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Moçambique: minhas primeiras impressões

Médica infectologista brasileira fala sobre as batalhas diárias do trabalho com HIV em Maputo
30/04/2016
Médica infectologista brasileira fala sobre as batalhas diárias do trabalho com HIV em Maputo

Foto: arquivo pessoal

Data em que o diário foi escrito:
Há pouco mais de um mês, embarquei para Maputo, capital de Moçambique, para a minha participação em um projeto de Médicos Sem Fronteiras (MSF) como médica infectologista. Moçambique é um dos 10 países mais pobres do mundo e um dos mais afetados pela epidemia de HIV/Aids. Em Maputo, a principal causa de óbito em adultos é relacionada com o HIV, e a segunda causa de morte de crianças.

Moçambique possui um imenso déficit de profissionais de saúde, principalmente médicos. Esse fato associado à falta de recursos, aos constantes conflitos na região e à prevalência altíssima de HIV/Aids tornam a situação extremamente delicada. No tentativa de expandir o acesso aos medicamentos antirretrovirais para todos do país, o atendimento de HIV/Aids, com ajuda de MSF, foi descentralizado para as unidades básicas de saúde. Quando o paciente HIV positivo necessita de cuidados mais especializados, seja porque estão com a imunidade muito baixa, pela presença de doenças oportunistas, como sarcoma de Kaposi, ou ainda porque necessitam de antirretrovirais mais caros para vírus resistentes aos medicamentos comuns (o que nós chamamos segunda e terceira linha), eles são encaminhados para o local onde trabalho.

Tenho disponível um pequeno hospital onde é possivel prescrever antibioticos, tratar algumas doenças oportunistas, como meningites criptococcicas, ou prescrever hidratação para pacientes severamente desidratados por febre ou diarreia. O projeto também possui uma área para tratamento de Sarcoma de Kaposi, um câncer raro na população em geral, mas relativamente comum em pessoas HIV positivo com imunodepressão avançada.

Também aqui tratamos crianças com HIV. Essa parte para mim é a mais difícil. Apesar de ter visto um pouco de pediatria durante a residência de infectologia, sempre tive medo de tratar crianças. Especialmente as que estão muito doentes. Não acho natural criança morrer ou sofrer, principalmente quando a causa desse sofrimento está relacionada com a miséria. Tratar crianças com HIV é extremamete difícil. Por exemplo, não existem muitas formulações pediátricas dos antirretrovirais disponíveis nem muitos estudos com esse tipo de população. Além disso, muitas das crianças que trato vivem em situação de pobreza extrema, estão gravemente desnutridas e passam fome. Me sinto impotente prescrevendo medicamentos para crianças esfomeadas. Maputo é uma cidade grande e penso que a pobreza em grandes cidades, comparada com a do campo, é ainda mais cruel.

Todos os dias, nossa equipe em Moçambique trava pequenas batalhas. Até o momento, sinto que perdi a maioria delas. Às vezes, me alegro com alguma vitória: um paciente que se recupera e volta com o sorriso nos olhos. Porém, logo em seguida, surgem novos e novos doentes. Meu maior desejo quando vejo um menininho doente, com aqueles olhos grandes e tristes, é de pegá-lo no colo e abraçá- lo até a doença passar. Infelizmente, isso não acontece, e preciso voltar à realidade do trabalho.

A parte boa de tudo isso é que tenho o apoio de muita gente. Em Maputo, nossa equipe é maravilhosa. Sempre disposta a ajudar alguém, sempre lutando pelo melhor dos pacientes. É incrível trabalhar com eles. No Brasil, tenho vários professores disponíveis para tirar dúvidas, discutir casos, além de amigos queridos que me ajudam, enviando artigos científicos e apoio sempre que necessito.

Li uma vez no livro “A lista de Schindler” a seguinte frase: “Aquele que salva uma vida, salva o mundo”. Essa frase sempre representou para mim a ideia de ser médica. Coincidentemente, na semana em que fiquei sabendo que fui aprovada na seleção de MSF, essa frase estampava todos os relógios de rua da cidade de São Paulo. Quando a li, não acreditei. Parei o carro e as lágrimas escorreram pelo meu rosto. E aqui estou, tentando salvar a mim mesma. Procurando alegria e força no fundo daqueles olhos tristes...