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Minha primeira missão em Moçambique

10/12/2012

Parte 1 - Maputo, 10 de Dezembro de 2012

Olá, gente! Este é meu primeiro diário de bordo e, também, meu primeiro projeto em MSF. Estou em Maputo, capital de Moçambique, em um projeto de tuberculose (TB) e HIV. Sou responsável pelo programa de Profilaxia da Transmissão Vertical (PTV). A prevenção vertical é um tratamento que visa evitar a transmissão de um vírus, neste caso do HIV, da mãe para o filho durante a gravidez, parto e/ou amamentação.

Moçambique, atualmente, enfrenta uma epidemia de HIV, com uma prevalência de 11,5% em adultos entre 15 e 49 anos e 15% entre mulheres grávidas. No adulto a principal via de transmissão do HIV é sexual, mas nas crianças é por meio da transmissão vertical (TV), da mãe infectada durante a gestação, no trabalho de parto, ou durante o período de aleitamento materno. Na cidade de Maputo, essa prevalência é ainda maior, sendo 16,8% entre adultos e 17% entre gestantes.

Desde que cheguei, em junho deste ano, desenvolvemos muitas atividades em parceira com o Ministério da Saúde local (MISAU). Uma das atividades mais intensas desenvolvidas é a supervisão do programa de PTV em cinco centros de saúde. Para desenvolver essa tarefa, trabalhamos em equipe, eu e mais duas enfermeiras locais, superexperientes e competentes. Está sendo uma rica troca de conhecimentos e estou aprendendo muito com elas.

Dentre as atividades que compõem a supervisão temos: a consulta de pré-natal, para garantir que 100% das mulheres sejam testadas para HIV e que recebam tratamento caso o resultado seja positivo; a assistência durante e após o parto, e também na consulta da criança em risco, para garantir que os filhos de mães soropositivas recebam assistência e tratamento adequados; e, por último, a consulta de planejamento familiar para as mães soropositivas que optam por um método contraceptivo. Isso é o que chamamos de cascata do PTV: pré-natal – parto – pós-parto – consulta da criança – planejamento familiar. Toda essa cascata é supervisionada de modo a garantir a melhor assistência possível, com fornecimento precoce de tratamento antirretroviral às gestantes e também às crianças.

Esse projeto está sendo um tanto desafiador, principalmente no que diz respeito à qualidade da assistência, pois trabalhamos com um número reduzido de enfermeiros nacionais para um grande volume de trabalho nos setores de saúde materno infantil. Todos os dias são centenas de mulheres grávidas nos centros de saúde a procura de assistência pré-natal, e também nas maternidades, consultas pós-parto e consultas de planejamento familiar. Garantir que todas essas mulheres tenham uma assistência de qualidade é uma tarefa difícil, já que não há mão de obra na quantidade necessária para atender à tamanha demanda. Organizações como MSF estão trabalhando no país para oferecer profissionais capacitados para atender a essas necessidades. Mas, apesar das inúmeras dificuldades encontradas, o país - e o mundo! – celebrou, no dia 1° de dezembro, o Dia Mundial de Luta contra a Aids. E, em Moçambique, o tema da celebração para este ano esteve relacionado à prevenção de novas infecções por HIV de mãe para filho. Estamos lutando juntos para diminuir a transmissão vertical do HIV e todos os profissionais estão motivados trabalhando intensamente em prol deste objetivo.

Venho de uma experiência anterior de cinco anos trabalhando com a saúde indígena na Amazônia. A experiência, de certa forma, me sensibilizou muito no que diz respeito às questões culturais de um povo e a importância desse aspecto na vida e na convivência dentro de uma comunidade. O que a saúde indígena na Amazônia tem em comum com este meu atual trabalho é que, em ambos, temos uma questão cultural envolvida de forma muito forte, em todo o processo de saúde e doença da população. É preciso estarmos sempre atentos, trabalhando juntos e com bom senso, mas nunca descartando a importância do outro na cura de nossos pacientes. Para aprofundar um pouco sobre esse assunto, que é complexo, precisaria de um diário de bordo inteiro, porque um parágrafo é pouco para um assunto tão interessante! Então, é isso… Esse assunto ficará para o próximo diário de bordo. Até breve!