentar todas ou se sigo meus caminhos em silêncio. Tenho sempre a impressão de que tamanha seriedade não corresponderá aos sorrisos que eu sempre quero dar. Sempre que sorrio, no entanto, me encanto com um outro sorriso muito maior e com olhos apertados de tanta vontade. Quando digo “guine pai?” – que quer dizer “como vai?” em zande, língua local mais falada aqui – elas se surpreendem e às vezes, mesmo sem nem me responder de tão espantadas que ficam, eu já sei como elas estão.
 
O Natal aqui eu não senti porque seus símbolos não estiveram presentes, só o calor. Os europeus que estão comigo sentiram menos ainda exatamente por causa do calor. Não vi pinheiros, enfeites vermelhos... Via muitas pessoas no dia 24 de dezembro nas ruas em suas bicicletas para lá e para cá carregando comida sobre a cabeça ou em suas garupas. Esse era o sinal. O réveillon também não senti. Trabalhei até às 18h30, me juntei a uns amigos, comemos a mesma comida. Esperei os fogos, houve tiros. Era um dia como qualquer outro. Quando voltamos para casa, arrumamos a mesa lindamente e enquanto esperávamos para o ritual de passagem, conversávamos e quando a meia-noite chegou, sem anúncio na TV, rádio, contagem regressiva em alto-falante, fogos de Copacabana, brindamos e fomos dormir. Só precisávamos estar lá à meia-noite, fazer a passagem do ano e com a paz de quem fez o que deveria ter feito, ir dormir com a consciência em paz. Nem por um instante lamentei estar aqui, nem por um instante preferi o ano passado, nem por um instante quis estar em outro lugar.
 
O período de votação termina hoje, sábado 15 de janeiro/2011 às 18h. Não haverá prorrogação como no período de registro de votantes. Em 1 mês o resultado sobre a separação ou não do sul e do norte deve sair. Nenhum incidente violento registrado no estado em que vivo, Western Equatoria, e uma votação muito entusiasmada e participativa e esperada tanto quanto o seu resultado. Não conheci ninguém, senão do norte (embora esses não votem), que fosse a favor da unificação. Na missa de domingo de 8 da manhã na igreja de Saint Mary o padre e o governador agradeciam a Deus pela transparência de um processo pacífico bem seguido por observadores internacionais. E muito embora tenham também pedido que ao anúncio do resultado, seja qual for, os cidadãos do sul não se deixem levar por atos violentos, fica sempre muito claro para mim que o que todos aqui desejam mesmo é a separação. Inevitável separação. A ver.
 
Depois da votação
 
No início pensei até que a ânima do sudanês do sul havia mudado agora que já se sabe oficialmente o resultado do referendum. Ao menos no estado de Western Equatoria, ainda em 20 de janeiro já se sabia que 99.52% votaram a favor da separação com o norte. Dos 10 estados do sul, em um apenas a porcentagem não alcançou os 99%, mas ainda assim foi maioria. Pensei que haveria uma enxurrada de comemorações, uma euforia e que em todos os lugares não se falaria em outra coisa. Não foi assim. Eu sei que 90% da população não lê ou escreve. Eu sei que essa é uma das regiões mais pobres do mundo. Eu sei e eu vejo os prejuízos das duas guerras civis. Talvez eu esteja enganada e o país ainda não tenha nascido. Talvez só a separação não justifique o prazer da liberdade. No final das contas, não há uma estrada asfaltada, energia elétrica, água potável, a esmagadora maioria das pessoas vive em cabanas, anda horas para a colheita de folhas, carvão, madeira, para retirar água de poço, depende da distribuição de alimento de organizações internacionais.