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Nyabol, a menina do sorriso agridoce

A médica pediatra Mónica Costeira recorda a história de uma pequena paciente no Sudão do Sul com quem encontrou o propósito de trabalhar com a MSF.
09/04/2021
Malakal, Sudão do Sul

Foto: Arquivo pessoal

Vou contar-vos a história de uma menina de sorriso fácil que me conquistou o coração na minha primeira missão com a Médicos Sem Fronteiras (MSF).

Sou pediatra e o meu sonho sempre foi trabalhar com a organização internacional humanitária MSF, prestando cuidados médicos às crianças mais vulneráveis.

Foi-me proposta uma missão de seis meses no projeto que temos em Malakal, no Sudão do Sul, que inclui dois hospitais, um deles num campo de proteção de civis (PoC) e outro no centro da cidade. Ambos os hospitais incluem enfermaria de neonatologia, pediatria e malnutrição. Nunca vi tantas crianças doentes como nestes meses!

Foram vários os desafios clínicos que enfrentei, sendo um deles o tratamento de doentes com diabetes tipo 1 (DM1), doença crónica que afeta crianças e adolescentes em todo o mundo. Antes de trabalhar com a MSF, observei várias crianças com DM1 em Portugal. O tratamento destas crianças exige muita disciplina, pois requer a administração de insulina diariamente, durante toda a vida, e exige uma dieta controlada e rigorosa, associada à realização de atividade física.

Quando cheguei ao nosso hospital no campo PoC em Malakal, conheci a Nyabol. Uma menina de 11 anos, linda, sempre sorridente e brincalhona. Uma menina que conquistou todo o staff hospitalar com um olhar doce e inocente e um sorriso maroto e alegre. A Nyabol é de uma aldeia chamada Kodok, uma linda aldeia junto ao rio, que se localiza a horas de barco do hospital da MSF em Malakal, a única instituição médica com insulina naquela região. Certo dia, a Nyabol começou a vomitar, já não tolerava nada. Tinha perdido vários quilos nas últimas semanas. Sabia que estava doente, mas não sabia porquê.

Os pais pediram ajuda ao médico que trabalhava num pequeno centro de saúde na aldeia onde vivem. Ele suspeitou que ela tivesse DM 1 e estivesse em cetoacidose diabética (uma emergência médica). Pagou o barco de transporte e enviou-a para o nosso hospital. Quando a Nyabol chegou, estava gravemente doente. Procedemos ao tratamento e ela melhorou progressivamente.

Contudo, sabíamos que ela necessitava de fazer insulina todos os dias, para o resto da vida, várias vezes por dia. Tínhamos consciência também de que a insulina tinha de ser armazenada em frigorífico para manter a estabilidade. No entanto, a Nyabol estava a viver numa barraca no campo de proteção de civis, sem eletricidade. Como explicar a uma menina de 11 anos, que se encontra sozinha, que tem uma doença para o resto da vida e que tem de vir ao hospital de manhã e à noite administrar insulina? Como fazê-la entender que a vida dela dependia de ela mesma cumprir as recomendações médicas? Como levá-la a compreender que não podia voltar para a aldeia e para junto da família, porque não havia insulina, não possuíam glucómetro, não dispunham de pessoal treinado para fazer o devido acompanhamento da DM 1, não havia qualquer suporte para lidar com a doença?

Achava que era difícil viver com DM 1 em Portugal, mas nunca imaginei como seria viver com diabetes tipo 1 em contextos de conflito e em campos de pessoas refugiadas ou deslocadas internas. Nunca imaginei as provações pelas quais estas crianças passam. O contacto com esta realidade foi um choque. Imaginar que esta menina e todas as outras crianças que sofrem desta doença poderiam ter uma vida completamente diferente se estivessem noutro país. Saber que temos o tratamento para a doença, mas perceber que os obstáculos vão além de conhecer e ter o tratamento, gerou em mim uma grande frustração. A Nyabol só queria voltar para a aldeia dela, para junto da família. Como a poderíamos ajudar? Como poderíamos manter o tratamento médico dela naquelas circunstâncias?

A solução passou por transportarmos a Nyabol de volta à aldeia, levando insulina e todo o material médico necessário para o tratamento da doença. Coordenámos a nossa ação com o médico e enfermeiros que se encontravam no centro de saúde de Kodok e demos formação teórica e prática acerca de DM1 e de como agir nas diferentes circunstâncias. Estabelecemos uma rede de aprovisionamentos para que a Nyabol pudesse receber insulina diária na aldeia.

Alguns dias antes do Natal, já tínhamos conseguido preparar tudo para a levar de volta a casa. A alegria dela por reencontrar a família, a aldeia, é algo que ficou gravado na minha memória. Foi um dos dias mais bonitos e gratificantes da minha vida, ver espelhado no sorriso daquela menina todo o nosso esforço para que ela pudesse ter uma vida normal, junto da família.

Estávamos a chegar ao centro de saúde de Kodok, onde combinámos encontrar-nos com a família de Nyabol. Ao longe, vi um homem alto e magro, junto à entrada. Reparei que o homem olhou para a Nyabol e ficou paralisado… as lágrimas escorriam-lhe pelo rosto carregado de rugas. Quando Nyabol se aproximou, ele abraçou-a e, continuando a chorar, disse: “É um milagre, agora acredito na Medicina, vocês trouxeram a minha menina de volta, eu pensava que ela tinha morrido, todos nós pensávamos que ela não ia sobreviver”.

As lágrimas escorreram pela minha face, deixando-me um sabor salgado na boca, um sabor que me fez lembrar de casa, do meu oceano, dos meus pais e de como aquele reencontro tinha sido um verdadeiro milagre. Ali, naquele momento, encontrei todo o meu propósito de trabalhar com a MSF, todo o propósito da organização, o propósito de estar ao lado de quem é mais vulnerável, de cuidar e tratar de quem não têm acesso a cuidados de saúde básicos, ali encontrei o meu propósito de vida – dar uma oportunidade de vida ao outro, permitir que, apesar de todos os obstáculos e desafios, as pessoas continuem a ter espaço para sonhar, a ter esperança de que a vida vai melhorar, de que não estão sozinhas, de que há quem se preocupe, de que há quem queira ajudar.

Por fim, fiquei com uma sensação agridoce… o que seria de Nyabol se a MSF não estivesse lá? O que é feito de todas as “Nyabol” que vivem com diabetes tipo 1 em contexto de conflito e em campos de refugiados, sem acesso à insulina de que tanto necessitam para sobreviver?

 

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