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A morte com nome e sobrenome

22/10/2014

Entre Conacri, na Guiné, e Monróvia, na Libéria, onde estive, descobri que a morte tem nome e sobrenome: vírus Ebola. Sem o menor pudor, o Ebola se impõe entre as pessoas impedindo-as de se tocarem, de cuidarem de seus entes queridos e, mais concretamente, dentro dos corpos que perecem dia a dia, enchendo cemitérios e mantendo acesa a chama dos crematórios.

Pude conhecer, em minha passagem por Conacri, o centro de tratamento de MSF. Por ser psicóloga, busquei saber mais sobre como atua a equipe psicossocial nesse centro, composta por uma supervisora guineana com anos de experiência no aconselhamento de pessoas com HIV, uma conselheira e dois promotores de saúde. Eles são o que convencionamos chamar de “sobreviventes”. São pessoas que foram tratadas pela equipe de MSF e conseguiram sobreviver ao ataque furioso desse vírus tão letal.

Ao conversar com uma dessas pessoas, ouvi que, inicialmente, voltar à área de isolamento para conversar com os pacientes e mostrar que é sim possível sobreviver ao Ebola, foi difícil para ela. Foi difícil reviver aqueles momentos nos quais sua vida esteve tão perto de se findar. Mas hoje, ela se alegra por estar viva para poder ajudar. Atitude bela, e também cercada de sua própria realidade de sobrevivente. Antes professora em uma escola, estigmatizada, o diretor não a quer de volta.

Em Monróvia, a realidade é também tão brutal e tão extremamente difícil de crer que nos pegamos nos perguntando se não era aquele um filme de ficção científica. Não! É real, é verdade. Vemos circulando dentro das áreas de isolamento a equipe cuidadora em suas vestes de proteção extrema (a PPE – Personal Protective Equipement, em inglês) que se esforça para passar um pouco de si através dos olhos, a única parte do corpo que fica visível. Do lado de fora da zona de isolamento, o protocolo: lavar as mãos a cada entrada e saída de alguma área ou tenda, passar spray nos sapatos (botas, de preferência) e, como sempre, ser criativo para saudar as pessoas sem tocá-las.

No portão de entrada, testemunho por detrás da cerca que garante a distância necessária para evitar o contágio, uma cena que me choca, mas que, para aqueles que já estavam ali há algum tempo, era mais uma de tantas: uma menina de cerca de dez anos foi largada por sua família na frente da porta. A familia partiu, deixando-a para trás. Como um último gesto de cuidado, deixaram ao lado dela um pouco de comida e uma garrafinha d’água. Uma atitude que parece dificil de aceitar, mas que é preciso entender, levando-se em conta um contexto onde a comunidade desesperada pede que as famílias se desfaçam de seus doentes. Algum tempo depois, veio um membro da equipe médica em sua veste de proteção e conduziu-a até a zona de triagem, tocando-a com sua mão protegida por uma grossa luva verde de borracha.

Próximo dali, outra equipe de quatro pessoas, também todas vestidas com PPE, foi retirar um corpo de dentro de um táxi. O contágio por corpos contaminados com o vírus Ebola é altíssimo e, portanto, todo cuidado é necessário. Aquele corpo seria colocado em uma sacola especial branca. Com cemitérios cheios e com o grande número de mortos todos os dias, alguns são cremados coletivamente.

Existem ali duas equipes que tem relação com saúde mental: uma para pacientes e parentes, que além de dar o suporte emocional, contata e prepara a família, seja para anunciar um óbito, seja para assegurar que os pacientes curados do Ebola sejam bem recebidos em suas casas e comunidades; e outra que ouve a equipe que trabalha no centro de tratamento, que lida dia a dia com uma realidade bastante difícil.

Apesar de tantos momentos impactantes, a dedicação da equipe de MSF é incessante. Alguns membros da equipe nacional chegaram a perder parentes e amigos, assistem a outras tantas mortes no trabalho, mas, em conjunto com os profissionais internacionais de MSF, lutam pela vida de tantos outros.

E quando esses nossos sobreviventes saem da área de isolamento para estar de novo entre nós, são recebidos com roupas novas, um certificado que atesta sua imunidade ao virus Ebola, dança e música. A felicidade se espalha a cada vez que isso acontece entre sobreviventes, equipe nacional e todos aqueles que foram até essa parte do mundo fazer o melhor de seus trabalhos. E isso dá a força necessária para continuar.

Gostaria de concluir reforçando o que a presidente de MSF, dra. Joanne Liu já vem dizendo há varios meses no que diz respeito à necessidade de apoio. Vi colegas exaustos, correndo atrás de salvar o maior número de pessoas possível. Mas é preciso que mais organizações, governamentais ou não, ajam.

A morte aqui tem nome sim e ela não distingue nacionalidades, fronteiras e posições sociais. O vírus Ebola tenta impedir pequenas ações que nos fazem seres humanos essencialmente baseados na coletividade. Mas ele também passa a mensagem de que, para combater esse impedimento, é preciso ter uma força comum, ações humanas conjuntas. O Ebola obriga, enfim, que todos o combatam de maneira coletiva e nos leva a tentar entender nossas responsabilidades individuais como parte da humanidade.